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26 - 27 Maio
Amanda Piña

Danza y Frontera

12€
Dança

26 - 27 Maio

quinta e sexta 19h30

Em espanhol e inglês com legendagem. Contrariamente ao que foi anunciado a legendagem deste espetáculo não estará adaptada para pessoas surdas.

Dança
Preço 12€
Menores de 25 anos: 5€

Sala Principal
Duração 70min

Classificação Etária:

M/6

Coreografia e direção artística Amanda Piña
Desenho de arte Michel JimenezCoreografia e transmissão Danza de Matamoros Rodrigo de la Torre CoronadoPesquisa Juan Carlos Palma Velasco e Amanda PiñaInterpretação Rodrigo de la Torre Coronado, Matteo Marziano Graziano, Daphna Horenczyk, Dafne del Carmen Moreno, Mariê Mazer, Juan Carlos Palma Velasco, Lina María Venegas, Carlos María Romero aka “Atabey Mamasita e Alexis MagañaDireção técnica Catalina FernandezPesquisa, teoria e dramaturgia Nicole HaitzingerMúsica e composição Christian MüllerPercussão ao vivo  Alexis MagañaFigurinos La mata del veinte / Julia TrybulaProdução nadaproductionsDifusão internacional Something GreatConsultoria sénior Marie-Christine Barrata DragonoGestão Angela Vadori/SmartCoprodução Endagered Human Movements Vol.4 Tanzquartier Wien, Kunstenfestivaldesarts, Kiasma – Museum of Contemporary Arts Finland e Asphalt Festival DüsseldorfApoio financeiro Departamento Municipal dos Assuntos Culturais de VienaApoios Ministério Mexicano dos Negócios Estrangeiros e Escuela Nacional de Danza Folklórica de Mexico – Instituto Nacional de Bellas Artes do México (INBA)

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Se voltas, levas (1 livro)
Na compra de bilhetes para 2 espetáculos distintos do TBA recebam o livro do projeto Primeiro Rascunho. Mais informações em tba.bol.pt e com a nossa Bilheteira.
primeirorascunho.teatrodobairroalto.pt 

Excerto de entrevista a Amanda Piña


Joachim Bem Yakoub
Através de todas as relações [artísticas] que tem construído, parece também estar a construir um importante arquivo. Então, de certo modo, o seu trabalho opõe-se a processos de extinção e de “epistemicídio” e aborda questões sobre como manter a memória viva.

Amanda Piña Sim, de facto, mas é também preciso ter em conta a noção de nostalgia imperial. As pessoas, especialmente no Ocidente, gostam de ver ruínas porque gostam de ver como aquilo que não representam está a desaparecer. Mas talvez não esteja realmente a desaparecer, mas a ressurgir ou a transitar ou a aparecer em lugares diferentes e estranhos. As danças com as quais estou a lidar agora estão a reaparecer num museu no México e talvez mais tarde num teatro de Viena. Mas onde quer que reapareçam não apagam a fonte. Não é um processo de apropriação, mas de reapropriação. É crucial honrar as fontes deste material. Mas, o que estamos a tentar fazer é um pouco diferente de “arquivar os movimentos ameaçados”. O movimento básico é difundir diferentes conceções de dança, movimento e mundo, com outros princípios, diferentes regras do jogo, para de alguma forma encarnar esse ressurgimento.

 

Leiam a entrevista integral em inglês aqui

“Esta obra é dedicada a todas as pessoas que se atrevem a atravessar fronteiras.”

Amanda Piña

 

Como artista mestiça que vive em Viena e na Cidade do México, sou confrontada com a forma como sou percecionada e identificada como latina, como migrante na Europa e de certa forma como local no Chile e no México (tenho ambas as nacionalidades). Essas identidades atribuídas nunca são totais ou puras. Como artista mulher, bailarina, sou percecionada na Europa como sendo morena enquanto no México sou entendida como uma güerita, pálida. As minhas identidades têm muitas camadas e são difíceis de incorporar totalmente em contextos em que se espera que alguém seja “uma” e não “muitas”. Nesse sentido, ser mais do que uma, ser múltipla, não serve às formas de representação que dependem da capacidade de representar e encarnar uma única perspetiva, como a capacidade de representar um Estado-nação, por exemplo. Ser apenas mexicano, austríaco ou chileno.

Tornar-se uma unidade, como uma construção ocidental da singularidade, que contrasta fortemente com as formas indígenas de identidades mais fluídas e processuais, apoia-se fortemente no conceito de fronteiras nacionais. Aqueles que são mais do que “um”, que estão em fluxo, vivem dentro e além de certas fronteiras construídas. “Um” é diferente, dependendo do lado da fronteira em que se está. “Um” é sempre contextual.

A necessidade de atravessar a fronteira é criada pela mera existência de uma fronteira; o impulso das pessoas para se deslocarem existia mesmo antes da fronteira. É assim que se confronta a tentativa de domesticar, disciplinar e normalizar o movimento humano. As figuras do “migrante” e da mestiza são definidas pelas políticas de migração ou anexação colonial. Como metáforas, estas duas figuras introduzem novos modelos de representação das subjetividades para além de uma lógica binária, propondo uma utopia de heterotopia. A celebração das múltiplas identidades encarnadas pelos sujeitos fronteiriços, para além dos essencialismos, encontra na “nova mestiça” (conceção da mestiça como sujeita fronteiriça) da autora Gloria Anzaldúa uma expressão que problematiza a ordem heteronormativa e patriarcal.

