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19 - 21 Novembro
Sorour Darabi

Farci.e

Performance
TBA no Lux

Género, linguagem e política

Três perguntas a Sorour Darabi

Raquel Lima – Em Farci.e trabalhas sobre a linguagem, a identidade de género e a sexualidade, mas de forma muito específica. Não te concentras apenas na informação biológica, mas também no género como construção social. Mas depois há uma terceira camada sobre a linguagem e o género das palavras e dos objetos. O que é que significa falar sobre identidade e género numa língua que atribui géneros às palavras? Como é que o teu corpo responde a isto em palco?

Sorour Darabi – Esta peça foi criada em França, e o francês usa o género de um modo diferente [quando comparado com o farsi]. Eu estava a tentar desconstruir a linguagem que está sempre a tentar colocar-te numa norma, de alguma maneira. A linguagem é muito importante, é a forma como olhamos para as coisas, a forma como pensamos sobre as coisas. Antes das palavras não sabemos a extensão do que somos capazes de pensar. Para mim a linguagem é como uma lei. Permite-te ser isto ou aquilo e o entre não existe, porque as pessoas não podem pensar sobre isso ou não podem falar sobre isso, e não podem sequer aceitar visualmente alguma coisa intermédia. É também por isso que a linguagem está ausente desta peça. É uma espécie de conferência, mas não há educação, não há palavras, não há lei. Às vezes tens de ouvir. Às vezes tens simplesmente de ver as coisas que não te educaram para ver ou para levares a sério. Há muitos pormenores mínimos que não se discutem ou não se questionam porque estão neste silêncio. E nunca podes dizer “Porquê?”, porque não existe. É também por isso que eu decidi não usar palavras e dar mais importância a esta comunicação não-verbal.

Em Farci.e estás numa posição de poder. Há uma mesa. Há uma expectativa. Finalmente há uma disrupção e acabas por comer os papéis. O que é que esse gesto significa para ti?

Andava a pensar bastante sobre coisas que têm a ver com o interior e o exterior. Sexualmente, de forma mais psicológica, ou sobre o espaço – dentro e fora de um espaço – e todas estas coisas relacionadas com o corpo: os limites que podia ter e a fronteira que constrói para as outras pessoas.
Toda a gente é afetada pelo que se passa fora de nós e estamos sempre a tentar encontrar um equilíbrio entre o interior e o exterior. Em dança a ligação ao teu corpo é muito forte, encontrar o equilíbrio entre o dentro e o fora, em relação com estas duas camadas. Para mim o papel podia significar o discurso, algo que é super didático e super educativo, relacionado com o género e com diferentes discursos teóricos, que se torna algo que eu desconstruo. Para mim, essa relação com o discurso académico não era muito simpática, na vida real, enquanto pessoa que está diretamente envolvida com todas estas questões. E vê-se como é difícil. É só blá-blá sobre: “esta palavra não, não é bonita. Temos de usar outra palavra. É simplesmente tipo mais respeitosa, sabes”… Ok, então é sempre apenas sobre trocar uma palavra por outra mais respeitosa. Mas as questões estão sempre lá, não estás a mudar nada sobre isso. Acho que a relação com este texto e acabar por comê-lo também está ligada a isso.

Numa entrevista para MA CULTURE, disseste que te sentes uma pessoa mais política em França do que no Irão. Sentes isso hoje? Quais são os limites ou possibilidades de ser ou não ser político, ao fazer o teu trabalho?

No Irão eu estava a começar o meu trabalho. Não era realmente conhecido, mesmo na cena alternativa, mas em França, sou super visível no sistema. Consideram-me uma pessoa de cor de cultura muçulmana. Referem constantemente essa identidade muçulmana porque sou do Irão. Todas estas camadas fazem-me sentir uma pessoa mais política. Quando era estudante, os meus colegas costumavam perguntar-me: “Porque é que estás sempre a escolher fazer coisas muito políticas?” Porque às vezes basta o meu corpo em palco para ser político para as pessoas, porque não estão habituadas a ver esta presença, este corpo. Portanto percebi que estas camadas de politização com o meu corpo estão fora do meu controlo, estão no olhar das pessoas que me veem.

Excerto de uma conversa entre Raquel Lima e Sorour Darabi a 1 de outubro de 2020. Vejam o vídeo completo no site do Alkantara.

O meu coração é uma montanha de mágua

Sorour Darabi

 

O meu coração é uma montanha de mágoa

O meu coração é o labirinto das estradas que sonham com flores de hortelã à chuva.

 

قلب من دل من

دل من کوه غم

دل من پیج وخم جاده های بارون زده ی سراب پونه است.

Poema de Sorour por volta dos 8 anos.

 

Sou um-a bailarino-a autodidacta iraniano-a que nasceu e cresceu em Shiraz até aos 23 anos.

