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Franco "Bifo" Berardi
Poetry and Chaos
12 Outubro
Discurso
Abertura
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Franco "Bifo" Berardi

Poetry and Chaos

Entrada livre (sujeita à lotação da sala)
Discurso
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12 Outubro

18h00

Entrada livre (sujeita à lotação)
Streaming disponível no próprio dia em teatrodobairroalto.pt
Em inglês

Discurso
Abertura
Preço Entrada livre (sujeita à lotação da sala)
Sala Manuela Porto
Duração 90 min.

O capitalismo financeiro está a sufocar o mundo.
Pode a poesia salvá-lo?

O conceito de espasmo caósmico em Guattari.
O que é um espasmo? Qual o significado da palavra “caosmose”?
A presente dominação global do capitalismo financeiro é causa de sufoco: não consigo respirar.
Respiração inspiração conspiração expiração

Sufoco: a aceleração do ritmo da produção semiótica
a devastação do ambiente físico do planeta
a devastação do ambiente psíquico.
Caos, desespero e etno-nacionalismo agressivo.

O que é o caos? O caos e o cérebro.
A poesia é uma forma de transformação do ritmo da respiração.
A poesia é uma forma de relação com o caos contemporâneo.

Breathing (2019), recém editado, abre com Eric Garner, que em 2014 morreu asfixiado às mãos da NYPD por vender cigarros de contrabando. O que é que isto tem a ver com poesia?

Primeiro, sou asmático como Eric Garner. Encontrava-me nos Estados Unidos para uma conferência, e no dia em que o vídeo da morte – o martírio – de Eric Garner veio a público, estava na Califórnia. Participei em manifestações em que se gritava “I can’t breathe, I can’t breathe”. Para mim, a expressão tem especial ressonância porque de tempos a tempos sofro com crises respiratórias.

Ao mesmo tempo, ainda esta manhã, saí de casa – vivo no centro de Bolonha. Ouvi gritos lá fora. Era uma manifestação de jovens, muito, muito jovens. A cruzada das crianças, como em muitos outros sítios mundo fora. As pessoas mobilizam-se, protestam contra a asfixia da humanidade. […]

 

Coisas como por exemplo o Pokémon GO, ou as muitas comunidades de dating online, são vistas por alguns como maneiras de reconectar as pessoas numa era digital. Porque devemos distinguir entre “conexão” e “conjunção”?

Penso que é uma distinção absolutamente crucial. Entendo por “conjunção” todo e qualquer tipo de relação entre seres humanos. Especificamente, entre agentes linguísticos. Na relação conjuntiva, criamos permanentemente o sentido das mensagens ou dos signos linguísticos que trocamos. Quando digo, numa situação que envolve o corpo “físico”: “gosto de ti”, ou “não gosto de ti”, crio ao nível dessa proximidade física, dos corpos, as condições ou o contexto para nos compreendermos.

A “conexão”, por outro lado, é uma relação puramente sintática. Isto é, para pôr uma máquina em contacto com outra máquina é preciso um formato comum, uma sintaxe comum. O que elas trocam, o “sentido” que essas duas máquinas trocam, é independente de qualquer contexto. No limite, está já contido na própria sintaxe. O que eu digo é que este tipo de relação maquínica está a expandir-se mais e mais aos seres humanos, porque nos relacionamos mais e mais através de máquinas que pedem um formato, uma sintaxe. Ou falamos a linguagem da máquina, ou não somos compreendidos.

O que é afinal um código? Uma imagem filosófica, um pouco como a profecia. A profecia é um ato linguístico que contém em si uma projeção do futuro, como o código. O código é uma ferramenta linguística, que contém em si o futuro desdobramento do objeto codificado. Isto é importante porque estamos a entrar numa dimensão na qual a profecia é substituída pelo código. O que está a redefinir a função da linguagem, num certo sentido: o que é perigoso. O nosso futuro, o futuro dos seres humanos, inscreve-se cada vez mais na linha codificada da linguagem. A profecia não se realiza a si mesma, não descreve nunca o futuro de modo prescritivo. O código faz isso, prescreve o futuro como o único futuro possível.

 

O que é algo que o código partilha com a finança. Na finança, a própria especulação determina o valor. Se a “confiança” desce, o valor desce.

Exato. O que é a finança? […] No início, a finança é apenas uma espécie de transcrição do que acontece no mundo real da economia física em termos numéricos, financeiros. Mas num dado momento – digamos o ano de 1971, quando Nixon decidiu que o dólar não tem relação com a economia real – surge uma força autocrática no campo da economia mundial. Desde aí, a finança modificou a sua natureza: o que era da ordem da transcrição começou a tornar-se uma prescrição. O que acontece no campo da finança é projetado, imediatamente, no campo das relações reais entre agentes económicos.

