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09 Junho

Sei Miguel Trio

Música

Sei Miguel
Sei Miguel toca o seu trompete (de bolso) com consciência plena da história do jazz, permanecendo aberto – enquanto diretor e arranjador – a ilimitadas fontes de possibilidades sonoras.
Ao longo de quatro décadas de continuada e exigente atividade, Sei Miguel foi aperfeiçoando um sistema musical próprio, que lhe permite levar peças detalhadas a um estado de rigor assinalável.
Música muito assumida, executada com rara intensidade, o jazz que o trompetista pratica reveste-se de múltiplas singularidades: a maneira como (nas palavras dele) “tempo e espaço, silêncio e timbre são exclusivamente usados em composição”, os materiais temáticos, as temáticas do seu conceptualismo, muitas vezes a própria ideia de orquestração, e ainda a importância maior transmitida aos executantes, tornados “expoentes de uma micro-tradição”.
Sei Miguel nasce em 1961, Paris. Viveu no Brasil e em França até radicar-se em Portugal nos anos 80. Sua discografia, de Breaker (1987 Ama Romanta), realçando entre outros o decisivo Showtime, de 1996, a Tone Gardens (2006 Creativa Sources), é hoje difícil de encontrar, por isso importa saber que a editora Cean Feed está apostada, serenamente, em pôr cá fora uma integridade da obra; Esfíngico/suite for a jazz combo (2010), Salvation Modes (2014), (Five) Stories Untold (2016).

Fala Mariam
Trombonista. Natural de Lisboa. Alguma formação académica não lhe
suscitou interesse pela criação musical. Em 80, durante uma viagem pelo norte da Índia, intuiu o fogo sagrado da verdadeira música, que reencontra no jazz mais iniciático e na gratificante descoberta de diversos trombonistas. “Sideman” de Sei Miguel desde 83,participa em todos os trabalhos deste. Cultora de uma frase sem brilhos fáceis, capaz do expressionismo mas também de surpreendente doçura, Fala Mariam é já uma referência nos atuais desenvolvimentos do dialcto free bop; “…the austere, full-bodied sound of Mariam’s trombone, between textural abstraction and clearly defined tonal excursions” (Nicola Negri / The Free Jazz Collective, December 2016)

Bruno Silva
Bruno Silva, oriundo de Leiria, vive desde 2009 em Lisboa. Sua atividade musical conta quinze anos de colaborações e trabalhos a solo, num âmbito que vai da modulação hipnótica à improvisação dita livre, da colagem onírica às batidas espectrais. Enquantoguitarrista tocou sobretudo com Filipe Felizardo, Margarida Garcia ou Pedro Sousa.
Trabalha continuadamente com Sei Miguel desde 2017.

Yaw Tembe, programador de música do TBA – É nítida, para ti, a distinção entre composição, produção e interpretação?

Sei Miguel – No domínio artístico, os planos de ação são, à partida, nitidamente distintos. No seu decorrer encadeiam-se de tal modo que mal se distinguem uns dos outros… Curiosamente, ao fim ao cabo, esses mesmos planos tornar-se-ão outra vez nítidos e distintos.

 

YT– Tendo em conta o processo meticuloso e demorado a que as tuas peças são submetidas, podemos dizer que estamos em território oposto à música idealizada pela “escola” de improvisação livre ou composição em tempo real?

SM – Em território oposto talvez não. Estamos em território diria que mais consciente. Arrisco mesmo a sugerir: mais trabalhoso. Lidamos com arquétipos formais, e também com a forma coletiva em orquestração, e também com a responsabilidade formal – e visionária! – de cada instrumentista. Cada músico que labora comigo pode e deve cultivar a sua maneira e seguir seu instinto, mas no âmbito do estudo que acabo de sucintamente descrever.

 

YT– Em títulos como – The Portuguese Man Of War e Still Alive In Bairro Alto (discos de 1993 e 2001, respetivamente), é explícito o caráter contextual aliado a uma atitude de resistência. Por outro lado, referiste numa outra entrevista, que desististe de “viver as épocas”. Sentes que o teu processo de composição tem se distanciado dessa necessidade de referenciar?

SM -Lembro-me brumosamente (não sei aonde para essa entrevista) de igualmente referir que “as épocas”, por sua vez, tinham possivelmente desistido de mim e das minhas coisas…

 

YT – A forma como é organizada a alternância entre som e silêncio (motivos rítmicos de carácter pontilhístico) remete-nos para uma ideia de discurso, mesmo não se realizando em significado. Como entendes este estado de tensão entre a existência de formas discursivas e a narrativa, ou a sua ausência?

SM – Não sei se entendo bem a pergunta. Sei que a realização melódica da música parece-me coisa inevitável, inquestionável. A sério: a melodia é fatalidade, mesmo se não a finalidade, de seja qual for a composição executada. Cheguei a esta conclusão nos anos 90 do século passado e, desde então, procuro simplesmente agir em consequência. Como se acreditasse em Deus. Muito músico não acredita.

 

YT – O que podemos esperar do concerto no TBA?

SM – Iremos apresentar uma hora de pequenas músicas, representam a faceta mais intimista do meu trabalho. E tenho comigo/temos dois casos sérios; de Fala Mariam se calhar basta me dizer que é quem é, e que juntos tocamos há quarenta anos; quanto a Bruno Silva, digo que é guitarra que se revela mais e mais a cada ano. Este trio, formação curta portanto, não deixa de ser para mim um luxo: com estes dois posso – literalmente – tudo tocar.

 

Excerto de partitura sopros do concerto Sei Miguel Trio no TBA

 

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