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28 - 30 Outubro
Sofia Dias & Vítor Roriz

Escala

Dança
Infiltração

28 - 30 Outubro

28 a 30 outubro
quinta a sábado 19h30

Dança
Infiltração
Preço 12€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 60 min aprox

Classificação Etária:

M/6

Direção artística Sofia Dias & Vítor Roriz
Interpretação Alice Bachy, Bruno Brandolino, Luís Guerra, Natacha Campos, Sofia Dias e Vítor Roriz
Desenho de luz Nuno Borda de Água
Objeto cenográfico Gonçalo Barreiros
Figurinos e Assistência artística Filipe Pereira
Som Sofia Dias
Administração e produção Vítor Alves Brotas | Agência 25
Coprodução Teatro do Bairro Alto, A Oficina
Apoio República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes
Apoio em residência Estúdios Vítor Córdon, Forum Dança, Espaço Alkantara, Pro.Dança
Agradecimentos Johan Volmar (que integrou parte do processo criativo), Catarina Dias

 

Fotos S&V e Joana Linda

Condições de acesso
• À entrada do Teatro, será medida a temperatura sem registo, enquanto a medida for recomendada pelas autoridades de saúde.
• Tanto no TBA como no c.e.m., é obrigatório o uso de máscara dentro do edifício antes, durante e depois das sessões.
• Desinfete as mãos e adote as medidas de etiqueta respiratória.
• Mantenha uma distância de segurança de 2 metros e evite o aglomerar de pessoas.
• Traga o seu bilhete de casa ou, caso tenha mesmo de comprar o bilhete na bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
• Coloque as máscaras e outros equipamentos de proteção descartáveis nos caixotes de lixo indicados.
• Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.
• Devido às indicações da Direção-Geral de Saúde, não é possível entrar na sala após o início da sessão ou alterar o seu lugar após indicação do mesmo pela Frente de Sala.

Glossário no dia da estreia

 

Grupo

No palco não está só um grupo, não pertence só a um tempo. É transversal a uma ideia de humanidade: desde os grupos tribais até aos grupos de hoje, o que é que nos faz estar juntos, quais são os nossos rituais coletivos? Estes corpos de agora ligam-se a uma ancestralidade que carregamos e que ainda não nos largou.
Este grupo é indissociável das pessoas concretas e da experiência coletiva que tivemos. Expressa uma necessidade de estarmos juntos, como muitas das peças que têm surgido neste período. Uma necessidade de toque, de relação, de olhar, de respirar ao mesmo tempo, de infringir algumas limitações provocadas pela pandemia. É interessante como a simplicidade passou a ser transgressiva.
Isso durante o processo não foi algo imediato, foi sendo conquistado. A dramaturgia da peça também tem isso: não há muito toque no início, ela reflete o próprio processo de criação.

 

 

Estados

Este grupo permite-nos contactar com aspetos simples da dança: o estar juntos, o ritualismo, a celebração e também uma transformação que é feita em conjunto. É por estarmos em conjunto que chegamos a determinados estados físicos, sonoros ou vocais. Há harmonias que só se conseguem com várias camadas. Vamos a uma discoteca para estar com outras pessoas a dançar, e é essa energia coletiva que faz com que haja um êxtase ou um estado alterado de consciência que dificilmente conseguiríamos alcançar individualmente. Nós estamos sempre à procura desses estados semi-alterados quando estamos em cena: a perceção do espaço e do tempo é diferenciadora do quotidiano.

 

Padrões

Nós criamos padrões, somos também partículas. É quase gráfico: células musicais, um loop que se repete. Os padrões só são conseguidos com diferentes elementos. Como se os corpos no espaço fossem também partitura. Estamos sempre num vai-e-vem entre um corpo abstrato, que pode refletir esta ideia de padrões ou células musicais, e um corpo que é humano e ligado a outros, aquilo que carregamos enquanto pessoas e seres sociais. Essa tensão interessa-nos.

 

Vocabulário

Depois de onze ou doze anos de trabalho em conjunto, há padrões na forma como nos relacionamos com o movimento, com a voz, com o texto. Isso constitui-se como uma espécie de linguagem (apesar de o dizermos com alguma relutância). Esse é normalmente o nosso ponto de partida, é difícil sairmos de nós próprios. Por um lado temos essas ferramentas, por outro tentamos divergir. Mas há uma base que é partilhável: tem a ver com questões formais como lidar com o tempo no corpo (o desfasamento e a sincronia, as simultaneidades), mas também com questões sensíveis como estados de presença, a maior ou menor distância do material (olhando-o de fora ou incorporando-o), a dissociação entre estar a pensar numa coisa e a fazer outra, a forma como uma ideia na cabeça influencia o estado físico… Fizemos coisas assim o ano passado nos Dispositivos no TBA, e esta peça vem na sequência desses materiais. Isso cria uma presença diferente: uma oscilação constante entre estar submerso no que se está a fazer e um distanciamento crítico. Em teatro poderia falar-se de uma atitude mais brechtiana.

