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Dito e Feito #12 Transcrição – Contagious: Sabine Ercklentz, Andrea Neumann, Mieko Suzuki

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Se preferir, pode ouvir este podcast aqui

 

Este é o Dito e Feito, podcast do Teatro do Bairro Alto. Eu sou a Diana Combo, programadora de música e artes sonoras do TBA.

Neste episódio, damos a conhecer Contagious, o trio recentemente formado por Andrea Neumann, Sabine Ercklentz e Mieko Suzuki, três figuras de destaque da cena de música experimental, improvisada e eletrónica de Berlim.

 

00:00:28

música

 

00:01:29

Conversámos com Andrea, Sabine e Mieko em antecipação ao concerto que darão no TBA no dia 30 de janeiro. Andrea Neumann vive em Berlim, onde trabalha como música, compositora e curadora no âmbito da música experimental e da new music. Integra o coletivo Labor Sonor, que tem programado uma série de concertos e festivais em Berlim. Desde 1996, toca um instrumento próprio, o inside piano, que desenvolveu a partir de uma moldura de alumínio com cordas. Tal como Andrea, Sabine tem um percurso ligado à composição e performance de música experimental. As suas performances mostram a abordagem eclética ao trompete, que combina com várias formas de manipulação eletrónica. Mieko Suzuki é artista sonora e DJ. Oriunda do Japão e radicada em Berlim desde 2007, começou nos anos 1990 na cena house e techno de Tóquio. Atualmente, trabalha em configurações mais experimentais, utilizando ferramentas como pedais e efeitos, feedback, loops e scratching, que criam sonoridades não convencionais e expandem a típica atuação de DJ. Depois de um ensaio em Berlim, Andrea, Sabine e Mieko responderam às nossas perguntas sobre o início do projeto, o que as une e o que desejam.

 

 

00:02:40

Diana Combo A Andrea e a Sabine colaboram há muito tempo. Como é que surgiu a ideia deste trio?

Andrea Neumann Sim, é verdade que eu e a Sabine tivemos a ideia de convidar a Mieko para trabalharmos juntas e essa ideia surgiu, porque eu e a Sabine tínhamos uma peça chamada drehwurm, onde vamos buscar elementos daquilo a que chamamos techno minimal e os transpomos para a nossa linguagem musical e os nossos instrumentos. Claro que, depois, isto muda muito e se torna mais naquilo que costumamos fazer, mas tem uma base muito groove que nós transpusemos. O som também é mais assim. Depois, pensámos em convidar alguém cuja música tem uma base mais groove do que a nossa. Por isso, pensámos na Mieko e, depois, começou a nossa colaboração.

DC City Lights?

Sabine Ercklentz Sim, conhecemo-nos em City Lights com a Meg Stuart. Nesse caso, só improvisámos, mas acho que funcionou muito bem. Acho que havia uma ou duas improvisações e foi muito bom improvisarmos juntas.

Mieko Suzuki Eu não tocava batidas. Acho que não tocava groove ou techno.

SE Não, mas sabíamos que és mais desta área. Conversámos.

AN Acho que ouvimos umas faixas.

SE Primeiro, pedimos à Mieko para fazer uma remistura de drehwurm. Foi a nossa primeira intenção. Só a peça com uma base groove de que estavas a falar. Mas, depois, encontrámo-nos, para discutir esta ideia, e percebemos que talvez fosse mais interessante também tocarmos juntas e foi assim que começou. Sem dúvida que queríamos acrescentar outra voz à nossa linguagem musical; enquanto dupla, eu diria, ter outra voz.

MS Vocês, enquanto dupla mas também enquanto trio, com a Ute [Wassermann], ou com outras pessoas, com mais pessoas… Quer dizer, vocês têm muitos projetos.

