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02 Dezembro

Tiago Sousa

Música
TBA no Lux

O nome do álbum, que nos pode remeter para a condição do artista no momento de criação e para uma possibilidade da experiência de isolamento que experimentamos coletivamente, foi o mote de uma “conversa” com Tiago Sousa:

TIAGO SOUSA – O título tem esse carácter sugestivo. Ocorre-me, assim à primeira, fazer a distinção entre a “solidão” e a “solitude”. A solidão seria esse estado, esse momento em que nos encontramos completamente isolados dos outros e do resto – e, de facto, esta situação de pandemia e confinamento promove essa solidão, que penso ser um tema relevante nos dias que correm. No caso da minha obra, nesta especificamente, e do meu processo criativo, acho que é mais adequado falar em solitude. Um estado que se poderá relacionar mais com uma necessidade de privacidade, com um gozo relativamente a essa necessidade, a um certo sentido de interioridade que também me é muito caro, em particular pelas mãos de Sören Kierkegaard, um pensador que me influencia muito, e que reflete sobre esta questão do indivíduo. No entanto, eu gosto mais de não usar tanto esta palavra indivíduo porque nos remete para a condição capitalista do indivíduo autodeterminado como agente económico, mas, ao mesmo tempo, também parto desta ideia de que primeiro nos encontramos connosco próprios, quando ganhamos esta consciência de si-mesmo, que depois se confronta com o mundo. E é a partir desse encontro connosco próprios que emana, no meu caso, o processo criativo. É a partir desse encontro comigo próprio, com as minhas questões, inseguranças, problemas, com as minhas leituras do mundo que se começa a esboçar esse traço artístico e essa vontade de criar uma linguagem e de a transmitir aos outros. Em último caso, o ponto final ou fulcral será sempre encontrarmo-nos com os outros e partilharmos esse primeiro impulso, mas já com uma comunidade alargada. Também é importante para mim diferenciar esta ideia de “sujeito” enquanto algo destacado, que se afasta do mundo e que tem uma visão do mundo desinteressada até, avaliando-o de uma perspetiva racional, cognitiva, distanciada, da ideia de “singularidade”. Esta ideia de que, a priori, existe uma natureza humana, que nos faz iguais a tantos outros, e de facto, temos tantas coisas em comum, mas quando nos começamos a aproximar de cada ser humano singular, cada um tem as suas particularidades, o seu percurso, encontra-se em determinado sítio e não noutro. Da mesma forma que se olharmos a paisagem e virmos um conjunto de árvores alargado dizemos que são todas árvores, alguém que aprofunde o conhecimento e o interesse, pode procurar conhecer cada uma das árvores, as suas particularidades – uma tem uns ramos tortos, outra tem uns partidos. Cada uma tem uma história, cada uma conta uma história a partir da sua existência física no mundo. E esse é um momento definidor para mim – abandonar esse “sujeito destacado” e passar a viver essa singularidade que é o elemento comum a todos os outros, mas que anuncia o que é particular, único e celebrável. É esse celebrar da vida, da particularidade, e da singularidade, que tento expressar o meu processo criativo, sem dúvida, partindo desse lugar único em que me encontro e tentando comunicá-lo aos outros através da música como uma linguagem que trabalha mais com o indizível, com elementos que comunicam de uma forma diferente, no fundo.

Partindo da continuidade do que tem sido explorado em trabalhos anteriores e da relação que o trabalho presente pode ter com uma ideia de futuro, Tiago Sousa conta-nos sobre o processo criativo, as influências e o lugar onde quer estar.

