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05 - 07 Dezembro
Samira Elagoz

Cock, Cock… Who’s There?

Artes Performativas
TBA no Lux

CityMag: Como explicaria Cock Cock … Who’s There? a alguém que ainda não o tenha visto?

Samira Elagoz: Dividido entre o ecrã e o palco, o espetáculo transforma a minha experiência de violação num documentário observacional. Abordo a visão errada sobre as vítimas de violação, exponho aspetos da cultura da violação e partilho a minha investigação sobre conhecer homens online. Em 2016, quando terminei este trabalho, ainda não existia o movimento #metoo. Muitas histórias de violação que vi eram sobre a vitimização e sobre como as mulheres eram destruídas, nunca aludindo ao facto de a vítima ter qualquer poder de ação. Faltavam-me histórias sobre o que acontece depois, e com as quais me pudesse realmente identificar, e então decidi partilhar as minhas.

Tinha curiosidade em saber qual é a estranha coreografia desta configuração estereotipada de “cis homem encontra cis mulher” e qual a área cinzenta que existe antes de ultrapassar os limites. Quando é que a atração se transforma em desejo e luxúria que pode levar à dominação, possessão ou violência? O trabalho que vi sobre violação resultava sempre numa busca moralizadora ou num ataque aos homens. Mas eu acreditava firmemente que não os vilipendiar permitiria que aqueles que reconhecem algo de si próprios pudessem analisá-lo em vez de o rejeitar. Queria muito fazer uma performance sobre a violação que fosse acessível aos homens também.

 

CM: Qual a pergunta mais comum que lhe fazem sobre o seu trabalho?

SE Sem dúvida que é “Não sentias medo enquanto filmavas estes homens?”. Em primeiro lugar, eu tinha regras de segurança; não era o perigo que me interessava registar em filme. E tenho a certeza de que qualquer mulher sabe que pode estar potencialmente em perigo quando se encontra sozinha com um homem. Portanto, ao remover esse elemento de perigo, também não preciso de me autocensurar.

Contudo, irrita-me que essa pergunta seja feita com frequência. Como já estive em muitos festivais de cinema e a seguir os meus colegas masculinos, que foram para as guerras com as suas câmaras, noto que ninguém lhes faz a mesma pergunta. É simpático que as pessoas estejam preocupadas comigo, mas não posso deixar de me sentir vitimizada, de pensar que estão a ser condescendentes comigo, e que basicamente estão a questionar a minha capacidade para tomar decisões. Como se eu não tivesse controlo do meu próprio corpo.

Também é frustrante viver num mundo onde a responsabilidade para me proteger dos homens é minha. A cultura da violação tem a ver precisamente com a criação desse medo em nós. Fazer com que as mulheres tenham medo de participar na vida pública. E isto não se trata de “proteger” as mulheres, mas sim de as controlar. Acho que, para mim, é mais porque reconheço o risco, mas tento construir uma espécie de laboratório social onde posso interferir, incitar e experimentar com segurança.

 

CM Qual é o comentário positivo mais comum que recebe?

SE Que eu devo ser “corajosa”. Uma declaração que não consigo interpretar muito bem. Mas acho que o seguinte texto de Laurie Penny é bastante adequado neste contexto: “Não sou corajosa; simplesmente sei do que ter medo; sei ter medo de tudo. Há liberdade nesse medo. Essa liberdade faz com que seja mais fácil parecer não ter medo. Quebraram-me, então estou preparada caso isso volte a acontecer. Às vezes tenho-me colocado em situações perigosas. Pensei: ‘Não fazes ideia daquilo que consigo aguentar’. A resistência humana fascina-me provavelmente demasiado porque frequentemente penso na vida em termos de resistência em vez de a viver”.

Depois de teres sobrevivido a algo traumático, sabes que não existe uma solução simples… Sobretudo quando começas a entender exatamente aquilo a que sobreviveste.

 

 

CM Qual é o comentário mais negativo que recebe?