 

00:05:07

SE Enquanto dupla, tocámos sempre composições e tinham frequentemente a ver com ritmo. Não de forma tão clara como em dhrewurm, mas nunca eram tão abertas e era um som mais típico. Por exemplo, Les Femmes Savantes, para mim, era muito orgânico. Tentámos mesmo criar uma textura diferente com grupos diferentes.

AN Depois, começámos a ensaiar para o nosso concerto a três e foi bastante incrível para todas. Então, começámos a trabalhar na nossa música enquanto trio.

DC O vosso esquema permite-vos incorporar os sons umas das outras, manipulá-los e reproduzi-los, o que pode reforçar o vosso processo de escuta. Podem falar sobre isto?

MS Por vezes, acontecia não haver comunicação e estar alguém a tocar individualmente. Eu ficava mesmo transtornada. Pessoalmente, não estou tão interessada nesse tipo de abordagem. Mais interessante é a forma como conseguem falar uma com a outra através da música e do acumular. É uma conversa. Enquanto ouvinte, enquanto música, é a mesma coisa. Ouvir e comunicar são os momentos que me dão mais prazer. Mas o que é que acham? Claro que ouvir é mesmo fundamental. A maior parte. Mas não importa quem é o público ou o músico.

SE Partilhamos o mesmo espaço.

MS Sim.

SE Não importa se sou músico ou faço parte do público. Para mim, foi muito surpreendente desde o primeiro ensaio o modo como ouvimos e como isso funciona em conjunto. Para mim, não era normal. Havia uma espécie de escuta realmente profunda enquanto improvisávamos e, ao mesmo tempo, as decisões que tomamos também funcionam em conjunto. A música desenvolveu-se ao longo do último ano, mas isto estava lá desde o primeiro momento. Encontrámo-nos para um ensaio e eu estava muito nervosa, não sabia o que esperar, se funcionaria e por aí fora. Depois, estava lá imediatamente. Por isso, para mim, isto é especial.

MS Mesma coisa. Sim.

AN Concordo com as duas. Acho que, especialmente porque estávamos a entrar em território desconhecido, nós as três precisávamos de escutar ainda mais.

SE É verdade. Não sabíamos mesmo o que iria acontecer. Talvez quiséssemos descobrir algumas áreas novas e, quer dizer, também é muito diferente daquilo que fazemos enquanto dupla. E funciona. Também poderia ser difícil para ti encontrares a forma de entrar, mas de certa forma, para mim, é logo outra coisa tocar enquanto trio.

MS Sim. Vocês estão constantemente a dar-me ideias ou o vosso som dá-me ideias para fazer alguma coisa em que não tinha pensado antes. Isso motiva-me a querer continuar a tocar. Não há muitas pessoas a dar ideias novas ou inspiração hoje em dia. Quer dizer, podia ser qualquer coisa, mas somos muito harmoniosas e muito orgânicas e fluidas. Sinto-me crescida, porque estou ensanduichada e… [risos]

AN [risos] É preciso dizer que a Mieko se senta sempre no meio quando tocamos.

 

00:09:29

DC Quanto da música de Contagious é improvisado e quanto é estruturado?

SE Em geral, a música é improvisada. Não estruturamos um alinhamento ou concerto, mas o que fazemos é ensaiar juntas e trabalhar em áreas de que gostamos. Improvisamos juntas nos ensaios e ouvimos as gravações depois e falamos e discutimos. Talvez haja uma espécie de processo de perceber áreas de que gostamos e que…

MS Depois, manter essa área tempo suficiente – esse é um exercício muito bom para nós.

SE E depois tem um resultado durante o concerto, mas não de propósito ou com uma estrutura.

MS Eu decididamente gosto desta forma de praticar ou ensaiar, porque o resultado, quando lá chegamos no concerto… Estão a ver? Folha em branco…

AN Somos livres.

MS Livres. Não sei. Começam vocês ou começo eu. Estão a ver? É tudo… nada. Parte do zero. Quão bonito e quão livre é isso? Juntas, nós crescemos… Muito especial. Próxima.

