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22 - 24 Abril
Action Hero e Deborah Pearson

The Talent

14€
Teatro

22 - 24 Abril

sexta e sábado 19h30
domingo 17h

ACESSIBILIDADE
Com legendagem em português para pessoas surdas

CLUBE ESPECTADOR
23 abril após o espetáculo na Sala Manuela Porto
Moderação: Maria Sequeira Mendes

Teatro
Preço 14€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 90min

Classificação Etária:

A classificar pela CCE

Texto e encenação Deborah Pearson, Gemma Paintin & James Stenhouse
Interpretação Gemma Paintin, Deborah Pearson e James Stenhouse
Desenho de som Yas Clarke
Desenho de luz Alex Fernandes
Cenografia Camilla Clarke
Olhar exterior Tania El Khoury
Produção de Action Hero Sarah Warden
Coprodução Teatro do Bairro Alto, Cambridge Junction e South Street Arts / University of Reading
Apoio PACT Zollverein, Bristol Old Vic e Ferment
Agradecimentos Queen Mary University, University of Bristol e The Yard
Action Hero integra a National Portfolio Organisation do Arts Council England

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Action Hero é a colaboração entre os artistas Gemma Paintin e James Stenhouse. Em conjunto, criam obras que se expandem por múltiplas práticas criativas: performance, instalação, som, práticas digitais e obras em espaço público.
Esta parceria criativa duradoura levou-os a mais de quarenta países na Europa, América do Norte e do Sul e Austrália, a sítios tão distintos como o PS122 em Nova Iorque, o Théâtre de la Ville em Paris, o Museu do Século XXI no Japão, um cinema art-déco abandonado em Banguecoque e um Clube de Motorizadas dos Satan’s Riders na Tasmânia. Em Lisboa, apresentaram Watch Me Fall, Hoke’s Bluff e Slap Talk, sempre na Culturgest.
Interessam-se pela iconografia da cultura popular e os seus usos; tanto como arma e como memória cultural partilhada, e as linguagens/textos usados para falar desses espaços partilhados.
O trabalho destes artistas está sempre comprometido com a forma como as pessoas se juntam no momento ao vivo, e como a troca entre humanos tem lugar no quadro de uma obra de arte. Trabalham regularmente com processos e meios que não dominam à partida, o que muitas vezes os faz atravessar novos territórios técnicos e criativos.
Receberam um Prémio da Critic’s Table em Austin (Texas) para o Melhor Espetáculo em Digressão, e foram nomeados para o Prémio Internacional de Live Art do Anti Festival em 2016. Têm dois livros publicados pela Oberon e escreveram ensaios para vários outros, incluindo o The 21st Century Performance Reader. Em Portugal, foram entrevistados para o volume O Desensino da Arte. Deram aulas de licenciatura e pós-graduação como professores convidados em várias universidades britânicas, e orientaram master-classes pelo mundo todo.
Action Hero é atualmente uma estrutura subvencionada pelo National Portfolio do Arts Council England. Fazem parte dos coletivos artísticos Residence e The Brunswick Club e são colaboradores de longa data do Forest Fringe. Vivem em Bristol.

Deborah Pearson é artista, escritora e curadora. Fundou e codirige o Forest Fringe, que promove as trocas internacionais entre artistas e programou um espaço experimental no Festival de Edimburgo ao longo de dez anos. O trabalho artístico de Pearson foi apresentado em mais de vinte países em festivais e teatros na Europa, América do Norte e do Sul, Médio Oriente, Australásia e Ásia. Em Portugal, colabora frequentemente com a mala voadora e apresentou peças no TNDMII (MON€Y e Os Anciãos) e na Culturgest (Like You Were Before, The Future Show, History History History). Em 2017. o seu espetáculo History History History foi considerado um dos melhores espectáculos do ano pelo Público. Tem um doutoramento de base prática da Royal Holloway, onde teve uma bolsa Reid, e é atualmente Professora de Dramaturgia na University of the Arts em Londres. Também trabalha como artista de voz-off sob pseudónimo e foi diretora de diálogo no jogo para a Alexa When in Rome – dois pormenores que até agora nunca foi relevante mencionar numa biografia teatral.

