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09 Junho

Desire Marea

12€
Música

09 Junho

quinta 19h30

Música
Preço 12€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 60 min.

Classificação Etária:

M/6

criação Desire Marea

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Se voltas, levas (1 livro)
Na compra de bilhetes para 2 espetáculos distintos do TBA recebam o livro do projeto Primeiro Rascunho. Mais informações em tba.bol.pt e com a nossa Bilheteira.
primeirorascunho.teatrodobairroalto.pt 

Di Candido aka DIDI, corpe afrocúir em trânsito por Brasil, Reino Unido e Portugal, que trabalha, persiste e resiste por meio da investigação, produção cultural e performance como DJ, cantore e artista visual/multidisciplinar.

Idealizadore da unidade criativa em forma de festa Bee. The United Kingdom of Beeshas nas Damas em Lisboa movimenta-se em conexão com coletivos, artistas e fazedores de toda a diáspora em projetos culturais e indústria criativa, na produção e atuação direta com Afropunk, Batekoo, Bloco Colombina Clandestina, Baile Brabo, Afrontos@s, BlackPride Uk, Pumpdabeat, dentre outres.

Seu percurso  conversa com temas relacionades à (re) territorialização coletiva, identidades, ativismo e performance antirracista, na produção cultural e artística queer, negres e imigrante de artístas em diáspora.

Em seu trabalho, DIDI conecta-se aos mais variados ritmos e manifestações artísticas afrodiaspóricas, por meio de expressões sonoras e de movimento, do baile funk ao house, do r&b 90/00 ao afrobeat.

Entrevista Desire Marea por DIDI

DIDI: Quem é DESIRE, além do contexto de definições pré-formatadas de um press release?

DESIRE: É um simples ser humano, que atua na música, é tio, vive em Amandawe, África do Sul, ama correr, meditar e seguir com suas práticas de cura, “healing process”, na busca de bem-estar espiritual, de encontro ao seu eu interior, além de fazer música.

 

DIDI: Por falar em “fazer música”, como foi o despertar do seu processo em criar música, conectando-se com seus “desejos” e tudo mais?

DESIRE: Música é uma coisa tão linda. Música demanda que haja um mergulho no que propriamente é música, que resultará naquilo que as ondas sonoras da música deseja por si, pelo resultado que ela almeja. É por isto que eu preciso me tornar DESIRE, para pertencer à música. É preciso isto. E eu aprecio a música por causa disto. É preciso superar muitos medos para deixar que a música seja o que ela deve ser. E chegar ao palco e estar à frente das pessoas foi algo que eu nunca pensei, mas a música exige que eu esteja ali. É tão lindo e o processo de cura no palco me faz bem. E esta realização ultrapassa todo medo.

 

DIDI: Quando falamos sobre sua música e suas influências, nós podemos dizer que o som segue acompanhado da imagem, refletindo a sua atuação como artista e performer. Pode-se dizer que os processos sonoros e visuais são pensados sempre em sintonia?

DESIRE: Sim, claro. A música é um filme. A música pode ser uma banda sonora para alguma coisa. E por isto que o som traz um lado visual para mim. O vídeo é responsável por estabelecer o contexto em que a música se propõe. O vídeo nos possibilita ver a música na vida real. Neste aspeto, a imagem é tão importante na mensagem, refletindo a cultura. É preciso ver coisas para ter acesso à música e sobre tudo que o som pode abordar.

 

DIDI: E o que tens visto e tomado como influência no seu trabalho nos últimos tempos, como inspiração?

DESIRE: Eu tenho trabalhado em novas músicas e em um novo projeto, sendo a minha inspiração principal a minha jornada de cura, com influência de African Spiritual Music, que tem sido de grande valia para minha experiência espiritual e de composição. Além de muita influência de South African Jazz. Visualmente, eu tenho estudado músicos negres dos anos 1960 e ainda, em especial, Black Rock Stars. O “Rock Star” não vem com um sentido típico entendido por grande parte das pessoas, mas no contexto da mensagem, como Miles Davis, James Brown, Fela Kuti, Alice Coltrane, Brenda Fassie. São muitos artistas que contribuíram para que tenhamos uma perspectiva do que significa “black excellence”, sendo uma referência super importante para nós, artistas negres.