 

Danza de Matamoros

 

“Algo realmente de muito mau deve ter acontecido a estes homens para dançarem assim.”

Leonor Maldonado, cineasta e coreógrafa

 

Quando lhe perguntam acerca da estrutura coreográfica da dança e da sua natureza performativa, Rodrigo de la Torre, dançarino principal em Danza de El Ejido Veinte de Matamoros, serve-se frequentemente de jogos de computador como metáfora para explicar a forma como a dança deve ser interpretada: “No início de La Matraca (a sequência da metralhadora), é-se como um carro de corrida com o depósito cheio. Como num jogo de computador. Depois, durante a frase, usa-se esse combustível e, no fim da frase, o depósito está completamente vazio. É assim que se deve gerir a energia durante a dança: gasta-se a energia toda numa frase, acaba-se sempre morto, dá-se tudo. É por isso que caminhamos depois da frase – para voltar a encher o depósito. Após esvaziar e voltar a encher muitos depósitos, parecemos uns mariguanos sem ter fumado. A dança é como se fosse a nossa droga”.

“Metralhadora”, “depósito de gasolina vazio”, “acaba-se sempre morto” e “como uma droga” são as metáforas que Rodrigo usa para ensinar a dança. Têm raízes no léxico de uma dança que surge num contexto de fronteira onde a violência que resulta do tráfego de droga, a militarização da fronteira e a cultura mediática norte-americana estão presentes na vida quotidiana.

Esta dança não ocorre numa sala de espetáculos, mas antes nas ruas e nas praças e não é trabalho no sentido de uma atividade “profissional”. Poderia ser facilmente entendida como uma “forma de arte tradicional”. No entanto, categorias como “contemporâneo”, “moderno” e “tradicional” não conseguem descrever a sua complexidade.

No processo de comunicar esta dança, que é apenas praticada por homens da classe operária, emerge uma forma de aprendizagem que se encontra fora dos cânones da tradição e da modernidade/contemporaneidade da arte ocidental. Este fenómeno de crioulização pode desestabilizar distinções binárias que encontramos nas narrativas daquilo a que os académicos descoloniais chamam modernidade/colonialidade.

A representação de homens jovens da classe operária nos média, a estética do que é “fixe” na cultura hip-hop e nas representações mediáticas – tais como os filmes de ação de Hollywood ou os jogos de computador – são alguns dos indícios que se podem encontrar na dança. Esta pretensão de parecer fixe também está ligada à estética do chicano: imitar o gringo, o branco, significa tornar-se nele, devorar de forma canibal os seus códigos culturais e distanciar-se da ideia folclórica do “mexicano”, menosprezado pela diferença colonial, resultando em esquemas de divisão racial presentes em ambos os países.

A dança poderia ser interpretada como um espaço para a sua identificação com os esquemas de divisão racial impostos aos índios e aos mestiços (pessoas de raça mista) pela representação folclórica da nação assim como um processo de apropriação canibal das características do outro.

 

Amanda Piña

 

 

Excertos da dissertação com o título “Invocar uma dança ancestral futura – Raízes indígenas, poesia do narcotráfico e mestiçagem na dança oriunda das linhas de fronteira”

 

Amanda Piña é uma coreógrafa, bailarina e trabalhadora cultural mexicana, chilena e austríaca que vive entre Viena e a Cidade do México. A sua obra demonstra uma preocupação com a descolonização da arte, centrando-se no poder político e social do movimento. Os seus trabalhos são rituais contemporâneos que desmontam de forma temporária as separações ideológicas entre moderno e tradicional, humano, animal e vegetal, natureza e cultura. O interesse de Amanda Piña reside em fazer arte para lá da ideia de um produto e em desenvolver novos contextos para a criação de experiências sensuais.

 

Danza y Frontera é inspirada numa dança que surge no bairro mexicano de El Ejido Veinte de Matamoros, Tamaulipas (junto à fronteira com os EUA), num contexto de extrema violência relacionada com um território onde o narcotráfico, a militarização e as indústrias de mão-de-obra barata se cruzam. A dança tem raízes numa forma pré-hispânica que se tornou um instrumento de propaganda racista durante a colonização da América Latina. No entanto, os elementos básicos foram preservados e transmitidos até hoje como um ato performativo de resistência contra as forças coloniais e, posteriormente, neoliberais. A coreógrafa mexicana-chilena Amanda Piña transporta este legado para o presente e apresenta-nos uma peça que reclama uma “danza de conquista” histórica, na qual ecoam práticas indígenas, narrativas coloniais, cultura hip hop, conflitos armados e misticismo.

Esta peça corresponde ao quarto volume do projeto Endangered Human Movements [Movimentos Humanos em Perigo de Extinção], uma investigação a longo prazo da artista sobre a atual perda da diversidade cultural e biológica planetária. O seu trabalho coreográfico centra-se na descolonização da arte, incidindo no poder político e social do movimento, introduzindo referências e perspectivas não ocidentais na performance contemporânea.

 

 

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