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17 - 18 Novembro
Silke Huysmans & Hannes Dereere

Out of the Blue

Alkantara Festival 2022
Artes Performativas
Alkantara Festival 2022

17 - 18 Novembro

quinta e sexta 21h

Em inglês e neerlandês

ACESSIBILIDADE
Espetáculo com legendagem em português e inglês

CONVERSA APÓS O ESPETÁCULO
17 novembro
Com Silke Huysmans, Hannes Dereere e a investigadora, curadora e educadora Margarida Mendes, moderada pela investigadora palestiniana Shahd Wadi. A conversa decorrerá em inglês.

Artes Performativas
Alkantara Festival 2022
Preço 12€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 60min

Classificação Etária:

M/12

De e com Silke Huysmans & Hannes Dereere
Dramaturgia Dries Douibi
Mistura de som Lieven Dousselaere
Olhar exterior Pol Heyvaert
Técnica Korneel Coessens, Piet Depoortere, Koen Goossens e Babette Poncelet
Produção CAMPO
Coprodução Bunker, De Brakke Grond, Noorderzon – Festival of Performing Arts and Society, Zürcher Theater Spektakel, Beursschouwburg & Kunstenfestivaldesarts, PACT Zollverein, Théâtre de la Ville & Festival d’Automne à Paris
Residências Kunstenwerkplaats, Pilar, Bara142 (Toestand), De Grote Post, 30CC, GC De Markten e GC Felix Sohie

Integrado Alkantara Festival

O registo documental e polifónico de Silke Huysmans e Hannes Dereere parte de situações sociais, políticas e ecológicas concretas, eventos ou lugares que refletem temas globais mais amplos. Subjacente ao seu trabalho está uma extensa pesquisa de campo que utilizam para dar forma aos seus projetos. Silke Huysmans estudou teatro na KASK School of Arts em Gent e Hannes Dereere estudou ciências do teatro na Universidade de Gent. A dupla sediada em Bruxelas cria as suas performances fazendo uso de uma prática investigativa que recorre tanto a ferramentas jornalísticas e documentais quanto a técnicas teatrais.

Entrevista de Michaël Bellon a Silke Huysmans e Hannes Dereere para a revista BRUZZ, a propósito da apresentação do espetáculo Out of the Blue no Kunstenfestivaldesarts 2022.

18/05/2022

 

Silke Huysmans & Hannes Dereere mergulham no fundo do Kunstenfestivaldesarts

Como se a terra não tivesse sido já sugada o suficientemente, estão atualmente a ser feitos planos para colher tubérculos de manganês do leito do mar a grande profundidade. Manganês quê? Para todas as nossas perguntas sobre mineração em terra e no mar, podemos recorrer a Silke Huysmans e Hannes Dereere, artistas de teatro.

Silke Huysmans fez a sua formação teatral no KASK em Ghent e Hannes Dereere fez estudos de teatro na Universidade de Ghent. As disciplinas optativas dele colocaram-no em contacto com ela e a sua formação académica, orientada para a investigação, foi uma combinação perfeita para a educação artística dela. Durante os seus primeiros pequenos projetos de campo, conduziram uma longa pesquisa sobre lugares com uma história específica. No início, tudo o que isto produzido foi um texto, mas depois, a dada altura, uma entrevista que resultou da pesquisa transformou-se numa performance.
Na trilogia que têm vindo a fazer em conjunto desde 2016, a investigação sobre um determinado local e os testemunhos das pessoas são elementos fixos depois trabalhados de forma artística. A trilogia, que criaram no centro de arte CAMPO e mostraram no Beursschouwburg, consiste em Mining Stories, Pleasant Island e agora Out of the Blue, que estreará no Kunstenfestivaldesarts. Gira em torno de temas como ecologia, sistemas sociais e políticos, comunicação, relações de poder, cultura visual, ciência e moralidade, mas estes temas universais partem sempre de uma questão concreta e internacional que tem a ver com… mineração.

 

Devido a este tema muito “terreno”, e devido à pesquisa exaustiva que precede as vossas peças, o vosso trabalho é por vezes chamado de teatro documental ou jornalístico.

Silke Huysmans: Não é assim que nós o vemos. Damos sempre ao público a informação necessária sobre o tema da nossa investigação, e também dedicamos muito amor e tempo a essa investigação. Mas o mais importante é traduzir artisticamente o “material seco” e é aí que a maior parte do trabalho é feita. O que fazemos não é jornalismo de investigação, mas sim peças de teatro com a sua própria história e forma específica. Também mostramos os nossos métodos e a nossa montagem, a nossa interpretação e os nossos sentimentos no palco.

 

Baseiam-se em histórias universais de mineração que são cativantes também porque vocês repetidamente encontram casos internacionais interessantes que, comparativamente, recebem pouca atenção dos meios de comunicação social.

