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19 Maio
António Brito Guterres com Ana Naomi de Sousa, Ana Teresa Ascensão, Carla Alves, Inês Sapeta, José Baessa de Pina, Mario Maia, Nuno Barbosa, Nuno Trigueiros

Os mapas também o são, os mapas também não

Entrada livre
Discurso

19 Maio

quinta 18h – 22h
Sessão contínua entre as 18h e as 22h (última entrada 21h30)

Discurso
Preço Entrada livre (sujeita à lotação) mediante levantamento prévio de bilhete (máximo de 2 por pessoa) na bilheteira no próprio dia a partir das 15h
Sala Principal

Ideia e coordenação António Brito Guterres
Mediadores Ana Naomi de Sousa, Ana Teresa Ascensão, Carla Alves, Inês Sapeta, José Baessa de Pina, Mario Maia, Nuno Barbosa, Nuno Trigueiros
Produção Claraluz Keiser
Coprodução Associação Geração com Futuro e Teatro do Bairro Alto
Apoio Museu de Lisboa, Festival Iminente e jornal Mensagem de Lisboa

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

As incursões de António Brito Guterres pela cidade começaram bem cedo. A vizinhança da sua casa com a estação de elétricos do Arco Cego permitiu-lhe fugir da decadência e solidão de Arroios nos anos 1980, procurando vidas densas noutros locais. Provavelmente a ascendência antifascista e ligada ao urbanismo permitiu-lhe pensar em narrativas que questionam o que é formalmente apresentado.

Com um percurso curricular que vai do serviço social aos estudos urbanos, olha para os territórios como potência, reconhecendo as suas qualidades e competências, que procura dar a ver. Visibilizadas, estas afirmam-se – como argumentos – face ao todo, enquanto paralelamente reivindica uma equidade das políticas. Tem escrito vários textos sobre cidades e urbanismo; com um salto na cultura, não só por via do planeamento, contribuindo para a redação da Estratégia para a Cultura de Lisboa (relatório publicado em 2017 encomendado pelo Pelouro da Cultura da CML ao DINÂMIA’CET-IUL , centro de investigação do ISCTE-IUL), como numa perspetiva de investigação-ação em eventos como 6 de maio (peça de criação desenvolvida com Vihls), TRAÇA – Mostra de Filmes de Arquivos Familiares ou o Festival Iminente. Mantém na Antena 1 o programa semanal Cidade Invisível de entrevistas a moradores de bairros periféricos.

O RAP CRIOULO EM LISBOA

Apesar de termos enaltecido a importância da sociabilidade online, através das redes e fluxos de informação,

Isto não quer dizer que a sociabilidade baseada no lugar tenha desaparecido por completo. (…) As comunidades de imigrantes, tanto na América do Norte como na Europa, continuam a depender em grande medida da interação social baseada no lugar.

Castells (2007, p. 156)

Em Lisboa, um dos momentos de expansão da cidade ocorreu no fim da década de 70 do século XX e inícios de 80, com a imigração de origem africana a instalar-se no que eram então os limites da cidade. Com pouco interesse e condições do poder público para oferecer ou proporcionar habitação digna e/ou acessível aos novos habitantes da Grande Lisboa; muitos instalaram-se em baldios onde construíram bairros improvisados; outros conseguiram aceder a mecanismos de fomento à habitação.

Nesses bairros reproduzem-se comportamentos culturais e sociais: língua, culinária, música, dança, credo e ritos; de modo a fortalecerem a sua identidade e respetivas práticas; bem como a recriação de um ambiente acolhedor que faça frente às dificuldades impostas por esta sociedade de acolhimento.

Assim, a sociabilidade local, no contexto das comunidades de imigrantes na Europa, tem ainda a vantagem de garantir um suporte social e redes informais de apoio, não só no que respeita à sobrevivência económica, mas também em questões de documentação e procura de emprego. No contexto da atual crise, a sociabilidade local tem ainda mais importância.

Na transição do fordismo para a economia informacional, as populações de imigrantes de antigas colónias de França e Portugal, e as comunidades afro-americanas das cidades americanas, perderam alguma preponderância na força de trabalho existente; a ausência (e dificuldades de acesso) de formação profissional e de qualificação dos membros dessas comunidades conduziu a maiores dificuldades na aquisição e garantia de emprego (Wacquant, 2010).

No entanto, do ponto de vista do consumo, essas comunidades estão conectadas ao espaço de fluxos, nomeadamente através do serviço de telemóvel com ligação à internet (Smith, 2010).

