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05 - 07 Julho
Miguel Pereira

Miquelina e Miguel

12€
Dança

05 - 07 Julho

terça, quarta e quinta 19h30

ACESSIBILIDADE
Com audiodescrição no dia 7 julho

Dança
Preço 12€
Menores de 25 anos 5€
Sala Principal

Classificação Etária:

M/6

Direção artística Miguel Pereira
Interpretação Miquelina da Costa Frederico e Miguel Pereira
Colaboração dramatúrgica Paula Caspão
Apoio à criação Bibi Dória
Desenho de luz  Hugo Coelho
Colaboração no Desenho do Espaço Cénico André Guedes
Produção O Rumo do Fumo
Coprodução Teatro do Bairro Alto
Apoio Estúdios Victor Cordón
Agradecimentos Ana Pais, Catarina Alvarez, Daniel Tércio, Filipe Viegas, Henrique Neves, Luís Graça, Magda Pereira, Otávio Almeida e Vera Mantero
O Rumo do Fumo é uma estrutura financiada por República Portuguesa – Cultura | Direção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lisboa

Fotografia Joana Linda

 

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Miguel Pereira estudou na Escola de Dança do Conservatório Nacional e na Escola Superior de Dança. Foi bolseiro em Paris, Nova Iorque e Amesterdão. Como intérprete trabalhou, nomeadamente, com Francisco Camacho, Vera Mantero, Jorge Silva Melo e com Jérôme Bel em Shirtologia (Miguel).  Como criador, destaca as peças António Miguel – com o qual recebeu o Prémio Revelação José Ribeiro da Fonte do Ministério da Cultura e uma menção honrosa do prémio Acarte/Maria Madalena Azeredo Perdigão (2000) – António e Miguel, uma nova colaboração com Antonio Tagliarini (2010), Op. 49 (2012), WILDE (2013) uma colaboração com a mala voadora, Repertório para Cadeiras, Figurinos e Figurantes (2015) para o Ballet Contemporâneo do Norte, Peça para Negócio (2017), Peça feliz (2017) ), Era um peito só cheio de promessas (2019) e Falsos Amigos (2021) em colaboração com Guillem Mont de Palol. Tem apresentado os seus trabalhos e lecionado na Europa, Brasil, Uruguai e Chile.

Se voltas, levas (1 livro)
Na compra de bilhetes para 2 espetáculos do TBA recebam o livro do projeto Primeiro Rascunho. Mais informações em tba.bol.pt e com a nossa Bilheteira.
primeirorascunho.teatrodobairroalto.pt 

A nossa história rediz-se com linhas ligeiramente diferentes todos os dias. Entre as coisas que pensamos serem factos inabaláveis, as coisas que de repente nos comovem e perturbam, as coisas de que conseguimos falar e as coisas que se falam através de nós sem nos darmos conta, temos andado – com esta peça no horizonte – a experimentar o espaço da dança como modo de reensaiar, interrogar, rescrever, partilhar vivências que não nos pertencem apenas a nós. Não sabendo muito bem o que vamos conseguir comunicar em cena, por entre as malhas do imponderável que a situação comporta, talvez se possa dizer que teremos estado a (re)dizer e a (re)dançar a história da Miquelina e do Miguel em termos bastante incertos, tentando abri-la, aos tropeções, para o que dela ainda nem conseguimos imaginar.

Eis algumas das linhas que se foram fixando, e que ao serem remastigadas em cena abrem frequentemente para novas interrogações:

“A Miquelina nasceu em 1935, em Santa Catarina, numa aldeia a 7 km de Tomar.
Nunca gostou do nome, dado pela madrinha; normalmente as pessoas chamam-lhe Lina ou Micas. Com 5 anos foi para Moçambique com os pais e os irmãos. O pai foi trabalhar para a fábrica de cimento da Matola, em Lourenço Marques. Sempre foi considerada a filha sem juízo. Casou com o meu pai, Adriano Augusto, algures nos anos 50 do século passado. O meu pai em solteiro tocou violino numa orquestra. Depois de casado tornou-se caçador, entre outras coisas. Dedicou grande parte da sua vida à caça. Eu nasci em 1963 e a minha irmã Magda em 1965. Sempre fomos muito mimados pela minha mãe. O meu pai foi uma figura muito ausente. A Miquelina foi bancária a sua vida toda e frequentava muitos bailes.

Em 1975, no ano da independência de Moçambique, fiz a minha primeira dança pública, no final do ano letivo da escola que frequentava. Em 1976, eu a minha irmã viemos para Portugal. Foi a primeira vez que saímos de Moçambique. Os meus pais ainda ficaram por lá até 1980. Fomos viver para Santa Catarina, a aldeia onde a minha mãe nasceu, com os meus avós e tios maternos. Aos domingos, eu e a minha prima da minha idade, fazíamos sessões de marrabenta para os familiares que viviam na aldeia. Eles diziam que eu tinha muito jeito para dançar, e (talvez tenha sido?) aí (que) nasceu o meu desejo pela dança.

No regresso dos meus pais fomos viver para Lisboa e comecei a frequentar aulas de dança, incentivado também pela série americana FAME. Sonhava tornar-me um bailarino virtuoso. Fui para o Conservatório de Dança e uma professora disse-me uma vez que eu tinha as medidas certas, pena era a cabeça. Acabei por romper um menisco e o meu sonho de ser um bailarino virtuoso foi por água abaixo. Comecei a fazer outras experiências com a dança e, em 2000, criei ANTONIO MIGUEL, o meu primeiro trabalho reconhecido, em que estava nu e fazia muitas maluqueiras.