Huysmans: A exploração de minério não é, de facto, um assunto óbvio para o teatro. É talvez um pouco mais óbvio nas artes visuais porque se trabalha com matérias-primas de forma mais concreta. Mas tudo o que nos rodeia é matéria-prima que vem de algum lugar, e é interessante descobrir como é que acaba aqui. O mundo nunca fica a saber sobre muitas histórias como estas. O desastre mineiro que inspirou Mining Stories ocorreu na região onde cresci (Huysmans viveu com os seus pais no Brasil durante os primeiros oito anos da sua vida ed.). O facto de não ter aparecido muito nas notícias foi certamente um dos fatores que desencadeou o nosso interesse na sua investigação, pois foi um dos maiores desastres mineiros do mundo. Pleasant Island era sobre a pequena ilha de Nauru, no Pacífico, onde fosfato foi extraído no passado e campos para pessoas refugiadas foram recentemente criados. É também uma história que foi deliberadamente mantida fora dos média e que se pode tornar visível e discutir no teatro. No final de Pleasant Island, falámos também sobre os planos para a exploração mineira no fundo do mar naquela região. Este é agora o ponto de partida para Out of the Blue.

 

O que é a exploração mineira no fundo do mar?

Hannes Dereere: Esta é uma indústria que ainda não existe de facto porque ainda estão a ser feitos estudos científicos sobre o seu impacto no ecossistema do mar profundo. Na verdade, só descobrimos 10% do leito marítimo, quando este constitui 80% da superfície da terra. Também requer tecnologia para minerar a profundidades de 4.500 metros. Existem vários métodos de mineração em profundidade marítima que estão agora a ser considerados e um dos métodos a ser testado, enquanto se aguarda um quadro legislativo, é a mineração de nódulos de manganês no fundo do mar.
Uma das histórias mais técnicas que não está na peça é sobre a Zona de Clarion-Clipperton (CCZ), é uma extensão de cinco milhões de quilómetros quadrados de oceano entre o México e o Hawaii, estabelecida pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), onde países e empresas estão autorizados a realizar investigação sobre mineração no fundo do mar, de acordo com um conjunto de regras. Por exemplo, a grande empresa belga de dragagem DEME opera agora ali com a sua nova filial Global Sea Mineral Resources (GSR), tendo a Bélgica como seu regulador.
Nessa grande zona do Oceano Pacífico, com milhões de anos de idade, pequenos “tubérculos de manganês” negros (estimados em 21 mil milhões de toneladas) estão cheios de metais como o níquel, cobre, manganês e cobalto a uma profundidade de 4.500 metros. Só estes tubérculos de manganês contêm mais metais do que os que se encontram na superfície da terra. Como resultado, poderiam ser utilizados para a produção de baterias, painéis solares e carros elétricos dos quais precisamos para a transição energética. Pode-se sugar estes tubérculos de manganês com um robô, mas isso perturba o solo e cria uma nuvem de poeira mesmo por cima dele que permanece por muito tempo e eventualmente aterra como uma camada de cinzas. Os tubérculos são também o lar de organismos que necessitam desta ligação. Ainda não sabemos o quão importantes são estes organismos, mas sabemos que não regressarão se os tubérculos desaparecerem. A discussão então é se devemos sacrificar também essa parte do nosso planeta exausto, sugando esses tubérculos com milhões de anos numa questão de segundos, com o argumento de que são necessários para a transição energética.

 

A Bélgica desempenha aparentemente um papel importante neste novo tipo de mineração.

Dereere: Nesta indústria, todos os olhos estão postos na Bélgica porque a DEME-GSR tem o melhor robô mineiro até à data. Sabemos há algum tempo que uma expedição teria lugar na Primavera de 2021 para fazer descer um protótipo de robô mineiro a 4.500 metros de profundidade, até ao fundo do mar, pela primeira vez na história. Ao mesmo tempo, havia um navio científico presente para estudar o impacto dessa expedição. Além disso, inesperadamente para nós também, o Rainbow Warrior da Greenpeace chegou àquele ponto totalmente deserto no oceano, que normalmente nem sequer os aviões sobrevoam.
Esses três navios podem representar a indústria, a ciência e o ativismo e achámos que seria interessante contactá-los a partir do nosso apartamento. Para ouvir o debate. A Greenpeace não quer que exploremos aquele lugar virgem que resta. A indústria está a utilizar o argumento da transição energética. A ciência está no meio: por um lado, o interesse da indústria dá-lhes uma oportunidade única de fazer investigação no fundo do mar, por outro lado, aquilo que estão a explorar pela primeira vez também fica ameaçado de desaparecer imediatamente.
Há algo de irreal em estar em contacto com aqueles três navios do outro lado do mundo a partir de um apartamento em Bruxelas.

