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Dito e Feito #14 Transcrição Clara Amaral – Ditado

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Este é o Dito e Feito, o podcast do Teatro do Bairro Alto onde falar é uma maneira de fazer, e vice-versa. Eu chamo-me Laura Lopes. Sou programadora de artes performativas do TBA. O ano passado, antes da abertura do teatro, começámos online; e agora continuamos a pensar uma programação específica para as plataformas digitais. É o caso deste episódio, que se chama Ditado e resulta de um convite à artista Clara Amaral. A Clara é uma coreógrafa portuguesa que vive em Amesterdão desde 2009. Na sua prática recorre à imaginação, à intimidade e à poesia para conceber obras que cruzam a coreografia e a escrita. Este episódio é em português; está disponível uma versão em inglês no episódio seguinte do podcast. E podem encontrar a transcrição deste e dos nossos outros episódios em teatrodobairroalto.pt

Cara Ouvinte,
Digamos que o que te permite esta condição de ouvinte é o facto de alguém falar, neste caso eu, e outro alguém ouvir, neste caso tu. Digamos também que se quisermos alterar a tua condição de ouvinte teríamos de te proporcionar outro papel que não somente o de escutar. No desejo de te encontrar outro papel encontra tu mesmo um papel e uma caneta. Pode ser um papel qualquer desde que tolere a intervenção de uma caneta. E a caneta? Qualquer uma servirá também. Mas no intento de tornar esta experiência mais aprazível para ti, e consequentemente para mim, encontra então a tua caneta preferida.
Eu espero.
Quando encontrares a caneta e o papel, senta-te à mesa e coloca-os em frente a ti, numa preparação para o processo de escrita. O papel em frente ao teu corpo e a caneta no teu sítio preferido. Assim se cria esta constelação que é composta por uma caneta que aguarda expectante a possibilidade de interferir num papel, um papel que talvez, por agora, seja indiferente à presença desta caneta, e tu, caro ouvinte, o corpo que permite a relação entre estes dois. Coloca então as tuas mãos em cada lado da folha e observa a latência do teu corpo. De forma a que possas escrever aquilo que eu digo o meu tempo será outro, para que assim te seja permitida a absorção sonora das palavras e em seguida a sua tradução em linhas, porque na verdade são linhas do que se trata, linhas curtas, e outras mais compridas. Linhas curvas e outras linhas rectas.
E aqui vamos. Agarra a caneta.

Cara Leitora,
Suponho que só te transformas em leitora no momento em que escreves estas primeiras palavras, pois antes disso não havia nada para ler, logo tu não eras leitora e eu tão pouco escritora. Quando me emprestas a tua mão, então juntos, podemos dizer e fazer, ainda que este tempo seja um tempo problemático para o emprestar de mãos. Mas ao mesmo tempo este tempo é o tempo que mais pede para que mãos se emprestem, para que uma mão auxilie a outra mão, ainda que remotamente, a fazer aquilo que tem de ser feito.

Por agora não escrevas mais, regressa temporariamente à tua condição de ouvinte: talvez não seja aquilo que tem de ser feito, vamos riscar o “tem de ser feito”, eu espero não te preocupes, permite que os teus olhos detectem o “tem de ser feito” e risca-o. Como se nesse riscar se ocultasse um qualquer vudu da escrita. Assim como se riscando certas palavras, as coisas, as pessoas e as situações, as coisas, as pessoas e as situações (elas mesmas) deixassem de existir- um certo vudu da escrita portanto. Dá-nos um parágrafo. Voltamos a escrever:

Para que uma mão auxilie a outra mão, ainda que remotamente, a fazer aquilo que temos vontade de fazer.
Parágrafo
Enquanto escreves esta frase olha para a tua mão, a tua mão que segura a caneta e vê como se move para escrever o que eu digo. Agora, deixa que os teus olhos deslizem da tua mão para a folha e vê como a cada palavra escrita esta folha está cada vez mais longe de ser uma folha vazia e cada vez mais perto de ser uma carta que escreves a ti próprio. Quase poderia ser um diário se eu não estivesse aqui a dizer-te o que escrever. Ou uma nota que deixarias em cima da mesa para alguém ler. E seria seguramente uma carta falhada se tu não a escrevesses.
E aqui vamos,

sublinha por favor o “E aqui vamos”, como se no ato de escrever se exercesse uma certa relação simbiótica.
Risca por favor “certa”.

As palavras surgem em mim e eu digo-te as palavras e tu, com a tua caneta e a força da tua mão escreve-las no papel, parágrafo
Como se o prolongamento da minha escrita fosse a tua mão. Parágrafo
E aqui vamos. Parágrafo
Parágrafo
Parágrafo
Parágrafo
Dos teus ouvidos para a tua mão. Parágrafo
Da tua mão para o papel. Parágrafo
E do papel para os teus olhos. Parágrafo
E assim numa relação de lonjura exercitamos o estar juntos através da escrita.
Parágrafo
Parágrafo
Parágrafo
Parágrafo
Parágrafo
Assinamos
Clara Amaral e
Escreve a data de hoje,
Pousa a caneta,
Dobra o papel ao meio,
Encontra um livro em que o papel dobrado ao meio caiba na perfeição,
E guarda o papel dentro desse livro.

Este foi o Ditado de Clara Amaral. Dito e Feito é um podcast do Teatro do Bairro Alto. A edição é de Sara Morais. A música é de Raw Forest.
Acompanhem o TBA nas redes sociais e em teatrodobairroalto.pt

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