Nunca consegui convidar a minha mãe para vir ver os meus espetáculos, por receio de revelar a minha verdadeira identidade e orientação sexual. Também nunca senti interesse da sua parte em vir ver. Fui continuando o meu trabalho e, pouco a pouco, o desejo inocente da dança foi desaparecendo para se transformar num processo de sobrevivência.

A minha mãe começou a desenvolver o processo de demência há cerca de 10 anos. Comecei então a descobrir uma nova Miquelina que até aí apenas perscrutava, foi como se uma série de barreiras tivesse desaparecido, como se esse desaparecimento nos tivesse aproximado, através do disparate, das danças e do cantar. Pouco a pouco, algo mais afetivo ia ganhando profundidade. Começámos a fazer danças juntos. Aos domingos, quando ia almoçar com ela, fazíamos danças temáticas, um pouco arbitrariamente e ao sabor do improviso. Se tínhamos comido bacalhau fazíamos a dança do bacalhau, se chovia nesse dia fazíamos a dança da chuva ou da borboleta, porque ela adora borboletas. Surgiu a “bailarina”, a “gafanhota” e a imitação do Charlie Chaplin. Ela adora o Charlot. Fazíamos sessões misturadas com sapateado e mais maluqueiras que surgiam. Criámos o “Olarilolé” a partir da canção “Oh Malhão Malhão”, e só mais tarde me apercebi que a melodia que ela repetia com aquelas palavras sem sentido vinham dessa música popular. Ultimamente a Miquelina fala muito de “cu”, “merda” – assim criámos a dança dos foguetes. Rimo-nos muito juntos. Há uma porta cada vez mais aberta para o absurdo e a loucura e isso faz-me sentir “em casa”.

No outro dia, no dia do seu último aniversário, quando lhe perguntei que idade tinha, disse-me que já não se lembrava que tinha idade. Ela troca muitas vezes o número de anos que tem. Progressivamente a memória dela dissipa-se e deteriora-se, mas ao mesmo tempo fico surpreendido com as coisas que do nada se revelam e aparecem, nomeadamente a memória do corpo e dos gestos, muitas vezes através dos nossos disparates e das músicas que ela gosta. Vai perdendo vocabulário, mas inventa muitas palavras novas que eu adoro.

Importa dizer que durante toda a vida tivemos que construir no seio familiar uma aparência de “normalidade”, para permitir a nossa sobrevivência num mundo demasiado regulado e castrador. Esconder, mentir, omitir, foram sempre estratégias para contornar aquilo que era evidente e que nos permitiam uma existência aparentemente “bem-sucedida”. O que escondíamos era afinal tudo aquilo que nos constituía e que perpassava implacavelmente num olhar, num gesto, numa raiva ou numa frustração. Só agora, passado todo este tempo, nos é permitido, de algum modo, viver e reencontrar um outro estar, ou num novo lugar, vivido inocentemente, sem pudores, regras ou tabus.

Para o processo desta peça, muitas questões se têm levantado. Uma delas, a frustração de não conseguir aceder totalmente ao nosso mundo privado no contexto da exposição pública, no espaço teatral. Estou a tentar entender como me colocar em cena perante este desafio, como aceder a uma outra lógica, afastar-me do controle e da direção, libertar-me dos códigos da representação e aceder a um outro patamar de fruição que deixei de sentir nos espetáculos que vejo e que faço. Cada vez sinto mais a necessidade de procurar que a “dança”, as nossas danças, sejam aquelas que fazemos sem elaborar, que surgem por um desejo profundo e por um ímpeto vital de exprimir qualquer coisa, contrariando uma formulação excessiva. Apercebo-me, através desta experiência com a minha mãe, o quanto as memórias inscritas no corpo transbordam nos nossos gestos, movimentos e impulsos, arrastam a nossa “história” e as suas convenções e contradições, e como deixamos transparecer a nossa vida, pessoal e coletiva . E que com essa busca, através da espécie de reescrita entre-dançada da nossa história que este projeto veio a ser, nos colocamos em fragilidade, em dificuldade. Na melhor das hipóteses, ao partilhar convosco este momento de fruição experimental – a um tempo belo e perturbador – da nossa história e da minha própria prática, procuro tornar palpável e mais partilhável o afeto em toda a sua complexidade, a estranheza e a paradoxalidade de tantas situações que vivemos ao longo da vida.

“A minha mãe chama-se Miquelina e nasceu em 1935. Durante grande parte da sua vida viveu em Moçambique. Nos últimos anos foi-lhe diagnosticada uma demência. Uma realidade que tenho vivido com sentimentos contraditórios, por um lado, o medo da degradação das suas faculdades, e por outro, o permitir-me  aceder a um novo patamar de entendimento, que se situa algures entre a loucura, a ternura e a cumplicidade.

Hoje olho para a minha mãe e reconheço-me mais do que nunca. O imponderável, essa loucura que por vezes me assalta, a vivência do fracasso e do ridículo, marcas que, sem saber, transportava vindas dela, e que só agora, à luz da degenerescência progressiva da sua memória, posso ver e entender.

Descobri como a minha mãe tem sentido de humor e como gosta de dançar. Juntos, rimos e fazemos disparates, as nossas maluqueiras. E, numa espécie de realidade paralela, por momentos somos felizes.”

 

Miguel Pereira

 

O tema da memória e da sua perda são os fios condutores de Miquelina e Miguel, onde o coreógrafo Miguel Pereira procura resgatar um novo lugar, trágico-cómico, entre ele e a sua mãe. Um encontro delirante e carinhoso a dois, onde a dança, o absurdo e a fragilidade são celebrados num espaço de liberdade sem limites, numa tentativa de contrariar o tempo e escapar ao inevitável.

 

 

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