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20 Fevereiro
Stones against diamonds

Práticas de Leitura: Stones against diamonds

Discurso
Práticas de leitura

Com um nome que invoca um texto da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, Stones against diamonds é a manifestação de um modo de ação que visa abrir um debate em torno da condição política, artística e disciplinar da arquitetura. Primeiro, o grupo tenciona interpelar o papel que a arquitetura desempenha atualmente num quadro de transformações políticas, sociais e económicas. Em segundo lugar, interessa-lhes interrogar a função do arquiteto enquanto intelectual e técnico. Por último, propõem-se, através das suas publicações, a discutir o projeto-escola, ensino e aprendizagem da arquitetura no atual modelo universitário.

A Stones against diamonds foi fundada em 2018 por Ana Catarina Costa, Paulo AM Monteiro e Pedro Levi Bismarck, no Porto.

1. O que é uma escola?

«Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários.
Por isso, a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, ao mesmo tempo um engano e um massacre: um engano, porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e isso não será certamente a cada vez mais rarefeita e desacreditada didáctica); um massacre, porque priva os estudantes daquilo que constituía o sentido mais próprio da sua condição, deixando que, ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente.»

Giorgio Agamben, Estudantes [ex-curso #1 <série a>]

 

2. O que é uma disciplina?

«Seria preciso perguntar, afinal, o que é ou o que constitui uma disciplina ou um campo de saber? Respondendo precisamente a esta questão, Jacques Rancière argumenta que uma disciplina é sempre “um reagrupamento provisório, uma territorialização provisória, de matérias e questões que não têm por si mesmos uma localização ou um domínio próprio”. Mas é, por isso mesmo, um “reagrupamento” que define, em cada momento, em cada época, quem está habilitado a falar de quê e aquilo que deve pertencer ou deve permanecer excluído de um determinado campo de saber. Naquilo que nos diz respeito, é um “reagrupamento” que define o corpo de “matérias e questões” que fazem o saber da arquitectura e o conjunto de qualificações e competências do fazer do arquitecto, isto é, o que é falar de arquitectura e quem pode falar de arquitectura.»

Pedro Levi Bismarck, Arquitectura e pessimismo [ex-curso #1 <série b>]

 

3. Arquitectura, para quê?

«Contudo, mais do que nunca, é necessário reconhecer que, para a arquitectura, é inútil profetizar sobre o seu futuro. Ao invés, a arquitectura deve, como e quando puder, pôr em crise permanente as relações sociais e de produção em que, pela sua natureza, está inserida: colocar-se ao nível dessas relações, apreendidas na sua estrutura global; ser produtiva sempre que souber operar os processos de transformação sem dissimular a crise, mas partindo desta, aceitando-a. Mas isso também significa reconhecer a natureza técnica do novo trabalhador intelectual, o qual, inserido como força de massa dentro das instituições, movido pelo seu “desencanto”, deve lutar por uma permanente crise-transformação do seu próprio status.
Além do mais – como advertiu Massimo Cacciari (“Nuova Corrente”, 1975-67) –, qualquer esforço tendente a reformas estabilizadoras será apenas “apologia do sistema”.»

Manfredo Tafuri, Duas Culturas Arquitectónicas [ex-curso #4 <série a>]

 

«A crise financeira de 2008 e a consolidação definitiva do neoliberalismo assinalaram, assim, tanto a dissolução definitiva das categorias que estabilizaram o quadro conceptual de actuação da arquitectura, como a exaustão dos pressupostos que, desde o pós-guerra na Europa, construíram todo um modelo de estar junto: a cidade social-democrata. Longe de todos os pastoralismos idílicos com que alguma arquitectura ensaia a sua vie poétique, aquilo que temos diante de nós é um território em profunda transformação e convulsão.
Contra o optimismo irresponsável que, por sua vez, parece ter invadido todas as instituições e lugares de discussão da arquitectura (fechadas no eterno retorno da celebração da arquitectura), não nos resta senão seguir um velho repto de Walter Benjamin: “organizar o pessimismo”. Longe de ser uma qualquer resignação fatalista, tal pessimismo será, antes de mais, uma forma de impedir por todos os meios possíveis a chegada do pior. Contra todas as “políticas poéticas” – seguindo ainda Benjamin – que nada mais fazem do que impor o seu silêncio, trata-se de opor uma poética política. Ou seja, naquilo que nos diz respeito, opor uma poética política da arquitectura que negue todas as ressacralizações, todos os diletantismos empreendedores, todos os optimismos idílicos.
Enfim, o que está em jogo é admitir a possibilidade de uma condição política em arquitectura capaz de interpelar a função real e objectiva que esta detém nos actuais processos de produção de espaço, mas também de se opor ao actual movimento expropriador e privatizador (económico, político, ecológico) da metrópole neoliberal. Talvez fosse esse o sentido das palavras de Giulio Carlo Argan quando, em Projecto e Destino, escrevia que “não se projecta nunca para, mas contra alguém ou alguma coisa”. Ora, qualquer reflexão sobre o horizonte político da arquitectura terá necessariamente de interpelar e resgatar do esquecimento uma potência de conflito que o projecto nunca deixou de abrir no seu próprio movimento (…).»