 

Liberdade e abstração

Como somos um grupo muito diverso, privilegiámos cada pessoa poder manter o seu imaginário em potência. Podemos estar todos a pensar mais ou menos na mesma coisa, mas que cada um o faça à sua maneira. Quisemos dar espaço para essa individualidade. Perdes o controlo do modo como a coisa sai mas sabes de onde ela vem: confias no imaginário daquela pessoa.
Quanto ao público, queremos sempre deixar-lhe espaço para preencher as transições, as brechas, os intervalos. Esperamos que esta peça também permita essa liberdade, até porque é muito mais abstrata do que as outras. Como não tem texto, dá menos pistas sobre o que poderia ser. Há uma relação mais intuitiva. É possível que dê mais trabalho ao público, mas por outro lado remete para algo que todos temos: um instinto provocado pela música, o som e o movimento. É sempre difícil para nós percebermos quando é que estamos a dar demasiado ou não, qual é o espaço de familiaridade ou de estranheza. Mas há na abstração qualquer coisa de muito relevante no momento em que vivemos: há uma necessidade comunicativa, quase ativista, uma exigência aos artistas de que abordem temas socialmente relevantes de uma forma declarada. E há nisso qualquer coisa que nos faz divergir e nos leva para a abstração, o que depois dá a volta e nos leva para conceitos tão simples como liberdade, democracia ou comunidade.

 

A voz e o corpo

A voz é quase a parte do corpo que se torna imaterial, que comunica com algo que não é palpável mas é sentido. Como se houvesse uma continuidade entre o material e o imaterial. A voz sai do corpo e transforma o corpo. É um ciclo, um circuito. Coletivamente, este outro corpo que está ali a pairar, o corpo das vozes, tem um efeito sobre o estado físico e sobre a voz que vem a seguir. A peça progride em torno desse circuito. Há tons ou volumes que não saem se o corpo não tiver atravessado todo um percurso. Voz e corpo estão sempre em vibração um com o outro. Às vezes ensaiamos só a parte sonora da peça, muito limpa e harmónica. Mas quando o corpo está envolvido, há algo que escapa do controlo, imprime uma falha que é a falha do humano. Há um estado intermédio: as vozes têm uma textura, o corpo tem uma qualidade, mas este ponto de contacto cria fragilidades, pequenas vibrações e imperfeições. O que é interessante para nós. Somos sempre relembrados da nossa fragilidade, uma falência em potência, e a voz expõe muito isso. Temos tendência para nos pormos em situações desconfortáveis, para que o material não se torne uma demonstração de virtuosismo. Aqui nem a voz nem o corpo adquirem esse virtuosismo, mantêm uma tensão e uma comunicação que trazem qualquer coisa à presença, à performance e eventualmente ao observador.

 

Composição

Fazemos muitos gráficos de intensidades. São linhas que sobem e que descem. Como não sabemos notação musical ou coreográfica, é tudo através do desenho, para podermos registar e transmitir. O material foi improvisado e depois passado para estas linhas para o podermos refazer.
Uma coisa que está na sinopse da peça e já não corresponde à realidade é o facto de estarmos de fora, aquelas cisões do intérprete-autor. Todo o processo de composição foi a partir de dentro. Uma vez entrando é muito difícil distanciarmo-nos. E esta peça, como todas as nossas peças, tem isso. O olhar exterior é muito deficitário. As coisas sucedem-se a partir de estados internos e não de uma decisão externa sobre o que tem de vir a seguir. Não era essa a intenção inicial.

Bidão

Gostamos muito de trabalhar com o Gonçalo Barreiros e a Catarina Dias, são pessoas que estão connosco há muito tempo. Ele desafia a matéria de uma forma que dialoga com a maneira como lidamos com o corpo e a voz. Sempre com humor, com ironia, há algo de desconcertante nas peças dele (o seu trabalho pode ser visto agora numa exposição na Culturgest).
A primeira peça que lhe pedimos acabámos por não usar, são umas linhas que anulam ou rasuram o discurso. Parece uma carta em que as palavras ou frases foram apagadas, o que cria um padrão também. Isso estabelecia um paralelo com a peça que estávamos a criar. Mas depois abandonámos as linhas e propusemos-lhe a peça do bidão: por causa do espaço circular, pela ideia de ressonância e pela transformação progressiva de material, que é uma coisa que se vê no vídeo Escala Reduzida, que fizemos com a Joana Linda. Chegámos a pensar em tê-lo em cena a fazer esse aperto progressivo da peça, mas era muito caótico, impunha-se demasiado. O bidão acabou por ter ressonância com uma cena do filme Barba-Ruiva de Kurosawa, com os gritos a chamarem pelo nome da criança para ela poder voltar. O poço é uma coisa arquetípica da nossa existência em comunidade, a ligação com o submundo, etc. O espaço foi concebido tendo em conta esse objeto. E a a forma circular foi também influenciada pela Escala Reduzida: a ideia de rodear, de uma visão a 360º.

 

A partir de uma conversa com Sofia Dias & Vítor Roriz
28 outubro de 2021

“Todas as nossas ideias de agora parecem-nos do passado, mas o que se passa hoje é demasiado avassalador para que alguma ideia nova o consiga capturar. O que podemos fazer é, através do embate das ideias antigas com o mundo de hoje, tentar vislumbrar uma pista, um indício que nos faça divergir por reação – o que é manifestamente insuficiente. Mas à falta de melhor, por hábito ou necessidade, por teimosia ou insatisfação, por prazer ou melancolia, por não sabermos estar parados ou porque nos parece indecoroso parar, decidimos avançar com este projeto feito de ideias antigas. A ver se em algum momento somos surpreendidos com a inevitabilidade de uma ideia mais adequada a este tempo.”

S&V

 

Escala é uma peça que encerra o projeto Infiltração de Sofia Dias e Vítor Roriz no TBA (e que passou no último confinamento pelo work in progress digital Escala Reduzida). Pretende abranger a ideia de corpo coletivo/social que tem permanecido à margem do trabalho predominantemente em dueto desta dupla. Uma mudança de perspetiva que permite aprofundar lógicas de composição, tomar decisões que escapam aos processos internos do intérprete-autor e expandir para outros corpos aquilo a que relutantemente chamam vocabulário.

 

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