Por isso tantas vezes nos sentimos encurralados. […] Por definição, não podemos sair de uma prescrição.

A minha perceção é que o fascismo e o racismo crescentes com que nos somos obrigados a deparar diariamente nos Estados Unidos, ou na Itália (ou no Reino Unido, ou na Hungria, ou em tantos outros lugares), este novo fascismo é originado, gerado por uma espécie de raiva. Uma raiva cega contra a ferocidade matemática do código matemático. Vivemos dentro do cadáver do capitalismo, mas não encontramos uma saída. Porque este cadáver é matemático.

Até que vem a poesia. A minha ideia de poesia não tem a ver com literatura. Diz respeito à dimensão erótica da linguagem. Só a reativação da dimensão erótica da linguagem, do corpo linguístico, do corpo social – podem produzir uma nova perceção de liberdade, face à máquina financeira.

 

Muita coisa mudou desde o momento da publicação do livro The Uprising, até à mais recente publicação de Breathing. Onde anda a poesia hoje?

É verdade: escrevi The Uprising no ano de 2011 […], o ano da ocupação. Ocupámos o quê e por que razão? […] Ocupamos as ruas, mas o poder não está nas ruas. O poder financeiro não está nas ruas, não está em lugar nenhum. Nem mesmo nos bancos! […]

Então porquê sair à rua e ocupar? A minha resposta foi: nós não tentámos travar o capitalismo financeiro. Tentámos reactivar o nosso corpo. Por isso descemos às ruas – numa acção poética, mais do que política. Não reclamávamos nada do poder, era a nós próprios que falávamos. Dizíamo-nos: estamos sozinhos nos nossos cubículos, à frente dos nossos ecrãs. Trabalhamos em conjunto, mas vivemos sós. […] Vamos para a rua.

Mas é sabido, o movimento não teve a melhor sorte […]. Pelo contrário, a ditadura financeira prosseguiu o seu caminho […]. E agora, o que acontece agora? Hoje, olho para a rua e vejo esta nova geração… O movimento das escolas, ao nível do ensino básico. E a força – a enorme força deste movimento – é uma: a de ser um momento formativo de uma nova geração que sufoca. Sufoca literalmente. […] A única possibilidade é recriar a sociedade a partir de baixo.

Mas o que significa partir de baixo? Significa partir do corpo. Do corpo respirante das singularidades humanas […]. Quando dizes, “Quero travar a asfixia”, estás a falar de terapia, estás a falar da cidade, de transportes, de tempo de trabalho, da obrigação de trabalhar em condições horríveis. Este movimento é muito mais concreto que o Occupy – ao mesmo tempo que o continua.

 

Fica a questão. Pode a poesia salvar-nos?

Nada nem ninguém nos salvará, e aliás nem quero ser salvo. O que temos de entender – o ponto realmente é que vais morrer, mais cedo ou mais tarde. E eu, e toda a gente. Daí ao problema da extinção. O conceito de extinção está a fazer a sua entrada na história da espécie humana com uma força e uma consciência redobradas.

[…] Claro, por “salvar o mundo” entende-se evitar a guerra, a fome, etc. Ok. Mas a questão é entender – e o capitalismo está a bloquear a nossa compreensão. Porque sugere como naturais uma série de superstições como “crescimento”, “expansão”, “salário”, “competição”. São apenas conceitos, palavras, não são coisas “naturais”. Precisamos de desconstruir a “naturalidade” que o capitalismo impôs sobre as nossas vidas. E a poesia é a ferramenta preferida para o efeito, porque não aceita superstições.

O que é uma superstição? A sobreposição de um sentido. Um sentido obrigatório imposto à vida real do mundo. Queremos levar uma vida autónoma, mas a superstição obriga-nos a ir noutro sentido. Precisamos de libertar a vida autónoma das palavras. E os poetas podem fazê-lo.

 

Entrevista de Mike Huguenor

Blogue do jornal Le Monde Diplomatique, julho de 2019

Franco “Bifo” Berardi foi uma figura de destaque do operaísmo italiano, em particular na sua ala mais criativa e dedicada à experimentação com os media e a produção cultural. Fundou a Rádio Alice, primeira rádio livre em Itália (1976-1978), e a revista A/traverso (1976-1981), que combinava maoísmo e dadaísmo numa crítica anti-autoritária. Exilado em Paris, trabalhou com Felix Guatari em esquizoanálise. Desde os anos 1990 que o seu trabalho tem incidido sobre a relação entre psicopatologia, tecnologias da informação e capitalismo.

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