SE Para aqueles que simplesmente não conseguem entender, ou não se identificam com o que fiz depois da minha violação, ou estou a mentir ou sou louca. O que é bastante deprimente. Era importante e intrigava-me expor as ações que alguém pode vir a tomar depois de ter sido violada, o que ainda parece ser um pouco tabu. Queria transmitir não apenas o quão complexo pode ser lidar com a violação, mas também que existem muitas maneiras de lidar com esse trauma. Se examinares a psicologia do que é passar por essas várias iterações de choque, raiva e cura, descobres que a contradição é uma parte grande do trauma. O meu trabalho é geralmente descrito pela frase “uma maneira pouco convencional de lidar com o trauma”, o que é engraçado para mim. Quer dizer, afinal o que definiríamos como convencional? Automutilação? Celibato?

Eu queria precisamente fazer com que o público repensasse as suas opiniões sobre aquilo que a violação pode significar para uma vítima. Queria ilustrar esta contradição de ser simultaneamente uma mulher sexual e sexualizada, o que é apresentado frequentemente como uma situação em que só se é uma coisa ou outra.

 

CM Qual é o aspeto mais deprimente do seu trabalho?

SE Conseguir ver o quão atrasada está a mentalidade das pessoas. Em tournée com a minha performance sobre a violação há já quase três anos e meio, frequentemente tenho ouvido jornalistas, estranhos, conhecidos, colegas de cena e de diferentes identidades de género, comentarem que as violações foram culpa minha, de formas diferentes, mas sempre erradas. Dizem que é apenas uma questão de como pareço ou me comporto. Aquela velha canção tautológica cantada para as mulheres do “Sê modesta e não atrairás problemas”. A violação parece ser um daqueles raros crimes em que é a vítima que está a ser julgada e não o acusado. E essa mesma inclinação das pessoas também se aplica ao meu trabalho. Às vezes ouço isso porque, como pareço “neutra” no palco, não pode ter sido violação. É como se as pessoas esperassem que as vítimas fossem performativas.

Numa sessão de perguntas e respostas em Israel, um homem não parava de perguntar: “Porque não choras quando estás a contar a tua história?” Um advogado de crimes sexuais veio falar comigo no fim e explicou-me que esta também é uma perspetiva comum no tribunal – a de que o juiz não acredita na vítima feminina se esta não mostrar sinais de estar completamente destroçada. É do conhecimento geral que o desapego é uma parte importante e saudável do processo de lidar com o que aconteceu. Quando finalmente chegam ao tribunal, a grande maioria das vítimas já passou por todas essas emoções, e esperar que as interpretem para parecer genuínas é nojento.

 

 

CM Qual é o maior desafio que enfrenta no seu trabalho?

SE Colocar a minha própria vida tão intensamente no meu trabalho provoca muito stress porque as pessoas podem ter uma ideia errada sobre aquilo que faço. Claro que posso fornecer apenas os parâmetros do meu trabalho e deixar que o interpretem. Mas isso também torna as pessoas bastante diretas. Elas acham que, como criei um trabalho muito pessoal, isso significa que me podem fazer perguntas igualmente pessoais. Coisas detalhadas e íntimas para as quais não deveriam estar à espera de uma resposta – de maneira nenhuma.

A hipocrisia mais irritante: o trabalho sobre a minha experiência de sexualidade e violação tem sido muitas vezes sinalizado com advertências, limites de idade, e até mesmo rotulado de chocante e explícito. No entanto, tenho visto algumas peças de teatro encenadas por homens, em que cenas reais de violação têm sido representadas em palco sem qualquer tipo de advertência. Refiro-me a cenas com respingos de sangue e violência. E depois uma rapariga fala de sexo e os sinais de aviso disparam. Incompreensível.

 

CM O que é que quer realçar mais em relação ao seu trabalho?