O capitalismo é aquela pessoa tua conhecida que nunca pára de falar, por mais sombrias ou desapropriadas que sejam as circunstâncias. Não aguenta silêncios inexplicados. Todos os silêncios têm de existir num contexto, um contexto que pode tornar-se dominante.
Quando começámos a trabalhar num espetáculo sobre uma artista de voz-off em Dezembro de 2019, fartámo-nos de discutir o capitalismo. Interessava-nos a sua amoralidade, a sua criatividade oca e infindável, a sua abordagem homogeneizada à diversidade e a sua tendência para absorver e reconfigurar tudo aquilo com se cruza, como a criatura mitológica Wendigo. Aquilo que naquela altura não sentíamos de forma visceral, e que não começámos a discutir com urgência até ao início da pandemia, era a sua horrível resiliência. Por mais caótica que fosse a situação, o capitalismo não se calava. E a voz com que falava era descomplicada, fiável, confiante, calorosa ou descontraída, dependendo do texto.
The Talent não se propôs ser um espetáculo sobre a pandemia, e continua a não ser um espetáculo sobre a pandemia. Mas é inegavelmente um espetáculo que viveu uma pandemia. E é um espetáculo sobre um sistema que vai teimosamente viver mais do que isso.
Tenho um “biscate” que é trabalhar como artista de voz-off comercial (sob pseudónimo) desde 2015. No último trimestre da minha gravidez, estava em “recolhimento domiciliário” durante o confinamento. Tinha um microfone em casa (aquilo a que se chama no meio um “estúdio caseiro”) e de repente este biscate tornou-se a minha fonte de rendimento mais consistente. Quando o meu trabalho performativo travou a fundo, na locução o negócio prosperava.
Ainda me lembro de uma sessão em que me pediram para gravar um texto sobre a dor e o isolamento. A frase que tinha de ler era sobre ter saudades de uma pessoa amada. Os pormenores dessa sessão (como tanto do que aconteceu no primeiro confinamento) são agora vagos. Estou grata por isso, porque nunca me senti tão vulnerável a trabalhar como nessa altura. Mas afastei-me dessa sensação de vulnerabilidade. Seja como for, nessa altura poucas coisas eram eticamente claras. Lembrava-me de no início da gravidez me preocupar com as pessoas tocarem na minha barriga sem pedirem autorização. Sentada em frente daquele microfone, pensei que ninguém me tinha tocado ou até mesmo visto durante meses tirando as minhas parteiras, o meu marido, e o meu gato. Olhei para o microfone e pensei nas saudades. Pensei nas pessoas que amava. Fiz o meu melhor para dizer as palavras com sentimento.
Este não era um espetáculo sobre a solidão quando começámos a trabalhar nele no fim de 2019 e início de 2020. Mas pouco a pouco, a solidão insinuou-se – esgueirou-se para dentro das nossas vidas e para dentro do espetáculo. A parvoíce e o ridículo também se insinuaram. O Jim Stenhouse e eu fomos bastante longe nesse absurdo febril ao fazer as vozes progressivamente degradadas e metamórficas dos diretores. Os últimos anos foram incrivelmente surreais, no fim de contas. O que permaneceu foi a adaptabilidade de The Talent. O trabalho da Gemma neste espetáculo é virtuosístico. Ela faz 27 vozes diferentes ao longo de uma hora. É infinitamente capaz, profissional e recetiva, mesmo quando não há mais ninguém para quem se possa ser capaz, profissional e recetiva. Ela pode soar descomplicada, fiável, confiante, calorosa ou descontraída, dependendo do texto. E embora esteja sozinha, constrói algo em colaboração com aquela cabine. Ajuda-a a soar quase como se fosse humana, mas só quase como se.
E a cabine também ajuda a Gemma. Na verdade, é uma linha de socorro. O talento da Gemma é sustentado por um contexto, e talvez seja essa a fonte das suas infindáveis capacidades. Aquela pessoa tua conhecida que nunca pára de falar pode, no fim de contas, ser uma presença reconfortante. Mesmo que saibas que a melhor resposta seria provavelmente o silêncio.

 

Deborah Pearson

Uma mulher fala numa cabine de som. Fala com ela própria. Fala contigo. Fala para toda a gente. É dotada, profissional, volátil; parece capaz de convocar qualquer tipo de voz e criar qualquer tipo de mundo.

Ela está a vender-te alguma coisa

Está a contar-te uma história

Parece um anúncio de cereais

Soa como um desenho animado

Parece uma meditação gravada

Soa como um ser metamórfico

Soa como o mar

Eras capaz de a ouvir dizer fosse o que fosse. A voz dela está a toda a volta. A voz dela é tudo o que existe. A voz dela é tudo o que resta. Ela invoca o seu próprio fantasma em tempo real.

 

A dupla de Bristol Action Hero e a canadiana Deborah Pearson regressam a Lisboa com uma nova peça sobre o legado da voz humana num futuro não-humano.

 

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