TS – Contextualizando o disco, em relação com o que aconteceu no passado e com essa ideia de futuro, que está sempre presente, de uma maneira ou de outra, penso que acontece – se realiza e resolve – num momento em que eu me reencontro com o meu próprio processo. Depois de ter lançado Um Piano nas Barricadas houve uma necessidade de refletir e de estudar, ainda de uma forma autodidata, mas mais metódica, trabalhos de outros compositores que me interessavam e também de desenvolver a minha técnica. Tive aulas com um professor durante cerca de um ano, mas o estudo, para mim, acaba por fazer mais sentido quando parte da minha motivação e, portanto, é difícil seguir um cardápio dado por alguém que tem uma ideia mais generalista sobre como formar um músico. Houve então esse reencontro. E, relativamente ao que disse antes, nos momentos em que nos sentamos para estudar uma matéria, tornamo-nos esse “sujeito destacado” porque naturalmente vamos ter uma abordagem bastante mais racional, lógica e cognitiva, no sentido de tentar compreender os códigos, de os desvendar e tentar ligar o puzzle todo, perceber a forma como cada artista interliga as peças. Parece que somos uma espécie de investigadores, como o sujeito cartesiano que está a olhar para a cera e a tentar analisar as suas propriedades. Estamos, assim, algo distanciados do material e, também como sujeito cartesiano, acabei por me encontrar num beco sem saída, pelo facto de estar aqui a faltar uma parte muito importante, evidente na arte – ou a arte revela essa importância – que é o lado mais intuitivo, mais emocional. Essa ligação a certas respostas que não sabemos explicar e não temos a capacidade de articular –, por isso é que fazemos a obra, para nos tentarmos entender a nós próprios. E é precisamente neste momento em que, trazendo na bagagem algumas ferramentas e algum trabalho desenvolvido, podemos esquecer as regras todas, esquecemos a visão mais formalista das coisas e simplesmente fazemos o que nos sai naturalmente. No fundo, vestimos o fato que melhor nos serve. É essa a sensação que eu tenho. E ao vestir o fato que melhor me serve revela-se a continuidade desse corpo artístico que está presente desde o Insónia. Apesar de já vir a trabalhar em nome próprio antes, penso que o Insónia inaugura esta estética que poderia referir como sendo algo minimalista, em que a improvisação e o acidente fazem parte e constroem a própria obra. Portanto, não sou eu apenas que faço, há uma espécie de uma dança entre mim e a música, ou entre mim e o piano, ou entre mim e o público e é nessa relação que as coisas vão surgindo. Na maior parte das vezes, não temos a capacidade de as analisar, de as articular, por isso é tão difícil, às vezes, falar sobre o que estou a fazer. Mas, sem dúvida, quando estou nesse espaço, em que é difícil explicar, o resultado que ocorre é precisamente aquele que está mais de acordo, que ressoa, aquele em que me revejo mais. Aquele que sinto que está mais de acordo com uma parte de mim que muitas das vezes fica de fora e que, no entanto, será mais completa porque vem de um espaço que é difícil de confinar, de prescrever. É difícil dar uma geografia desse espaço. É um espaço bastante inconsciente, que remete para um lado mais onírico e bastante intuitivo, em que as coisas fazem sentido por que sim. E se fazem sentido para nós, têm razão de existir. É na perseguição dessa ideia, que vou tentando manter o meu trabalho. Eu sei que muitas das vezes é um pouco difícil cartografar a minha música, tenho recebido esse feedback. Se está dentro do contexto da música moderna clássica, da própria música erudita ou se está dentro do contexto do jazz…qual é o contexto que esta música tem? Esta perplexidade está muito presente e eu também não tenho uma resposta! De qualquer das formas, reconheço algumas influências que são muito relevantes no meu processo, desde compositores como Claude Debussy, Erik Satie, Federico Mompou, também os americanos John Cage, La Monte Young… Ultimamente, ando muito vidrado num compositor que, na altura que o ouvi, me deu uma chave importante para o caminho que estava a abrir e a perseguir com este disco. É o Hans Otte, um compositor alemão meio obscuro. Outro compositor, o japonês Tōru Takemitsu, tem uma influência também muito grande sobre mim. Depois há outros elementos, se calhar mais difusos, como o jazz mais vanguardista dos anos 1960, a música contemporânea de uma forma geral… Mas, para mim, mais importante do que tentar ter uma definição muito clara é voltar a esse sítio em que não o consigo fazer. Aí é que estou, de facto, mais próximo desse ser autêntico, dessa singularidade que tem que ver precisamente com o meu percurso, que é bastante errático e particular. Não é um percurso académico, não passei por uma série de fases que normalmente um compositor de música para piano passaria e, portanto, há aqui um lado muito meu que eu quero tentar vincar na minha música e é isso que me interessa explorar. É fazer o que ninguém poderá fazer por mim.

Hoje, o músico e compositor volta a sentar-se ao piano no Lux Frágil, depois de aqui ter atuado no âmbito de um evento da Resident Advisor, em julho de 2018. Vamos ouvir Oh Sweet Solitude e celebrar a possibilidade deste concerto, um desejado momento de partilha e exteriorização dos processos mais introspetivos que acontecem…em solitude.

Diana Combo

Desde 2006, ano que marca o debut de Tiago Sousa com o lançamento de Crepúsculo, o músico e compositor tem desenvolvido uma linguagem particular, cujas etapas se cristalizam e contaminam em vários capítulos a solo e em colaborações diversas. Os momentos de partilha com o público – os discos e as apresentações – mostram que a sua abordagem gravita em torno de géneros que facilmente associamos ao piano. Ao mesmo tempo, sem negar a herança clássica e a relevância da composição erudita, por exemplo, a sua sensibilidade permeia outras inspirações através de um gesto de complexa simplicidade. Oh Sweet Solitude, o mais recente registo de Tiago Sousa, é o sucessor de Um Piano nas Barricadas (2016). As nove composições para piano solo que o integram resultam de uma aproximação minimalista à liberdade e à improvisação, que entra em diálogo com a música contemporânea e exploratória, com o jazz e a música impressionista francesa. Nesta obra, que continua e expande a direção estética de Insónia (2009), também as fronteiras entre diversos estilos e as fórmulas musicais são suplantadas para dar lugar à expressão de uma identidade única. Sobre as composições de Oh Sweet Solitude, o autor refere que são “deambulações ao piano, que podem ser reinterpretadas de acordo com o contexto de apresentação”. São, assim, “uma ideia discursiva”, assente num processo de tocar mais consolidado e, ao mesmo tempo, intuitivo e aberto deliberadamente ao “erro” como forma de aprendizagem e de progressão. Oh Sweet Solitude está disponível como um lançamento digital e um livro de partituras. O álbum foi gravado num só dia, em outubro passado, no estúdio Timbuktu, em Lisboa. Este facto permite perceber que a espontaneidade e o imprevisto foram chamados a ocupar um lugar primordial, enquanto “a obsessão pelo controlo”, como nos conta, foi aliviada. Sobre o processo, que implicou seguir mais o instinto, numa reconexão com o ímpeto intuitivo que o guiou nos primeiros anos, Tiago Sousa refere que a influência de Marco Franco foi muito importante, resultando na perceção de soluções que complementam as regras de escrita musical. Existem outras influências e inspirações que podem ser diretamente apontadas, como os processos de escrita de música para os filmes A Praia da Amália, de Patrícia Couveiro, e Efeitos Indirectos, em colaboração com Catarina Simões e, claro, “o momento de suspensão das nossas rotinas que aconteceu com o primeiro confinamento”. Esta suspensão trouxe-lhe o tempo e o contexto para finalizar as peças de Oh Sweet Solitude. Solitude, diz-nos, não é o mesmo que “solidão”.

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