Pedro Levi Bismarck, Arquitectura e pessimismo [ex-curso #1 <série b>]

 

4. Arquitectura, quem?

«5. Onde estão e o que fazem os técnicos no meio de tudo isto? Só duas hipóteses lhes são oferecidas: ou são instrumento directo do poder económico, e portanto comparticipantes e co-beneficiários do processo de exploração; ou servem nos serviços públicos, passando então à categoria de instrumentos indirectos. Esta é a razão pela qual, quer numa quer noutra situação, os técnicos são olhados pelas populações com desconfiança, isto é, como aquilo que realmente são. Por isso resultam viciadas todas as tentativas de diálogo que se processam no quadro estritamente profissional; trata-se de relações estruturais que factores acidentais de ordem pessoal não conseguem superar.
6. Colocados assim em estruturas de exploração ou de controle que os instrumentalizam, quais as saídas que os técnicos podem encontrar quando adquirem consciência da sua responsabilidade frente à situação, às necessidades, às aspirações e aos interesses das massas? Existem por vezes possibilidades de serviço efectivo no quadro da própria actividade profissional, nomeadamente quando se trata de serviços públicos que se situam mais distantes do processo especulativo. Mas essas possibilidades são reduzidas, a despeito de tudo o que se possa fazer para uma consciencialização dos quadros administrativos e técnicos.»

Nuno Teotónio Pereira, Participação popular e trabalho do arquitecto [ex-curso #3 <série a>]

 

«Uma das consequências essenciais deste processo [de emergência do neoliberalismo] corresponde à dissolução do vínculo entre condição disciplinar e exercício da profissão às mãos da morte dessa figura central da história da arquitectura do século XX que foi o arquitecto enquanto profissional liberal e a sua substituição por uma outra figura: o arquitecto enquanto empreendedor. Se o primeiro era um sujeito à vez artista e homme de lettres, técnico e intelectual, dotado de uma concepção vagamente humanista e universal da prática da arquitectura – assegurando ainda que nem sempre de forma estável o vínculo entre disciplina e profissão –, o segundo é já um indivíduo totalmente capturado pelas leis universais e transcendentes do mercado, em que a arquitectura não pode ser senão uma prestação de serviços, um exercício profissional privado. (…)
Neste quadro, a arquitectura como disciplina fica reduzida ao exercício da profissão, isto é, os problemas da arquitectura são os problemas da gestão corrente da profissão. É o apagamento definitivo do arquitecto enquanto intelectual e o confinamento deste à categoria de técnico de organização logística/funcional de programas ou de esteta da paisagem e do objecto. É, na verdade, aquilo que poderíamos chamar de privatização da arquitectura, ou seja, a expropriação da sua dimensão propriamente pública (do seu saber-fazer e fazer-saber colectivo) e a sua diluição na dimensão meramente técnica-tecnocrática dos processos de construção, desaparecendo aquele último espaço de interpelação da sua condição social e política.»

Pedro Levi Bismarck, Arquitectura e pessimismo [ex-curso #1 <série b>]

 

5. Arquitectura, para quem?

«4. Só através dos poderes públicos poderiam as populações fazer ouvir a sua voz e defender os seus interesses.
Mas que fazem entretanto os poderes públicos? Propondo-se uma tarefa de defesa do interesse geral, procuram condicionar e disciplinar os mecanismos de exploração. Mas, na verdade, instrumento eles próprios do poder económico, mais não fazem do que cobrir, legalizar, apoiar e até subvencionar todo o processo de exploração.
Por isso, se ao nível político deturpam todas as formas de representação popular, ao nível das acções concretas do Desenvolvimento Urbano tomam-se as decisões em gabinetes e ante-câmaras, velando-se por manter as populações bem à margem dos conhecimentos que lhes poderiam permitir qualquer actuação de crítica ou de controle, tirando assim proveito e mantendo situações de sub-desenvolvimento social e cultural.»

