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18 Maio
Ricardo de Seiça Salgado

Macbeth, o que se passa na tua cabeça?

Histórias do Experimental (em Portugal)
Discurso
Histórias do Experimental

18 Maio

quarta 18h

Streaming da conversa disponível no próprio dia em teatrodobairroalto.pt e nas redes sociais
No fim da conversa será apresentado em sala o documentário "Estado de Excepção CITAC 1956-1978" com cerca de 85min. Não será transmitido em streaming.

Discurso
Histórias do Experimental
Preço Entrada livre (sujeita à lotação) mediante levantamento prévio de bilhete (máximo de 2 por pessoa) na bilheteira no próprio dia a partir das 15h
Sala Manuela Porto
Duração 90min + 85min

Integrado na 21.ª Edição do FATAL

Esta iniciativa tem financiamento de fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito dos projetos «UIDB/00279/2020» e «UIDP/00279/2020».”

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Estado de Excepção: um projeto etnohistórico (1956-1979)

Sinopse:

Estado de Excepção é um documentário sobre o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) desde que é constituído em 1956 até ao rescaldo da revolução de 1974. É a história do grupo de teatro universitário, do Teatro em Portugal e, através dela, de duas décadas marcantes da História de Portugal. A partir da academia de Coimbra, reproduz-se a vida estudantil, a censura e a luta contra um regime que se esgotava e as contradições depois da revolução democrática, o papel da mulher da sociedade e o sentido de estar e ser no mundo.

Estado de Excepção é o termo desenvolvido por Giorgio Agamben para designar, no seu sentido jurídico, a capacidade da democracia poder suspender os direitos constitucionais mais elementares (medidas excecionais) a cidadãos, se disso ela depender em ordem a perdurar (motins, guerra, raça inferior, suspeito de terrorista, pandemias, etc.). Sendo o documentário referente ao período da ditadura em Portugal, vivia-se igualmente num perpétuo estado de exceção sendo, o CITAC, uma exceção à força impositiva do regime. Opera aqui uma mudança de perspetiva e inversão do olhar. O CITAC constituiu-se como estado de exceção ao funcionar sempre democraticamente no seio dos movimentos estudantis. Mesmo depois da revolução, o CITAC constitui-se como crítico em relação à ideia de democracia e a perversão que o Estado de Direito poderia vir a produzir.

O CITAC tem uma herança de 66 anos de vivências em Coimbra, de possibilidade de formação teatral e cívica, de corpos pensantes que vão sempre a construir um novelo próprio de um modelo possível, geração em geração, entre os estudos e o resto e até aos nossos dias. Trabalha-se a história do teatro e, através dela, também da vida estudantil, da posição da mulher na sociedade, das mentalidades e dos hábitos, da resistência política ao regime ao longo de toda a década de 1960, até ao culminar da revolução de abril e da experiência fenomenológica de a ter vivido. Conta-se, assim, a história do CITAC como uma janela aberta para o mundo.

Bibliografia:

DO AUTOR:

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SALGADO, Ricardo Seiça, 2016, “RESISTÊNCIA COMO MARGINALIDADE DESCENTRADA E O FILME ETNOGRÁFICO COMO ESCRITA PERFORMATIVA ENTRE O ARQUIVO E O REPERTÓRIO (Sobre o filme Estado de Excepção. CITAC: um projecto etno-histórico (1956-1978))”. In Denize Correa Araujo, Eduardo Victorio Morettin e Vitor Reia-Baptista (eds.), Ditaduras Revisitadas: Cartografias, Memórias e Representações Audiovisuais. Faro, Portugal: CIAC/Universidade do Algarve, pp. 601-627, ISBN 978-989-8859-01-3. Link repositório: http://hdl.handle.net/1822/56487

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OUTRA:

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__________________, 1971 b), “Curso de Teatro – 2.ª Lição (O Teatro Literário)”, Vértice, vol. XXXI, n.º 331-332 (Setembro), pp. 713-720.

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SCHECHNER, Richard, 2006 (2002), Performance Studies: An Introduction. London and New York: Routledge.

Ricardo de Seiça Salgado é investigador do CRIA-UC (Centro em Rede de Investigação em Antropologia – Universidade de Coimbra). A sua área de intervenção é a antropologia, a política, as artes performativas e a educação, explorando o domínio da contaminação entre a etnografia e as metodologias teatrais, do jogo e da resistência.

O título da conferência Macbeth, o que se passa pela tua cabeça? é o nome do último espetáculo da primeira encarnação do CITAC (o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). Sob ordem da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) ditou-se o seu fechamento em 1970, depois do grupo ter nascido em 1956. O pretexto decorreu da viagem que fizeram depois do espetáculo do Porto, em que elementos do CITAC terão ofendido peregrinos de Fátima. Estávamos no rescaldo da crise académica de 1969.

O CITAC ficou em baldio durante quatro anos, de 1970 a 1974, quando reabriu com um literal pontapé na porta da sede e do seu teatro-estúdio. Era agora fénix, ressuscitada. Durante a sua vida foi sempre autogerido coletivamente, de geração em geração, como um modelo inspirador formativo de cidadania pela arte, até hoje, 66 anos depois. Convidaram-me para olhar mais de perto a primeira encarnação do CITAC, período que vai de 1956 a 1970, e dar um contributo para perceber a emergência do teatro experimental em Portugal de trás para a frente.