Shiraz é uma cidade no Sul do Irão. Uma cidade muito conhecida pelo cheiro das suas flores de laranjeira e pelos seus poemas.

A minha prática começa sem dúvida com a poesia, com 5-6 anos, quando disse o meu primeiro poema, oralmente, visto que ainda não sabia escrever.

O primeiro poema escrito data dos meus 8 anos ou de um pouco mais tarde.

É tão belo e misterioso que ainda o acho muito impressionante. Também escrevia contos. Essas práticas nunca me foram ensinadas. Revelaram-se-me e tornaram-se práticas através das quais construí a minha ligação emocional com o mundo.

Sou virgem e tenho a lua em caranguejo, ui.

A minha relação com o que me rodeia passa pelo corpo. Olho para o meu corpo para olhar para os outros, toco em mim para tocar nos outros, cheiro-me para cheirar os outros, ouço-me para ouvir os outros. Adoro olhar para a Lua. Desde pequeno-a que o faço durante muito tempo e com muita atenção. Desde a minha infância que peço sempre um desejo em noites de Lua cheia.

A minha prática de dança está muito ligada às minhas experiências emocionais e corporais de todos os dias. Imagino, e depois experimento as imagens. As imagens criam uma situação particular através das emoções que suscitam e que alteram o estado do meu corpo. Confio na intuição. Tem um papel fundamental, uma vez que cria e muda a cada vez os contextos como quer. Nunca aprendi a dançar, danço, sou a dança e acredito nisso profundamente. A minha dança é gratuita. Como o amor que cultivo em mim por pessoas que aprecio e por pessoas que ainda não conheço.

Detesto o ensino. Detesto as técnicas de dança que foram criadas e são ensinadas como a única maneira de transmitir os saberes do corpo. O seu sistema baseia-se na exploração como princípio de partilha. Transmitir a quem? Como? E porquê? A transmissão em dança tem sido muitas vezes feita por pessoas brancas burguesas, da Europa e dos Estados Unidos, a pessoas como elas. O objectivo é conservar uma herança cultural, mas o indivíduo é esquecido, as suas diferenças, as suas forças, as suas vulnerabilidades, tudo é posto de parte para moldar uma grande maioria de pessoas consideradas portadoras de uma cultura pura, que decorre do génio. É por isso que a dança é despolitizada, ainda que o corpo seja uma das coisas mais políticas do mundo.

Sempre que crio um projecto, crio a técnica, ou pelo menos tento. Sei que nem sempre sou eficaz no que faço, mas também não quero ser. “Sucesso” é também uma palavra que detesto. Quando me dizem “fazes imensas turnés, és um sucesso”, tenho vontade de morrer. Detesto as pessoas que falam do meu trabalho como se falassem com a Apple dos seus novos produtos.

Os formatos dos festivais exigem sempre uma duração e um desenvolvimento muito fixos, sem o menor risco, e numa lógica que obedece sempre à equação duração/preço/meios técnicos para programar tal ou tal projecto. Isso cria uma relação superconvencional no seio do trabalho artístico, e esses constrangimentos foram tão banalizados que já nem sequer é possível questioná-los.

Sinto há algum tempo uma pressão para criar uma peça de grupo. Para um-a artista começar a ser considerado-a enquanto coreógrafo-a, exige-se que a pessoa deixe de criar solos. De há uns tempos para cá, essa pressão passou a ser formulada como a questão política da partilha. Compreendo que a partilha seja importante, mas não consigo compreendê-la num sistema que gera essa pressão capitalista. Crio solos porque me é necessário criar uma partilha com os meus-inhas aliados-as num dado momento. É preciso abandonar a ideia de que estar sozinho-a num palco significa ter criado o projecto sozinho-a. Se não considerarmos o-a dramaturgo-a, o-a criador-a de luz, da cenografia, como iguais do-a “artista”, não será simplesmente porque as relações hierárquicas nos interessam?

Não foi assim há tanto tempo que me dei conta de que sou underground! As pessoas em França acham que não o sou, porque apresento em lugares públicos e tenho apoios institucionais. Creio que enquanto estiver a negociar os limites da minha visibilidade, da minha identidade, do meu corpo, da minha aparência física, das minhas perguntas incómodas, etc., continuarei a ser underground.

Em espaços que considero safe – muitas vezes bares queer ou pequenas comunidades não-mistas, seja sem homens cis heterossexuais, seja sem pessoas brancas – aquilo que partilho e a maneira como partilho nunca é igual. Por exemplo, não me sinto de modo nenhum seguro-a se estiver nu no palco de uma instituição pública.

Trabalho muito em torno da vulnerabilidade, como lugar de partilha na minha vida quotidiana e no meu trabalho. Muitas vezes, não consigo distinguir a minha vida, os meus pensamentos, as minhas emoções e as minhas experiências quotidianas do meu trabalho. Creio que o lugar onde a vulnerabilidade convoca a criação de formas de partilha nasce daí. E torna-se assim fundamental.