Nuno Teotónio Pereira, Participação popular e trabalho do arquitecto [ex-curso #3 <série a>]

 

«Se é possível dizer “falta a arquitectura” é, precisamente, porque “falta o povo” (seguindo os termos de Deleuze), falta esse “público da arquitectura”: tanto como realidade histórica como promessa futura. Porque aquilo que a machine infernale do neoliberalismo não cessa de nos expropriar é a possibilidade de existirmos enquanto sujeito político colectivo, de nos podermos inventar enquanto povo, e, por isso mesmo, de poder inventar um povo, de apelar a um outro povo, a uma outra forma-de-vida, a um outro ser-em-comum, a um povo ainda não-aí: futuro, ausente, inesperado. E, no entanto, esta constatação – “falta o povo”, “falta a arquitectura” – é a base a partir da qual se pode pensar a possibilidade, ou antes, a necessidade imperativa, de uma outra arquitectura, de um outro projecto-de-arquitectura: futuro, ausente, inesperado.»

Pedro Levi Bismarck, Falta a arquitectura

 

6. E a arte?

«Na itinerância da vontade propositiva, a pertinência de invenção no acto de projecto pressupõe a relativização da convenção paradisíaca da subjectividade, pela qual o desenho observa, selecciona, realiza; pressupõe o abandono dessa vocação iluminista do desenho-processo de si mesmo, vocação na qual e pela qual a realidade-miragem do subjectivo se substitui aos dialectos da dialéctica entre sentimento e razão. Condição de equilíbrio vocacional, a possibilidade material da invenção acentua-se pela linha de actuação capaz de culturalizar a tutela do subjectivo no processo do desenho; acentua-se pela linha de actuação capaz de contextualizar a sombra da História no sistema da construção dos significados da obra arquitectónica.
(…)
Se o arquitecto permanece artista, “só o é na medida em que o ‘humano’ entra na exteriorização da sua capacidade criadora, na medida em que no seu âmago estão de acordo e em perfeita relação os dramas colectivos e os individuais”.»

Manuel Mendes, Em torno da vocação disciplinar da arquitectura [ex-curso #5 <série a>]

 

«Se a arte “é abrir à vida novas possibilidades” contra as limitações impostas pelo estado presente do mundo, só enquanto gesto de resistência é que a arquitectura pode reivindicar uma autonomia propriamente sua. Ou seja, trata-se da afirmação de uma condição de experimentação radical do mundo e das suas formas-de-vida, capaz de promover alternativas ao movimento expropriador da metrópole (neoliberal), através de um projecto-de-arquitectura e um projecto-de-cidade que não seja apenas a reprodução sem fim da catástrofe em vista, mas a reinvenção de um espaço para um comum por vir.»

Pedro Levi Bismarck, Arquitectura e pessimismo [ex-curso #1 <série b>]

 

«O desafio mais radical à ideia de casa-como-propriedade talvez tenha sido lançado pelo arquitecto suíço Hannes Meyer. Ao contrário de muitos arquitectos da sua geração, Meyer nunca projectou apartamentos ou habitações unifamiliares. Em vez disso, o seu maior contributo para a arquitectura doméstica foi o Co-op Zimmer (1926) projectado para o trabalhador nómada e reduzido a um quarto individual que continha apenas o essencial: uma cama, um armário e uma cadeira desdobrável. Tal decisão implicava que, para além do espaço mínimo de auto-reclusão, os outros espaços – edifício e cidade – fossem considerados como coisas a serem partilhadas com outros. Note-se que, no modelo de Meyer, sobre uma mesa em miniatura está um gramofone cuja forma curvilínea contrasta com a austeridade do quarto e introduz um sentido de propriedade ‘supérflua’ dentro da condição de vida existenzmininum. E é precisamente este pequeno detalhe que revela um sentido de prazer hedonista neste espaço tão modesto como acolhedor.
É possível que Meyer tenha pretendido projectar uma versão contemporânea da célula monástica, na qual a ausência de propriedade cumpre a possibilidade de felicidade. O Co-op Zimmer revela o que poderia ser entendido como uma arquitectura do uso contra a arquitectura da propriedade. Enquanto esta última reflecte necessariamente a identidade do proprietário, o quarto de Meyer é radicalmente genérico e anónimo. Precisamente por isso, este espaço promete ao seu habitante a possibilidade de uma vida liberta do fardo da propriedade doméstica.»

Pier Vittorio Aureli, Um quarto contra a propriedade [ex-curso #6 <série a>]

 

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