Huysmans: Enviámos antecipadamente um e-mail ao coordenador do barco de investigação para perguntar se poderíamos seguir a expedição, e a nossa experiência no passado é que pessoas da academia frequentemente respondem com rapidez. A bióloga marinha belga Jolien Goossens, da Universidade de Ghent, estava a bordo e coordenou as entrevistas no local. Conseguimos convencer o Greenpeace após uma reunião pessoal por Zoom, quando já estavam em campanha no local. Falámos também com o CEO da DEME-GSR, que reservou mais de duas horas para nós. Mas não vamos mostrar tudo isso no espetáculo. Selecionámos sobretudo fragmentos das entrevistas que oferecem uma reflexão mais ampla sobre a questão. Foi também interessante o que as três partes tinham a dizer uma sobre a outra. Se tivéssemos estado no local num dos navios, provavelmente teríamos tido menos compreensão sobre toda a expedição do que ao observá-los à distância.

 

Também fazem sempre um design inteligente que se relaciona com o conteúdo. Podem falar um pouco sobre isso?

Huysmans: Para além da distância entre nós e os navios, a distância entre os navios e o leito marítimo é também fascinante. Cientistas descrevem esta exploração com câmaras subaquáticas, que iluminam o fundo do mar, como uma viagem através de uma paisagem de montanha no escuro com os faróis do carro. O que não se vê é aquilo que a luz afugenta. A diferença é que o grupo de cientistas não está no carro: as pessoas que investigam controlam o robô a partir de uma sala cheia de ecrãs no navio, e por vezes esquecem-se de que ainda há quatro quilómetros de água abaixo de onde estão. Aquela pequena sala a partir da qual se estuda algo que é infinitamente grande foi algo que achámos interessante para teatralizar. Porque também representa a nossa distância em relação ao imenso assunto.

 

Tentar pôr essa imensidão em palavras.

Huysmans: A exploração mineira em alto mar é um assunto desafiante à partida, porque ainda não existe e não temos ideia do seu alcance e de quem a irá protagonizar. O mar profundo pertence a toda a gente: é o património comum da humanidade que nos faz pensar sobre o mundo e o futuro. Queremos ou não ainda esta forma de exploração? O que pensam hoje cientistas quando se confrontam com mil novas questões a cada nova descoberta? Será que ainda ouvimos os factos científicos? Durante a nossa investigação, cientistas do filme “Don’t look Up” também nos vieram à mente. As empresas utilizam os factos científicos em seu proveito. A Greenpeace utiliza os seus factos para contar histórias. Grupos de cientistas ajudam a tornar visível algo que também poderia ter ficado escondido. Será por vezes melhor não conhecer algo?
Ao mesmo tempo, é engraçado que saibamos mais sobre a superfície da lua do que sabemos sobre os nossos próprios oceanos e, no entanto, a tecnologia leva-nos onde nunca estivemos antes: às profundezas do mar onde a vida teve origem, e das quais não sabemos o que ainda têm para nos oferecer.
Foi um projeto muito desafiante que, em última análise, também é sobre mim e o Hannes. Tentamos tornar as nossas interpretações e sentimentos tangíveis. O título Out of the Blue refere-se aos recursos que poderiam ser extraídos do oceano azul neste momento. Mas “Blue” também se refere a um sentimento que nos assolou durante o processo de criação. Sabemos que o mundo não está a ir muito bem. Estamos esgotados com más notícias. A exploração mineira no fundo do mar é mais uma forma de continuar a explorar abusadamente o mundo e, ao mesmo tempo, é apresentada como uma forma de sair “out of the blue”.

“Sabemos mais sobre a superfície da lua do que sobre o fundo do mar.” Ouve-se muitas vezes esta afirmação quando se fala das profundezas do oceano. Depois seus aclamados espetáculos Mining Stories (apresentado no Festival Verão Azul em 2019) e Pleasant Island (apresentado no Festival Materiais Diversos em 2019), Silke Huysmans e Hannes Dereere apresentam a última parte da sua trilogia sobre mineração. Desta vez, concentram-se numa indústria completamente nova: a mineração em águas profundas. Com os recursos terrestres cada vez mais escassos e sobreexplorados, as empresas mineiras voltam-se para o oceano.

Na primavera de 2021, três navios reúnem-se numa zona remota do Oceano Pacífico. A partir do seu pequeno apartamento em Bruxelas, Silke e Hannes ligam-se aos três navios via satélite. Cada um dos navios representa um pilar do debate público: indústria, ciência e ativismo. Através de uma série de entrevistas e conversas, surge um retrato íntimo desta nova indústria. O espetáculo é uma tentativa de registar um momento potencialmente fulcral na história da Terra.

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