Parece-me que a vulnerabilidade, distinta da fragilidade, é um trabalho político muito importante. A vulnerabilidade é um posicionamento político dentro de uma construção capitalista e patriarcal em que é suposto estarmos todos-as à altura das ambições materiais da maioria das pessoas que decidem, que detêm capital e que o gastam. Ser vulnerável é uma maneira de viver a precariedade. Ter uma força e um poder constantes para agir de modo a desestabilizar o poder. Vulneráveis são aqueles-as que não definem as suas vidas através de uma relação banal de poder e submissão, mas que cultivam uma relação de “coexistência” com o que as rodeia. Dar lugar à vulnerabilidade em espaços públicos permitiria perceber como olhar, como receber, como ser testemunha da vulnerabilidade, própria e alheia.

Nas minhas práticas sou muito obcecado-a com o meu corpo, não consigo distinguir o que na minha transição hormonal resulta de uma decisão pessoal ou de uma pesquisa artística. Tive períodos muito intensivos de masturbação durante a criação de Farci.e e também de Savusun. Masturbações que duram muito tempo levam-me a lugares superdistantes. Distantes do que é a realidade do meu corpo material na sua construção social.

O meu corpo tornou-se muitas coisas diferentes. Uma cadela, uma árvore, uma rocha isolada numa floresta algures, cintilações ardentes e brilhantes perdidas no cosmos. Muitas vezes me perdi e muitas vezes me reencontrei longe do meu corpo.

Sou lunar. A Lua é o meu ídolo, e tudo aquilo que a reflecte é um-a aliado-a!

No futuro, quero apagar os limites entre o que partilho nos meios underground e em espaços institucionais. Será possível transformar as normas institucionais, como sejam os desafios ligados à acessibilidade de um trabalho?

Por que razão é aceitável criar peças destinadas a jovens adultos-as e não o é criar peças para públicos não-mistos (quanto a género ou raça)? As minhas peças são como manifestações, como debates políticos, portanto é importante ser capaz de pôr em prática esse tipo de política para deslocar os limites e desestabilizar as relações de poder. Diga-se o que se disser: quando começa o espectáculo, começa o jogo. É por isso que não sou depressivo-a em cena, porque posso dizer às pessoas racistas que as detesto sem que elas me dêem porrada. Posso falar da minha identidade trans não-binária, vestir-me como quiser sem medo que me agridam ou me chamem “paneleiro de merda”.

É também em consequência deste género de convenções que a maioria dos-as espectadores-as na Europa são pessoas brancas burguesas, e é por isso que os-as artistas negros-as e racializados-as não têm lugar neste tipo de espaços, uma vez que as questões que colocam não despertam interesse. Infelizmente, na melhor das hipóteses, o interesse constrói-se e limita-se ao “exotismo”. E, francamente, ser exótico-a é a coisa mais fácil de vender neste meio.

Sou virgem e tenho a lua em caranguejo, ui! Isso diz tudo! Sou uma pessoa superemocional e muito melancólica. Não queria usar a palavra queer para designar as minhas práticas de desconstrução e reconstrução. Porque essa palavra é despolitizada quando se inscreve numa esfera “fashion”, deixando-se reapropriar pelo fenómeno. Eu sou queer, mas não é por ser trans não-binário-a ou uma pessoa non conforming segundo a construção social, ou uma pessoa com uma certa masculinidade que usa batom e verniz nas unhas – ainda que essas atitudes acarretem muitas vezes o risco de agressões verbais, físicas e até mesmo a pena de morte. O meu-inha queerness não se manifesta em lantejoulas e cores vivas do arco-íris, ou unhas longas pintadas de sei-lá-o-quê. O-a queerness não é uma forma artística particular, é um estilo de vida e uma filosofia, um questionamento constante sobre as minhas relações e as minhas ligações com tudo que me rodeia. É o meu modo de partilha, económico, emocional, corporal, cósmico, sexual, material ou imaterial, através do meu corpo ou do meu coração.

 

Texto traduzido do francês por Joana Frazão. Publicado originalmente na edição #1 do jornal Coreia em setembro de 2019.

Sorour Darabi é artista autodidata do Irão. Vive e trabalha entre Paris e Berlim. Antes de se mudar para França, Darabi era ativista e membro da associação ICCD, que organiza o Untimely Festival em Teerão, onde atuou várias vezes. Em 2016, na sequência dos seus estudos em Coreografia no Centro Coreográfico Nacional de Montpelier, Darabi cria Farci.e. Em 2018 cria Savušun, que se inspira nas cerimónias de luto de Muharram, relacionando-se com a dor, o medo e o sofrimento. A sua próxima criação, Mowgli, é coproduzida pelo Alkantara e estreará no Tanzquartier (Viena) em dezembro. A produção dos seus projetos é assumida pela Météores.

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