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Raquel Castro
Turma de 95
06 - 15 Dezembro
Teatro
Dupla
Raquel Castro
Turma de 95
06 - 15 Dezembro
Teatro
Dupla
Raquel Castro
Turma de 95
06 - 15 Dezembro
Teatro
Dupla
Raquel Castro
Turma de 95
06 - 15 Dezembro
Teatro
Dupla
06 - 15 Dezembro
Raquel Castro

Turma de 95

12€
Teatro
Dupla

06 - 15 Dezembro

6, 7 e 10 dezembro 2019
Sexta, sábado e terça 21h30

8 dezembro 2019
Domingo 20h

11 a 14 dezembro 2019
Quarta a sábado 19h

15 dezembro 2019
Domingo 17h30

15 dezembro
Sessão com audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa

Teatro
Dupla
Preço 12€
< 25 anos 5€
Dupla: Turma de 95 9€ + Morrer no Teatro 9€

Sala Principal
Duração 80 min.

Classificação Etária:

M/12

A partir de Class of 76 de Third Angel
Criação e interpretação Raquel Castro
Apoio à dramaturgia Alexander Kelly
Direção de Produção Vítor Alves Brotas | Agência 25
Desenho de luz Daniel Worm
Apoio técnico João Gambino

Residência O Espaço do Tempo, Companhia Olga Roriz, Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva
Apoios Câmara Municipal de Lisboa, Polo Cultural Gaivotas | Boavista
Coprodução Barba Azul, Teatro do Bairro Alto, O Espaço do Tempo, Centro de Arte de Ovar e Teatro das Figuras
Fotos de cena Bruno Simão

ENTREVISTA RAQUEL CASTRO

TURMA DE 95

 

De que formas, em tua opinião, te apropriaste da peça Class of 76 dos Third Angel?

Agrada-me aqui a ideia de apropriação porque, de facto, não costumo pegar e encenar textos dramáticos previamente escritos, mas enquanto há uma forte tradição em fazer isso no teatro, o mesmo não se aplica a um outro tipo de teatro, que assenta mais em conceitos ou ideias.

Embora não tenha visto o Class of 76 (tive acesso ao guião e ao vídeo mas já depois de estar a fazer o trabalho), agradou-me imenso o processo de investigação, o ir procurar as pessoas da turma e a forma mágica que encontraram para mostrar a fotografia em cena.

Todo o restante contexto é diferente – a turma dele é da pré-primária, são ingleses, nos anos 80 e a peça foi feita em 2000 – portanto, houve um processo de procurar as pessoas muito mais moroso e difícil porque não havia ainda redes sociais.

Posteriormente, na fase de escrita do guião, o Alex passou uma semana a trabalhar comigo n’ O Espaço do Tempo, o que foi incrível, por um lado porque ele é de facto um artista extraordinário e, por outro, porque ele domina a dramaturgia desta peça – ele experimentou uma série de coisas até chegar ao resultado final e, portanto, eu acabei por beber das suas experiências.

Apesar das imensas diferenças de conteúdo, a minha peça acaba por ter uma estrutura semelhante ao Class of 76, na forma como esse conteúdo é articulado. Mas pode dizer-se que tudo o resto é diferente: outro país, outra faixa etária, feito duas década depois, sobre um colégio privado e católico.

 

Ao dar o nome a este documento “Entrevista Raquel Castro Turma de 95” lembrei-me que entrevistaste muita gente. Qual era o teu guião? 

O meu guião tinha uma parte sobre o presente, em que as pessoas me falavam sobre a sua vida hoje em dia, muitas vezes partindo do que aconteceu depois de saírem dos Salesianos. As respostas incidiram sobre aspetos profissionais e familiares e sobre acontecimentos marcantes nesse percurso.

A outra parte da entrevista incidia sobre o passado: a escola e a relação com a mesma, as memórias desse tempo, em que é que crescer naquela altura é diferente de crescer hoje, a adolescência de cada um, e em é que tudo isso contribuiu para a pessoa que são hoje.

E quis saber a relação deles com Deus, visto que todos acabámos por ter contacto com a religião católica no Colégio… e os sonhos, que sonhos têm.

Acho interessante cruzar o tempo presente com o tempo passado e quem vir o espetáculo pode tirar as suas próprias ilações.

A juventude espelha muitas possibilidades de futuro e um enorme potencial e isso acho que está muito presente na fotografia. Hoje estamos quase a chegar aos 40 e portanto, que balanço fazemos agora do que somos? E em que medida esse passado contribuiu para o que somos hoje? No geral, senti-me acolhida como uma velha amiga e foi extraordinário ouvir toda a gente. Depois, foi mesmo difícil selecionar o material porque tenho duas horas de entrevista com quase todas as pessoas. De tudo, acho que foi o mais difícil.

Houve também coisas que foram surgindo ao longo das entrevistas, nas primeiras que fiz várias pessoas contaram-me que tiveram uma depressão antes dos 25 anos. Isso tocou-me imenso, acho que não estava à espera.

Achas que isso pode estar relacionado com o momento que visitas – a adolescência passada num colégio católico e elitista na Lisboa dos Anos 90? 

Não sei porque não tenho uma amostra de comparação…a adolescência é uma fase de enorme questionamento, de experiências, de construção de identidade. Acho natural que de facto, a pós-adolescência possa ser dolorosa, porque é suposto ser uma fase de concretização de uma série de coisas e às vezes isso não corre como esperamos. Mas talvez houvesse ali uma grande pressão para se ser bem-sucedido.

Acho que a experiência individual pode ser difícil estejas onde estiveres. Mas a vida é uma complexidade de coisas, umas que controlamos e outras não.