DC Dos primeiros encontros aos primeiros espetáculos e à gravação do vosso álbum, como é que se passou tudo?

AN É interessante que este projeto tem um efeito que não esperávamos. Desde o primeiro momento, já havia alguém interessado, um curador que apoiou este projeto. Alguns meses mais tarde, depois do primeiro concerto, o Rabih [Beaini], o responsável da editora que produziu o nosso primeiro disco, ficou mesmo interessado e convidou-nos para o estúdio dele, para para fazer este disco. Disse que ia organizar uma noite da editora no Berghain, um sítio muito popular em Berlim, e depois, pum, pum, chegou outra proposta e foi mesmo… muito fácil. Parece que as pessoas talvez se sintam muito atraídas por esta ideia de tentarmos, vindas de áreas um pouco diferentes, juntarmo-nos para uma coisa nova. Já não se consegue ouvir as raízes, ou talvez se consiga, mas acontece aqui algo de novo. Parece ser contagioso.

SE É assim que tem sido recebido, mas também é interessante para nós o quão rápido a música cresceu.

MS Aconteceu tudo num ano.

SE Se ouvirmos a gravação do primeiro ensaio, já foi interessante e forte para nós, mas, comparado com o que estamos a fazer agora, há um salto tão grande e mudou completamente. Isso também é algo muito especial para mim. Eu diria que estamos a trabalhar numa espécie de som de grupo. Cada vez se torna mais coeso. Para mim, é muito interessante trabalhar no som específico deste grupo. Este grupo é completamente diferente de todos os outros conjuntos ou grupos com quem toco.

MS Ontem (e também hoje), quando fizemos o alinhamento ambiente… No primeiro ensaio, acabámos com um som muito poderoso. Eu gostei muito, mas também foi uma boa surpresa a forma como conseguimos facilmente… Não quero usar a palavra “fácil”, mas pareceu muito fácil. Temos todas a sensibilidade e o volume e as texturas ao tocarmos em conjunto. Isso é mesmo bom. E, hoje, fizemos um minimalista… Também foi interessante. A repetição minimalista fica na cabeça, mais ou menos… Hoje, foi bem mais profundo e um pouco sombrio…

AN A escuridão está em todo o lado.

MS Em todo o lado.

AN Não dá para evitar. [risos]

MS Sim. Mas a liberdade também está em todo o lado.

AN Temos uma escuridão leve e uma escuridão pesada. [risos]

SE Este álbum está sem dúvida do lado da escuridão pesada. [risos] Hoje, explorámos a escuridão leve [risos], a escuridão da manhã. [risos]

 

00:14:48

DC Como é que o Rabih Beaini se tornou no produtor do vosso disco e como é que ele formatou o vosso trabalho?

MS Eu e o Rabih conhecemo-nos há muito tempo, porque ele também é um DJ excecional e eu seguia-o há muitos anos. Na conversa com o Rabih, ele perguntou-me – o que é interessante: “Para onde vai o vosso projeto?”. Ah, quero contar-te uma coisa. Quando comecei a fazer música em conjunto com a Andrea e a Sabine, claro que o Rabih conhecia a Andrea e a Sabine. Talvez não pessoalmente, mas já conhecia a música. Ele estava muito curioso e pediu-me que lhe enviasse a gravação do concerto – o nosso primeiro concerto, na verdade. Perguntei e toda a gente disse que sim. Por isso, enviei imediatamente e, no dia seguinte, ele ligou-me: “É mesmo, mesmo bom. Querem vir ao meu estúdio e gravar?”. O quê?! Vamos. Decidimos fazê-lo e fomos gravar durante dois dias. Quantas horas gravámos? Esqueci-me.

AN Quatro, talvez. Quatro horas?

SE Quatro, cinco.

MS E, depois, o Rabih editou.

SE E formatou.