A utilização do serviço de telemóvel com ligação à internet é uma forma economicamente mais acessível de aceder à rede e, do mesmo modo, corresponde a uma forma mais funcional e menos exigente ao nível dos custos e das funções exigidas de acesso a um conjunto de aplicações. Muitos dos jovens que habitam nos bairros sociais da Grande Lisboa são hábeis na utilização desses instrumentos, através de centros de inclusão digital normalmente disponível na comunidade, do uso de telemóvel com ligação wireless à internet, computador pessoal e até, na ausência de recursos para um serviço de internet privado, a utilização de redes wireless de possível descodificação é uma prática comum.

Raramente nos lembramos que as comunidades mais excluídas das nossas sociedades têm acesso aos mesmos instrumentos que a restante sociedade. Normalmente, quando somos alertados para isso é pelas piores razões ou porque a sociedade vigente se sente ameaçada.

Nos motins da banlieue das principais cidades francesas em 2005, foi publicamente reconhecido o papel das mensagens instantâneas de telemóvel no alastramento e organização dos eventos. Já em Paris, nos motins de 2010, também na banlieue, reconheceu-se a importância das redes sociais, enquanto os motins da Grã-Bretanha de 2011 usufruíram também das redes sociais: Facebook e Twitter (5 Days in August: 2012).

Fica quase sempre por relatar os efeitos positivos da aliança entre uma forte sociabilidade local e uma sociabilidade online. Na Grande Lisboa, encontramos bons exemplos de como potenciar através da internet e seus acessos, as práticas culturais e artísticas que provêm dos bairros já mencionados, permitindo encurtar distâncias e custos, promovendo o consumo em massa de opções homogéneas dentro da heterogeneidade da grande cidade.

Das diversas expressões desses territórios e com presença assídua online – entre o Kuduro, grupos de dança e Dj’s -, o Rap Crioulo é um dos exemplos mais singulares até porque tem características que o afastam de um possível êxito comercial: é cantado numa língua não oficial em Portugal, descreve o dia-a-dia dos bairros da periferia de Lisboa, não tem agenciamento ou produção, carece de espaços de atuação formais, a sua forma objetivada (CD) não chega às lojas, os intérpretes são amadores, para além do preconceito generalizado que a sociedade presta aos jovens que interpretam o género, habitantes nos bairros periféricos de Lisboa cujas ações são mediadas de forma pouco cuidada pelos media tradicionais.

O Rap Crioulo e o seu sucesso parecem resultar da fruição entre os dois tipos de sociabilidade: online e local.

O movimento aparece nos anos noventa do século XX, como resposta ao falhanço da comercialização do rap em Portugal. Muitos grupos esforçaram-se por cantar em português, mesmo quando a língua mãe era o crioulo, de modo a poderem ter sucesso naquele género. Quem conseguiu fê-lo à conta de letras e poesias com temas comerciais, não refletindo a realidade dos bairros. Como resposta, grande parte dos cantores dos bairros de descendência cabo-verdiana começaram a cantar em crioulo, seguindo o exemplo dos poucos que tinham mantido essa opção, dedicando temas à realidade do bairro: pobreza, exclusão, falta de emprego, abandono escolar, racismo, ausência de cidadania, etc.

Mais tarde, em meados da primeira década do século XXI, as músicas gravadas em estúdios improvisados nos diferentes bairros começaram a ser introduzidas no youtube, sem vídeo necessariamente.

Devido à identificação com os temas abordados nas músicas, com a utilização da língua crioula, e por haver sociabilidades semelhantes em várias dezenas de bairros na grande Lisboa, o movimento espalhou-se e, hoje, mesmo jovens que não são de origem cabo-verdiana, cantam e ouvem essa música.

A internet, através do youtube, permitiu ligar culturalmente territórios dentro da área metropolitana que, pela distância e pelo preço dos transportes, dificultaria o seu contato permanente.

Do mesmo modo, o movimento mexeu com a geografia da internet, dissociando-a da geografia do estigma. De facto, se digitarmos no youtube o nome de alguns desses bairros: “Outurela Portela”, “Mira Sintra”, “Vale da Amoreira”, “Miratejo”, “Arrentela”, ao invés de encontrarmos conteúdos estigmatizantes, assistiremos a conteúdos culturais, em especial o Rap Crioulo.

Este movimento não é comercial, as músicas são disponibilizadas na internet de forma gratuita e, na maior parte das vezes, sem a existência do produto material: o álbum. Os vídeos são realizados por alguém desses bairros com a devida competência técnica, muita das vezes autodidata. Devido ao sentimento de pertença dos jovens face às músicas, quem as ouve não é só consumidor mas sim parte do movimento. Artistas com o Loreta, Né Jah, Landim, Baby Dog e grupos como Kova M, Fdib, KBA, Ghetto Shadows, Planeta Suel, Wesh Wesh e Tropas di Terrenu têm videoclips no youtube que facilmente detêm centenas de milhares de visionamentos, alguns até ultrapassando um milhão.

