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07 - 08 Maio
Josefa Pereira

Hidebehind

Preço cada peça 7€ / Passe Bestiário PINK 18€
Dança
Bestiário PINK

07 - 08 Maio

sáb e dom 16h30

Passe disponível para os três espetáculos

Programa Bestiário PINK
sex 6 mai 19h30
Calor

sáb 7 e dom 8 mai
16h30 Hidebehind
18h Glimpse
19h30 Calor

Dança
Bestiário PINK
Preço Preço único para cada peça 7€
Passe Bestiário PINK 18€

Palco da Sala Principal
Duração 35min

Classificação Etária:

M/16

Conceção e performance Josefa Pereira
Desenho de luz Josefa Pereira com Aline Santini em colaboração com Vinny Jones e Luís Moreira
Operação técnica Luís Moreira
Assistência Daniel Lühman
Produção Carolina Goulart

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

A coreógrafa e performer brasileira Josefa Pereira orbita por curiosidades diversas, e não lineares, que se aproximam atraídas por interesses como monstruosidade e fabulação. A partir das perguntas “o que se faz”, “com o que se faz”, e o “como se faz”, surge um forte recurso à plasticidade como forma de engajamento entre coisas-matérias em que o gesto emerja enquanto ética que sustenta um dado acontecimento.

entre mundos, Bestiário PINK

 

“[…]

Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado sobre a meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos”

Ana Martins Marques, O livro das semelhanças

 

 

Uma folha dobrada em simetria mostra seu verso, mas dobrada em desconformidade mostra suas duas faces simultaneamente, compondo ainda uma terceira forma. Já não é mais esquerda ou direita, sul ou norte, frente ou verso. O que há daquele lado? Os ouvidos encontram a zona posterior do joelho, o cotovelo a resvalar na escápula, o umbigo a tocar o ânus. Não há ponto que não possa ser de contato quando o mundo se dobra e se deforma. Uma tríade forma um caos, não é isto ou aquilo. Uma tríade preenche um acorde, não é uma nota ou outra. Uma tríade não é x ou y, mas a dúvida e a hipótese sobreposta entre e/ou. Abrindo mão do sim e do não, realidades que correm paralelas e coexistem ainda em suas contrariedades – são todas as coisas em concomitância, são as suas combinatórias e infiltrações. Quiçá seja melhor ficar com a imagem da multiplicidade, incoerência e as abundantes vias da entropia e da desordem.

 

Bestiário PINK, uma obra em construção desacelerada ao longo de mais de seis anos, e nem por isso menos intensa e constante, é menos o envio ou o recebimento, e mais a própria mensagem em trânsito contínuo. A mensagem é aquela que percorre dois mundos distintos, não pertence a nenhum deles e parece que é assim o comportamento desse conjunto tripartite que vem sendo esboçado desde 2015 pela artista, coreógrafa e performer Josefa Pereira.

 

Como falar de uma mensagem, de uma obra, de um conjunto de obras, compondo 3 atos, a partir de uma estrutura linguística ainda binária como esta que se apresenta? Como implodir a relação do sujeito-objeto impregnada desde a gramática ao nosso entendimento de se estar no mundo e de nos separarmos entre aquilo que é o mundo? O mundo não seria mesmo todos nós? Todo mundo?

 

Assumir o erro, o paradoxo, o oxímoro e a coexistência das coisas. Isso não é um diálogo, é uma cacofonia, uma multidão de vozes, de imagens e de repertórios envolvidos na lâmina da síntese.

 

Ainda sobre essa plurivocalidade, cabe perceber que a constituição de Hidebehind, Glimpse e Calor é um processo de muita troca entre todos aqueles que percorreram e interlocucionaram com Pereira – sua obra não se faz sem suas parcerias afetivas que também são suas alianças estéticas e políticas. Ainda que concebido originalmente e performado como solo, está muito distintamente de o ser – Bestiário PINK vem acompanhado por sua rede de parentesco mundana, infra-mundana e supra-mundana, seres que estão nomeados na ficha técnica, os que não, e aqueles que sequer são nomináveis.

 

A artista parte de 3 eixos do corpo para criar procedimentos e experimentar as materialidades daquilo que é, veste, gesticula, ilumina, colore e atravessa. Cada uma das peças considera uma das secções de corte: sagital, frontal e transversal. Esses três modos de cesura são a condensação para se desvelar um volume. Mas em seguida, cada corte se trai: se de uma incisão se espera duas partes, é nos caminhos de Hidebehind, Glimpse e Calor que vemos sempre uma trinca surgir, um terceiro elemento que já não pode ser nenhum dos anteriores.