MS Formatou, sim, e enviou-nos. Oito faixas.

SE Acho que foi muito interessante trabalhar com o Rabih nessa altura.

MS Exatamente.

SE Acho que fizemos uns quatro concertos ou qualquer coisa do género (três ou quatro concertos) até então e começámos a entrar numa zona de um som, eu diria, mais próprio. Então, ele formatou mesmo de algum modo, guiou-nos de algum modo, acho eu. Enquanto gravámos lá e durante o processo de edição, demos um grande passo em direção ao nosso som. Por isso, foi uma experiência muito boa trabalharmos juntos e também concentrarmo-nos no que é o nosso som.

AN Por exemplo, ele salientou uma coisa que os improvisadores se calhar gostam de fazer – saltar de uma ideia para outra. Acho que o comentário dele foi: “Talvez ficar mais tempo. Se houver alguma coisa que sentem que é porreira, fiquem lá e vejam e esperem”. E toda a gente agarra a ideia e faz qualquer coisa com ela e não anda demasiado aos saltos. Isso foi interessante. Mas ele também nos deu a ideia de a Mieko gravar o meu som ao vivo e reproduzi-lo mais tempo, de maneira a partilhar algumas… Não sei. Nós partilhamos sons ou coisas. Quando ela toca, eu posso ir embora. Naquela [falado em alemão], também descobrimos que eu e a Sabina podemos interagir através de feedbacks, detalhes que…

SE …que incorporamos no nosso som e também quando tocamos ao vivo.

AN sim

SE Estamos mais conscientes disso e, agora, servimo-nos disso como parte do nosso vocabulário sonoro. Acho que isso é porreiro. Queria dizer outra coisa. O tempo. A questão toda do tempo. Acho mesmo importante a forma como lidamos com o tempo e a evolução. Há uma grande diferença entre a chamada cena improvisada e a cena mais pensada para as discotecas. A ideia de uma evolução mais orgânica. Há uma – como é que se diz? – [falado em alemão]

mais longa.

AN Respiração?

SE Respiração, sim.

MS Para mim, a música pensada para as discotecas é uma repetição e uma repetição precisa de duração. A duração é necessária para atingir um estado mais elevado ou, digamos, transe ou… Aquele lugar que leva as pessoas a se elevarem da consciência de ouvir, estão a ver?

SE Sim.

AN Isso é muito importante.

MS Isso é uma ideia central do que, no nosso entender, significa a música pensada para discotecas.

 

00:19:54

SE Sim, mas é também um aspeto físico de que falámos antes de algum modo. Por isso, se calhar estávamos simplesmente à procura de algum modo. Sem saber o que é neste momento. Tem a ver com repetição, com duração, e também talvez com volume e frequência.

MS Sim.

SE Falámos antes de tu também tocares muitas frequências muito baixas.

MS Sim.

SE E isso, na nossa dupla, é algo que sem dúvida…

AN Falta.

SE Falta. Isso fez uma grande diferença quando começámos a tocar e acho que também define o nosso som. Mas, depois, tu também começaste a tocar frequências mais básicas.

MS Sim.

AN Há uma coisa que eu gostaria de acrescentar, porque, agora, parece que ele definiu tudo. Algumas coisas que ele sugeriu nós não fizemos. Como ensaiar as peças que estão agora no LP…

SE Não podemos.

AN … e simplesmente não podemos. Isso significa que este trio está demasiado vivo. Como a Mieko disse antes, precisamos de folhas em branco para chegar a algum lado realmente interessante.

 

00:21:03

musica

 

00:26:00

Contagious atuará na sala principal do TBA no dia 30 de janeiro, às 21:30.

Dito e Feito é o podcast do Teatro do Bairro Alto. A gravação deste episódio foi feita em Berlim. A edição é de Sara Morais e a música do genérico é de Raw Forest. Acompanhem o TBA nas redes sociais e em teatrodobairroalto.pt.

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