 

DIDI: Achas que nos últimos tempos, existe uma certa obrigação e obsessão direta para que artistas negres sejam “excellent” na performance do conceito de “black excellence” ?

DESIRE: SIM! Absolutamente, SIM! É por isto que eu odeio o conceito de “black exceptionalism”, de modo que ser a “exceção” é tudo que importa. A música torna-se excelente a partir da convicção e daquilo que ela te faz sentir, o que traz todo o fundamento para a experiência musical e artística. A técnica que qualifica ou determina o que é excelente ou não, de fato não tem qualquer importância, mas sim no sentido da obra, o que o som e a imagem movem.

 

DIDI: A partir desta ideia de “excelência”, vivemos também, nos últimos tempos, o acordar das instituições culturais em abrir espaços para falarmos sobre as nossas identidades, mas que preservam o estigma da necessidade de uma certa excelência e adequação. Diante deste comportamento, como é a sua experiência em dialogar com estes espaços, na apresentação de suas obras, que também traz forte influência clubbing em locais que não são comuns para corpas negres e queer?

DESIRE: “This is a tricky one.” As instituições artísticas são um assunto delicado, problemático. Pois eu não acredito que seja “politicamente correto” o engajamento de certas instituições. Como uma pessoa negra, eu sinto que, às vezes, eu vejo que há uma obrigação de que tudo e toda parte do meu trabalho ou do trabalho de qualquer artista negre e queer, seja um statement. E com base em todo trabalho que possa vir a trazer um statement ou não, há um valor agregado que tem sido capitalizado pelo mundo do consumo, que muda de acordo com os contextos. Pessoalmente, eu acredito que eu não tenho o alcance sobre esta necessidade de consistência nas práticas e mensagens. Pelo que eu entendo, como pessoa negre, queer e africane, ainda estamos navegando na ideia de estar em África, em todas as suas condições do verbo estar, que superam as proporções principais, em ter uma voz e ocupar espaços e falar sem desculpas, sem remorsos. Talvez as futuras gerações possam ter o privilégio de fazer um statement com base naquilo que elas possam realmente ver, com valores para promoção de mudanças.

 

DIDI: Falando um pouco de vivência na cultura clubbing, DESIRE é clubber?

DESIRE: LOL. Eu não sou clubber, mas… meu clubbing background desapareceu. Quando eu era jovem, teen, eu frequentava clubes gays e outras coisas. Mas eu acredito que a era clubbing realmente mudou minha vida e eu acredito que talvez pode ter algo religioso sobre isso, algo de empoderamento, de liberação, de viver um bom momento, uma revolução que atravessa esta vivência. E o que muitas pessoas acreditam sobre Club Culture, eu visualizo uma cultura tão poderosa que é até difícil explicar esta força, onde há pessoas apenas vivendo e transcendendo, vindo a ser uma unidade de força, tudo é construído naquele espaço. Este ritual só acontece em um club, onde doamos nossa energia para que aquilo aconteça. Reconheço que é único o que a cultura fez por mim, ao mesmo tempo que parei de ir a clubes para seguir focando no meu processo de cura e de busca nos últimos 2, 3 anos. Mas costumava sair de vez em quando.

 

DIDI: Este período mencionado corresponde com o momento pandêmico. Como foi sua experiência neste processo, especialmente nos seus últimos dois projetos, que foram lançados neste período, tirando a possibilidade de celebrar essas duas obras de forma direta com o público e fazer tours?

DESIRE: Foi devastador. E é importante ressaltar o quão devastador foi a pandemia especialmente para músicos e artistas. Em um nível econômico e a saúde fundamental. De toda forma, eu acredito que as pessoas puderam experimentar um pouco de música, mesmo a pandêmia sendo trágica e traumática como foi, isso simboliza uma transformação que tivemos que lhe dar. E eu acredito que o trabalho criado neste período seja uma forma transicional de refletir este tempo também, de forma que a música vem como um impacto, entre o passado e o presente. Eu estou tentando promover essa conversa, esta forma de pensar neste momento.