E no meio de tudo isso, haja ou não acontecimentos mais difíceis, há uma estrutura ou uma capacidade de resiliência que nos faz dar a volta às situações. E por isso, às vezes há pessoas que mais facilmente vão resolvendo as coisas e outras não.

E a interrogação sobre os anos 1990 faz-me também pensar nisso. Crescemos no boom dos centros comerciais e com uma perspetiva otimista e cheia de esperança no futuro  ̶ e essa perspetiva mudou muito nos últimos vinte anos.

Há uma inquietação tua que atravessa a peça toda, consegues descrevê-la? 

O espetáculo cruza as histórias dos meus colegas com a minha história e com a minha adolescência ̶ que foi marcada por querer imenso pertencer a um grupo de uma classe social diferente da minha, aquilo a que comumente chamamos “betos”. Para além disso, sofria imenso por gozarem comigo porque eu era muito magra (e descobri no processo que também gozava muito com uma rapariga da minha turma, chamava-lhe “gorda”).

Ao escrever isto, parece-me um bocado absurdo que estas questões tenham tido a importância que tiveram, são problemas de menina-de-classe-média, mas a verdade é que aquilo que fazemos a um terceiro pode ter um enorme impacto na sua cabeça. Na adolescência isso é exponenciado por causa de todas as questões que são inerentes a essa fase da vida.

Em que é que escutar as pessoas, como fizeste, foi ao encontro dessa inquietação?

Ouvi outras versões daquele tempo, o que foi para cada um a passagem pela escola e pela adolescência. Pelas palavras do João Oliveira, um dos meus colegas, “ a adolescência é uma selva, cada um está a afirmar-se, seja de que maneira for”. Nesse sentido, essa forma de estar em que te afirmas pela desafirmação dos outros era comum a muitas pessoas e eu não era a única a sentir isso.

Percebi que talvez a minha sensação de não-pertença adviesse do facto de não ter um grupo de amigos forte e consolidado, que me fizesse sentir mais protegida e menos preocupada com as opiniões dos outros sobre o meu corpo e o meu apelido.

É quase um ajuste de contas com o passado, eu fui fazer o meu mas houve espaço para cada um fazer o seu, o que permitiu compreender as coisas numa escala maior.

De certa forma quando a tua colega Elisa que hoje é médica num Centro de Saúde fala em “descansar as pessoas, se possível sem lhes dar medicamentos” parece tocar num ponto central. Como se ao escutarmos pedaços de todas estas vidas comprovássemos que se as pessoas são bizarras, a vida ainda mais bizarra parece ser.

A Elisa falou-me muito de solidão, de uma solidão interior, onde as estruturas familiares são muito frágeis e leva as pessoas a sentirem-se muito desprotegidas, o que as faz recorrer a quem lhes dá atenção para se sentirem mais seguras – o médico de família, a farmacêutica…

Mas aparte daquilo que nos acontece, e cito aqui o Miguel Julião, que trabalha em cuidados paliativos e que me disse que “aquilo que nos mata não é o sofrimento, mas a ausência de sentido no sofrimento”, parece que caminhamos para uma vida cheia de solicitações e de informação mas estamos cada vez mais sozinhos.

 

Não te preocupa o que possam os teus colegas entrevistados achar do espetáculo?

Claro que me preocupa, os conteúdos dos espetáculos talvez fossem diferentes se eles não fossem ver. Alguns revelaram-me coisas muito delicadas que eu não podia expor, portanto tive que fazer as coisas com a maior sensibilidade que consegui ̶ e posso falhar aos olhos de alguém…numa ou outra situação falei uma segunda vez com algumas pessoas para saber se podia abordar um assunto mais íntimo. Houve até quem me ligasse a garantir que eu não falaria sobre determinado assunto.

Mas estou a confiar na minha sensibilidade, não posso pedir autorização sobre tudo o que escolhi, porque enquanto autora interessa-me construir um objeto artístico.

Apesar de o espetáculo assentar numa convenção de teatro documental, fui eu que filtrei e processei a informação que recebi, pelo que este espetáculo não é a verdade, quanto muito é a minha verdade… pelo que as pessoas têm toda a liberdade e salvaguarda de não se reverem naquilo que eu digo. Penso que construí um objeto que não os ferirá, mas só depois de eles o verem é que vou ter essa resposta.

 

Ana Bigotte Vieira

A fotografia de turma foi tirada no átrio do Colégio Salesiano de Lisboa em 1995, o ano em que saiu o álbum Mellon Collie and the Infinite Sadness, dos Smashing Pumpkins, aquela que viria a ser a banda preferida do Miguel N. Estávamos no 9.º ano, o João C. e a Filipa N. estavam apaixonados, o Pedro C.C. sonhava vir a ser jogador de futebol e o Rui A. foi à televisão imitar o Michael Jackson. Quase todos tinham uma alcunha: a Testa Rossa, a Cavalona, o Splinter, a Beaver, o Chinês, o Dumbo. Eu, a sétima a contar da esquerda, na fila de trás, era a Olívia Palito.

Em 2019 − 24 anos depois −, procurei cada um dos meus colegas de turma para conversar sobre aquele tempo e sobre o rumo que a vida levou depois de tirada a foto.

Raquel Castro

 

Raquel Castro é atriz e encenadora. Já fez um vídeo para a sua filha ver no futuro, foi cowboy açoriana em plena América do séc. XIX, foi para a rua fazer performances com uma amiga, tentou abrir a caixa negra da infância, inventou um cruzeiro para o séc. XXX e fez de dona de casa rodeada de eletrodomésticos. Aqui apropria-se de um espetáculo como quem se apropria de um clássico do repertório e parte de Class of 76 (da companhia britânica Third Angel) para descobrir a sua Turma de 95.

 

 

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