Desde cedo (logo em 1959), o CITAC encontrou a sua função social, a divulgação do teatro nas suas várias formas: em fazer e apresentar espetáculos; criam um boletim de teatro anual em que editam e traduzem textos de teóricos, peças teatrais e de artistas que leem das revistas internacionais que ineditamente acediam, e organizam concursos de textos dramáticos. Discutem também nos boletins o teatro que faziam internamente com o encenador convidado. E organizam um ciclo de teatro anual, trazendo a Coimbra o que se fazia ou passava de mais importante em Lisboa e no Porto, e onde muitas vezes estreava as suas produções.

Durante estes 14 anos da história do grupo (1956-70), passaram diretores e pedagogos relevantes da arena nacional e internacional: António Pedro (1959 e 1963), Luís de Lima (1960-62), Jacinto Ramos (1963-64), Carlos Avilez (1965), Victor García (1966-68), Ricardo Salvat (1969), Juan Carlos Uviedo (1970). Cada um destes encenadores recebe uma nova geração do CITAC em cada período, o que os obrigava a uma atitude pedagoga perante os e as estudantes que se iniciavam em cada geração ao teatro, mesmo que também podendo integrar elementos da geração anterior. Essa pedagogia marcou cada uma das gerações e formou o etos e modus operandis do CITAC até hoje, tanto que todas as gerações têm como responsabilidade garantir uma geração futura. Apenas após um momento formativo, os encenadores implementavam as suas metodologias teatrais nos espetáculos.

De notar que na economia do teatro universitário se pagava apenas ao encenador (eventualmente ao cenógrafo ou ao músico) e as despesas de cenário e figurinos, mas os espetáculos faziam-se com atores, atrizes, técnica e produção executiva como trabalho não pago. Isto permitia aos encenadores ter um grande elenco à disposição e ativar experiências teatrais que dificilmente conseguiam produzir no teatro independente da época. O CITAC constituiu-se como uma espécie de “laboratório” dos próprios encenadores convidados para o desenvolvimento de projetos artísticos, mesmo que num grupo que os fazia começar quase sempre do zero.

Cada geração foi conduzida por cada um destes mestres do teatro que impulsionaram uma potência no teatro em Portugal, numa cultura subjugada pela vigilância da censura, e por todas as limitações adjacentes que bloqueavam o acesso à fruição cultural, quanto mais o contacto com a cultura europeia e mundial. Ainda assim, por entre as nuances da lógica da censura, o grupo conseguiu experimentar procedimentos inéditos no teatro português, combinando gestos democráticos na arena pública.

Começamos pelo período em redor de 1969 porque é altura em que acontece uma crescente radicalização da resistência ao regime ditatorial pela mão dos estudantes de Coimbra, num intenso movimento estudantil. E de repente, é na rua e é no palco que os citaquianos criam e se transformam em ativistas e protagonistas do movimento estudantil.

Outra razão para começar pelo fim desta primeira vida do CITAC, é que a radicalidade teatral experimentada parece, ainda que neste contexto histórico de desejo de revolução, afirmar-se no teatro em Portugal com grande dissenso. O theatron, o local do teatro, afirma-se como um espaço político de confrontação de ideias, estéticas e modos de perceber e fazer mundo – mas onde se experimenta modos de fazer vanguardistas, porque ousando pelos procedimentos compor uma teatralidade distinta. Foi o que aconteceu com Macbeth, o que se passa na tua cabeça?, criação coletiva dirigida por Juan Carlos Uviedo que catalisou a discussão que aqui se apresenta, a partir da investigação no arquivo e junto dos interlocutores no âmbito do doutoramento que fiz e que agora revisito (também com novo material de arquivo).

Temos, portanto, primeiro que ver a rua antes do palco, para situar o contexto de produção que marcou a passagem de Ricardo Salvat em plena crise académica (1969), depois do trabalho continuado de Victor Garcia (1966-68) e da vinda conturbada de Juan Carlos Uviedo (em 1970), por onde começaremos, e que justifica duas formas diferentes de experimentar o teatro, entre a aura teatral focada no palco e a aura emergir de uma presença literal do performer no palco. Em paralelo e em subpartitura, negoceia-se o caminho necessário para uma revolução.

O CITAC sempre foi um grupo autogerido, um espaço onde se aprende a aprender com e através do teatro, e com isso se formam pessoas, artistas, espectadores, se faz comunidade e se ativa cultura. A característica que toma este grupo como paradigmático é essa comunidade ter como chave para a continuidade cada geração criar as condições para se formar uma nova geração. Um modelo de escola autogerido, portanto, que importa cuidar.

No rescaldo da crise académica de 1969, o argentino Juan Carlos Uviedo vem a Portugal encenar o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra / CITAC, explorando, entre outras, técnicas da vanguarda radical americana, com que também contactou. Encenam coletivamente Macbeth, o que se passa na tua cabeça?, uma bomba no ambiente cultural de então. Há provocadores e contestados, agressores e agredidos. O crítico Carlos Porto viu o espetáculo no Porto: achou falhado. Em Coimbra, antigos elementos do grupo organizam uma manifestação em desacordo. O espetáculo causa furor no Festival Internacional de Teatro Universitário de Parma.

A partir desta experiência, que levou ao posterior encerramento do CITAC, interroga-se o lugar deste grupo na experimentação teatral em Portugal até então. Entraremos pelo mais radical e polémico para procurar compreender a mecânica do gesto experimental como forma de declaração política no seio das artes e da vida. À conversa com Ricardo de Seiça Salgado, seguir-se-á a apresentação em sala do documentário Estado de Excepção CITAC 1956-1978, que conta a história deste grupo de teatro universitário e – através dela – a história do teatro.  O documentário reproduz a vida estudantil, a posição da mulher na sociedade, e a mudança de mentalidades.

 

 

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