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14 Maio
Escuta Cruzada

Gustavo Costa e Lea Bertucci

12€
Música
Escuta Cruzada

14 Maio

sábado 19h30

Integra o ciclo Escuta Cruzada com Living With a Couple & Jerry the Cat & Lourenço Soares

Música
Escuta Cruzada
Preço Um só bilhete para dois concertos: 12€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 50 min. + 60 min.

Classificação Etária:

M/6

percussão e objetos Gustavo Costa
saxofone e gravadores de fita Lea Bertucci
coprodução Teatro do Bairro Alto, Sonoscopia

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

A proposta é relacionar diferentes narrativas na representação de dinossauros, a sistemas políticos e económicos. O mundo natural sempre foi usado para legitimar formas de organização social e a sua representação é inevitavelmente um espaço político. O que é especialmente interessante sobre a representação de dinossauros é o seu aspeto especulativo. Uma vez que o conhecimento paleontológico sobre fósseis é muito limitado, as representações dos dinossauros são altamente especulativas – até fantásticas. Como os fósseis são sobretudo ossos e pegadas, não há muita informação sobre outras características fisiológicas como pele, carne e partes moles do corpo. Mas principalmente, não há muita informação sobre o seu comportamento e formas de interação social. Embora algum conhecimento possa ser produzido por métodos científicos, grande parte pertence ao domínio da especulação: ficção científica em sentido estrito. O dinossauro é então uma figura plástica que vem acompanhando as evoluções dos mundos políticos e aparece em narrativas de poder, género, raça, livre mercado, extinção e obsolescência. Com esta raiz de pensamento, há uma proposta musical que se divide em capítulos e que traduz diferentes interpretações sonoras das narrativas exploradas.

Living with a Couple

 

It´s after the end of the world, don’t you know that yet?
Conheci a Lea nos primeiros dias de março de 2020. Eu estava a regressar de uma tour pelos Estados Unidos, e a Lea ia iniciar a sua digressão europeia com uma residência na Sonoscopia – um coletivo / associação de música experimental do qual faço parte no Porto. As suas expectativas para esta tour eram altas, e do meu primeiro contato com ela senti um foco, dedicação e energia profundas que emanavam dela e, consequentemente, da sua música. Nessa altura estávamos todos a viver as nossas vidas a 200km por hora – concertos, viagens, gravações, tudo ao mesmo tempo. Em Portugal não havia casos conhecidos do coronavirus, e até aí ouvíamos apenas relatos distantes de algo que estava a acontecer na China e que se estava a espalhar para Itália. Foi apenas uma questão de dias até tudo isto mudar. Um dos primeiros casos conhecidos em Portugal aconteceu na universidade onde trabalho, e a partir desse momento um vírus desconhecido estava muito próximo e tudo começou a desabar. Um concerto cancelado, dois, três, todos. Lembro-me de ir ao supermercado e de faltarem alguns produtos nas prateleiras. Confinamento, ruas desertas, sem aviões ou carros a sobrevoar. Estávamos depois do fim do mundo, como Sun Ra havia predito. Sentia-se um aroma apocalíptico nas ruas. Estava assustado e confuso, mas na minha cidade, perto da minha família e dos meus filhos. Mas a Lea ainda estava na Sonoscopia, com uma tour europeia cancelada, sem ligações aéreas e com um grande oceano a separá-la da sua família e da sua rede de segurança. Encontrávamo-nos quase todos os dias na Sonoscopia para tocar e tentar mantê-la confortável e segura, mesmo com todas as incertezas do que poderia vir a acontecer. Vamos todos morrer? Isto está mesmo a acontecer? Tudo parecia um sonho distópico.
Depois de alguns dias, a Lea conseguiu finalmente um voo para Nova Iorque. As máscaras, na altura, estavam reservadas para equipas médicas nas farmácias, e então improvisamos uma proteção a partir dos filtros de um aspirador, enquanto bebemos vinho do Porto e brindámos ao fim do mundo. Levei-a a Lisboa, e quase não vimos carros na autoestrada entre o Porto e Lisboa. Despedimo-nos à entrada do aeroporto, e ela tinha um lindo sorriso, já antecipando o regresso à segurança da sua casa. Na viagem de regresso, parei na auto estrada para meter gasóleo. Não havia carros, e só ouvia pássaros. Agora tudo era claro, o mundo não era o mesmo.
No dia seguinte acordei com a minha companheira, a minha gata e os meus filhos ao meu lado. Respirei fundo. Todo o meu trabalho dos próximos três meses tinha sido cancelado. Subitamente, toda a pressão dos prazos a cumprir tinha desaparecido, tudo parecia calmo e aquele sonho menos distópico.
Agora, passados dois anos de incerteza, as coisas começam a regressar à normalidade. Concertos, viagens, gravações, tudo ao mesmo tempo. Mas agora tudo é diferente, e a música que farei hoje com a Lea também o será.

Gustavo Costa

Escuta Cruzada

Escuta Cruzada é um novo lugar de curadoria partilhada do TBA que desafia coletivos, associações e outros organismos criadores a pensarem a programação musical como uma relação osmótica, de partilha, porosa e transversal. Para esta primeira edição, convidamos a Sonoscopia, associação, produtora e promotora de projetos artísticos e educacionais, e a Robalo, coletivo e editora independente ativa nas áreas do jazz e música improvisada, a ocuparem o TBA com duas propostas únicas na mesma noite.

 

Gustavo Costa e Lea Bertucci

Há sempre mais na música do que uma simples sucessão de notas. Todos os sons carregam uma história própria e a perceção que se tem deles nunca é a mesma. Através da memória invocamos a estética ou a política e pela sensibilidade ativamos as nossas respostas corporais que, a cada instante, transformam a nossa audição numa complexa rede de informação. Estar atento ao peso que cada som carrega em si produz um elevado sentido de responsabilidade no ouvinte e no emissor. Atribuir um significado a tudo o que ouvimos é simplesmente impossível dentro dos limites humanos. Então, porque não apagar, mesmo que temporariamente, a nossa memória? Deixar os nossos sentidos tomarem o controlo, flutuando numa camada etérea que viaja invisivelmente pela vibração do ar até aos nossos ouvidos. A mesma camada que liga o emissor ao recetor, num ciclo que alimenta uma partilha comunal da escuta. Emocionalmente eletrificados e ligados pelas ondas sonoras, apagamos o passado e o significado das coisas. Nesta noite, Gustavo Costa, elemento central da Sonoscopia, e Lea Bertucci, compositora e investigadora sonora norte-americana, guiam-nos por uma experiência coletiva de escuta.

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