 

DIDI: E sobre o trabalho que será apresentado no TBA e em toda a tour, podemos ver um pouco desta conversa?

DESIRE: Sim, sim. Será uma combinação de novos sons e coisas antigas, que refletem os últimos 3 anos. Não será nada explícito sobre a pandemia, mas sobre as mudanças que eu passei ao longo deste período, tudo que eu compreendi e aprendi, de modo que eu acredito que eu sou maior do que a música, tornando-me mais empoderade e com mais esperança e prazer.

 

DIDI: Eu acredito que as pessoas ficam intrigadas com todo o movimento sobre ser um corpa black queer, refletindo todos esses movimentos em brincar com a questão do gênero. Como é ser black queer em África, refletindo diferentes ideias de gênero, como consegues definir DESIRE?

DESIRE: Eu me defino a partir da minha língua e/ou linguagem. Eu cresci em um mundo cercado de outras línguas, mas eu acredito que, a partir da minha vivência, eu consigo definir-me a partir da minha própria linguagem, que traduz tudo que sou. Minha língua é minha herança. Esta é a minha política nestes dias, como uma pessoa negre queer em África, eu decidi usar a minha própria linguagem para dizer quem eu sou. Eu não acredito que outras línguas, especialmente línguas coloniais, tenham a capacidade de definir aquilo que sou. Eu passei muito tempo tentando me encontrar a partir da língua dos meus opressores, sendo que agora eu sinto que tudo faz sentido com base na minha experiência de encontro comigo. Eu, finalmente, encontrei-me.

 

DIDI: Estas muito ansiose para estar no palco e em tour novamente?

DESIRE: Eu estou muito entusiasmade e excitade em compartilhar tudo que tenho feito com minha banda desde 2020. Para partilhar música, como africanes, deve haver um senso de comunidade, onde tudo é feito em coletivo. Talvez possam me ver como “DESIRE THE STAR”, mas mesmo que eu esteja sozinhe no palco eu nunca vou estar só. Eu estarei com mais 5 pessoas, os nossos próprios ancestrais, na busca de um processo de cura e transmitir cuidado e cura para as pessoas. Eu espero que as pessoas tenham a experiência connosco. Eu quero também lembrar para outras pessoas negres o quão grande elas são. Nós somos grandes e bons por que somos. É importante trazer essa lembrança. Que a música esteja aberta para ser recebida. As pessoas negres precisam saber que elas vieram para receber uma experiência de riqueza sem precedentes. E elas terão.

“Marea pertence a uma nova geração de artistas independentes que abordam a voz, a musicalidade e a performance com todos os sentidos em mente. É essa vitalidade que permite que o Desejo fale tão fluentemente com a mente, o corpo e a alma.”

Pitchfork

 

Desire Marea, artista multidisciplinar que nasceu com o nome Buyani Duma, consolidou-se como uma força criativa a ser reconhecida depois de percorrer o mundo extensivamente com FAKA, um coletivo de performance queer sul-africano fundado com Fela Gucci com influências do gqom (género de música eletrónica baseado na junção do house com a síntese de ritmos tradicionais sul-africanos).

Desire embarcou nos últimos anos numa jornada sonora individual enraizada num processo de cura conduzido através de interseções entre o clubbing, harmonias que remetem à tradição do mbaqanga sul-africano e uma presença vocal operática na exploração multissensorial da natureza do divino.

Em Desire, disco de estreia de Desire, coeditado entre a Izimakade Records e a célebre Mute, Desire atinge uma intensidade resultante do impulso bruto das influências que carrega sem nunca comprometer o lado radioso desta nova música cheia de detalhes e subtilezas.

Com todos os seus esforços criativos, Desire deseja contribuir para a progressão da Black Queer Art. Num percurso iniciado nas artes performativas e música, conta ainda com incursões no mundo da moda, tendo colaborado com a Vogue, Versace, Serpentine Pavilion e New York Fashion Week.

 

Em Portugal, Desire Marea também se apresenta ao vivo, no Porto, em Serralves, no dia 7 de junho.

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