 

A investigação de Josefa Pereira é suscitada pela provocação da polissemia do rosa, seja choque e/ou pink, e o quanto as suas apropriações e reapropriações em diferentes culturas podem nos empurrar para distintas perguntas. Questionar-se sobre a história do rosa é questionar sobre estruturas de poder e de estigma. É também perguntar-se o porquê  a dimensão do gênero se faz presente tantas vezes, como se deu a apropriação pela indústria de massa, como foi utilizada para designar, e exterminar, grupos, e como, em movimento contrário, foi índice de poder e virilidade. Perguntar-se sobre a vida do rosa é dar-se conta dos processos de construção das identidades e dos corpos, é perguntar-se sobre a construção da figura do outro, e o porquê da necessidade do aniquilamento do outro e de seus modos de vida. Deglutir essas histórias e restituir ao mundo essa massa fermentada é dar a ver a monstruosidade das matérias e a monstruosidade construída historicamente para determinados grupos.

 

Os seres que habitam a trilogia atuam como mensageiros, atuam nos caminhos, criam conexões entre aquilo que entendemos como seres terrestres e aqueles cuja presença não é óbvia aos olhos e percepções humanas: figuras divinas, fabulares, extra terrenas.

 

Um mensageiro não apenas se desloca e transporta, ele necessariamente carrega. Mas o que ainda é um por vir, pode ser um segredo, pode ser a notícia do fim desses tempos, pode ser a história das origens e das criações ou a possibilidade de um futuro radicalmente distinto do que aguardamos.

 

As figuras construídas ao longo da trilogia são de caráter fugidio, fora do tempo e espaço humano, fazendo-se ambivalentes. Não necessitamos pronunciar seu nome para compreender que é quem guarda o lado de fora, protege os caminhos e se faz presente nas encruzilhadas.

 

É nesse caráter mensageiro e extraordinário que se preserva uma lógica da monstruosidade, transpassando os três momentos da trilogia. Derivado dos termos  monestrum e monstrum, a raiz da palavra monstro conserva seu parentesco com o verbo mostrar. Sendo assim, são seres que arquivam um presságio – previnem, indicam e advertem. Criam uma rede de intimidade entre o mostrar, o demonstrar, a premonição e o monumento. São seres de estranheza que apelam para o seu caráter de excepcionalidade, espanto e exibição. Longe de serem figuras puras e estáveis, são muitas vezes criaturas híbridas. As três, que percorrem os diferentes atos, são impuras, são nebulosas, são opacas, são mestiças, são de difícil classificação e apreensão. A primeira (Hidebehind) quebra a normatividade da projeção linear e progressiva, a segunda (Glimpse) elipsa o tempo e deforma a percepção sobre o estático e o movimento através da intercadência dos lampejos, enquanto a terceira (Calor) desgoverna-se pelo espaço sem eleger rota palpável e inverte a lógica do corpo ereto: jogam com a (in)visibilidade dos corpos no espaço cênico, modelado por alterações cromáticas e luminosas e suas consequências sobre as superfícies e materialidades das carnes.

 

A trilogia segue a estrutura de uma bolsa carregada, uma coleção de fragmentos, de referências, de metodologias, e que abre mão de um herói para dar espaço aos corpos estranhos. São corpos respigadores que não se acanham em dobrar-se para buscar um punhado de ficção e recolher aquilo que os demais se esqueceram. Como despedida, Calor faz o gesto de inclinar-se, de ser conteúdo e continente ao mesmo tempo, de ser criação e criatura amalgamados, corpos em simbiose, voltar a ser o mundo todo com a cabeça no chão.

 

 

 

entrada do verão de 2022, maura grimaldi (investigador)

O monstro que possui a fantástica habilidade de se esconder atrás dos mais finos troncos de árvores e, por isso, ninguém o pode ver é Hidebehind. Este assombra e mantém-se às costas daqueles que ousam caminhar nas florestas que habita, capturando-os. Em palco, com passadas insistentes, surge uma jornada em redemoinho e ao revés. Ao caminhar entre polos aparentemente opostos – frente e trás, começo e fim, facto e ficção –, a peça instaura uma coreografia circular potencialmente infinita, evocando uma força cíclica para tensionar e friccionar extremidades com vista ao seu desaparecimento.

 

 

Bestiário PINK é uma trilogia, jornada, arquipélago, ou nó, composta por três atos para um corpo anatomicamente dissecado em diferentes eixos. Através de Hidebehind (frente x costas), Glimpse (esquerda x direita), e Calor (cima x baixo), esta obra ficciona situações que propõem vislumbres à perceção, questionando polaridades: como vida/morte, norte/sul, humana/monstro (ou o outro), e conhecida/desconhecida podem ser dobradas, torcidas e invertidas de modo a pôr em vertigem cisões dicotómicas que definem a maneira como percebemos e agimos no mundo.

Hidebehind fez parte do programa de abertura do TBA em 2019, Glimpse teve a sua primeira versão no Festival Cumplicidades 2020 e Calor tem agora a sua estreia na sexta, dia 6. No fim de semana de 7 e 8, as tardes são dedicadas à versão completa de Bestiário PINK: as peças podem ser vistas em separado ou em conjunto, como um movimento contínuo e intermitente em três partes.

 

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