Como exercício, é interessante comparar o número de visualizações dos videoclips oficiais no youtube dos vinte artistas e bandas nacionais mais vendidos com os dos nomes já citados que interpretam Rap Crioulo. A superação permanente destes últimos impõe-nos interrogações.

A escala de sucesso das visualizações no youtube de Rap Crioulo dá-nos uma ideia bem diferente da identidade coletiva da Grande Lisboa e permite reposicioná-la, legitimando movimentos culturais normalmente não consagrados. Por outro lado, há que destacar o engenho, criatividade e o espírito de resistência dos diferentes intérpretes do movimento: cantores, produtores, dj’s, realizadores e suas crews; de aproximar afinidades através do uso da internet quando o território – pelas distâncias, custo dos transportes ou a sua pura inexistência – prometia ser o principal antagonista.

A internet e as possibilidades de conectividade permitiram o encurtar e segmentar a extensão do território, tornando orgânico o contacto permanente entre as várias dezenas de bairros periféricos da Grande Lisboa.

 

HÁ UMA CONCLUSÃO?

Estas análises podem parecer pouco significativas para o utilizador comum das tecnologias de informação que vê estas dinâmicas como um dado adquirido. A verdade é que, ainda, grande parte do uso atual provém da adesão a serviços, numa lógica de consumidor-cliente.

Dependendo da ação comunicativa, podemos caminhar para orgânicas de construção coletiva, importantes na medida da criação de diversas existências e legitimidades online.

Ainda no prelúdio da produção da Copa e das Olimpíadas, o governo do Rio de Janeiro pediu à Google que retirasse a palavra “favela” da sua aplicação “maps”. A empresa anuiu e, para além do coro de protestos de agentes sociais e dos próprios moradores das favelas pela medida política, a luta contra a invisibilidade face ao mundo e ao próprio Estado levou ao esforço conjunto de várias comunidades para a realização de um mapeamento coletivo online: o “Wikimapa”, também já consagrado no documentário Todo o mapa tem um discurso.

O jornal inglês The Guardian criou um blogue dedicado à visualização gráfica e mapeamento de dados: o Datastore. A partir dessa aplicação, o jornal conseguiu desmentir o primeiro-ministro David Cameron quando este disse que os motins de 2011 nada tinham a haver com as áreas urbanas excluídas, de habitantes mais pobres.
Não há dúvidas que este assunto exige atualização permanente, uma observação atenta e adaptada a vários fenómenos urbanos, para melhor percebermos os seus contornos. A ideia de que as cidades são inacabadas (Sassen, 2011) e de que, com recurso à tecnologia por parte de pessoas e movimentos, é possível encontrar uma matriz colaborativa na sua construção, está a crescer.

 

Excerto do Texto “Rede Cidade” de António Brito Guterres retirado da Revista “Este corpo que me ocupa” (2014, Buala Associação cultural)

 

Aprofundando as propostas de compreensão da cidade e dos seus lugares apresentadas na conferência Os mapas também o são, António Brito Guterres e as suas convidadas, por via de um trabalho participativo e em processo, servem-se do espaço do teatro como oficina de construção de mapas a haver.

Diz-se que a história é escrita por vencedores, os mapas também o são. Propõem uma linguagem, um discurso, uma ideologia. Dizem o que existe e o que não existe e circunscrevem o possível, estabelecem o governável. Na sofisticação das suas linhas não há espaço para perguntas. As suas omissões são nossas, delas dependem vidas, territórios, decisões. Como é que um instrumento resgata ou rasura uma comunidade? Não podia ser de outra forma? O que se dá no acesso à interrogação? O que fazemos com respostas que questionam mais do que respondem? Que desenham novos mapas e desdobram territórios outros, múltiplos – e não lineares nem planos? É que relação e mapa são sinónimos.

Desta vez os mapas não estão no projetor mas sim no estrado, para serem vistos e manuseados em cena. A partir das 18h decorrem em contínuo fóruns de apresentação e discussão de cada um dos mapas, interpretando a cidade no que respeita à cultura, memória, afetos, infraestrutura e criminalidade.

Este projeto faz parte de um ciclo em parceria com o Museu de Lisboa, o Festival Iminente e o jornal Mensagem de Lisboa. O próximo capítulo, uma série de passeios pelos territórios mapeados e um picnic nos jardins do Museu de Lisboa tem lugar no dia 23 de Julho, mas o ciclo prolonga-se com uma exposição no Museu de Lisboa, prevista para o Outono de 2022, e uma publicação futura com o Festival Iminente

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