SE O meu espetáculo é sobre violação e namoro. Mas namorar depois de ter sido violada é mesmo uma merda difícil de atravessar, na verdade. Acho que para muitos de nós é simplesmente mais fácil deixar de namorar, deixar de ter encontros. Contar a um potencial “amante” sobre a(s) tua(s) violação/ões pode não ser apenas humilhante, mas também uma experiência quase retraumatizante.

O meu instinto sempre foi o de que, eventualmente, seria prejudicial proteger-se a si próprio ao esquivar-se da interação. E, depois, quando estive em tournée com a minha performance nestes últimos anos, tentei ser uma defensora das vítimas que ainda se sentem sexuais. Algumas até mais do que antes do trauma. As vítimas de violência sexual não perdem necessariamente a sua sexualidade e, como tal, não deveriam sentir medo ou vergonha por isso, mas há sempre um sentido de culpa quase imposto acerca de nos mostrarmos como sexuais. Aquilo de que não falei ainda é como navegar no mundo do namoro a seguir a uma violação. E também não encontrei muito sobre este tópico noutros sítios.

Quer dizer, de qualquer maneira é quase sempre um risco tentar encontrar alguém compatível. Sem falar de ter que confiar nessa pessoa, ou até mesmo contar-lhe sobre limites dececionantes nos primeiros passos da intimidade. Alguém que terás dificuldade em conhecer verdadeiramente e, por isso, não chegas a saber que é carinhoso ou está interessado em algo para além da atração sexual.

 

Samira Elagoz (1989, Helsínquia) é uma artista finlandesa/egípcia que vive entre Amsterdão e Helsínquia. Formou-se em coreografia pela Universidade das Artes de Amsterdão em 2016. Os seus dois trabalhos de licenciatura, Craigslist Allstars e Cock, Cock…  Who’s There? fizeram parte de uma tournée mundial em espaços como galerias, teatros ou cinemas e têm recebido bastante reconhecimento. Em 2014, Elagoz venceu o Prémio Blooom num concurso de artes visuais em Colónia com a sua primeira curta metragem, Four Kings. A sua performance-documentário Cock, Cock… Who’s There? ganhou a competição Prix Jardin d’Europe no Impulstanz 2017. E no Edinburgh Fringe ganhou o Total Theatre Award para talentos emergentes. Foi também nomeada para o BNG Bank Nieuwe Theatermakersprijs, na competição para o jovem encenador mais promissor na Holanda. A revista alemã Tanz nomeou-a como um dos talentos mais promissores de 2017. A sua primeira curta metragem, Craigslist Allstars, estreou em 2016 no IDFA, o maior festival de cinema documental, e foi indicado pela imprensa como o filme mais empolgante do festival. O filme foi distribuído pela Mubi, Cineuropa e Vice. Foi nomeado na competição principal para melhores filmes internacionais no CPH:DOX 2017. Venceu o Prémio Spirit of CUFF em 2017 no Chicago Underground Film Festival. No mesmo ano, desenvolveu um trabalho para galeria intitulado The Young & The Willing que foi projetado, por exemplo, na reputada Galeria Whitechapel, em Londres. O seu trabalho é bastante pessoal e, ao mesmo tempo, aproxima-se dos debates sociais e políticos do nosso tempo (#metoo, o olhar masculino, a solidão na era digital e a performatividade de eventos reais). As partes mais representativas das suas filmagens são o facto de não usar atores ou performers, e todos os sujeitos dos seus trabalhos serem homens. Aborrecia-a ver a história da arte repleta da configuração clássica do olhar masculino, onde a mulher é um objeto passivo/musa dos artistas masculinos e, por isso, decidiu tornar-se numa artista feminina que retrata homens. Nos últimos anos, tem vindo a desenvolver uma extensa coleção de primeiros encontros organizados através de várias plataformas online como Craigslist, Tinder e Chatroulette. Isto rapidamente se transformou numa pesquisa sobre os muitas vezes risíveis papéis de género. Formada nas artes performativas, Elagoz combina aspectos destas artes com as do vídeo ou filme, criando a sua marca única de “docuficção”.

        

 

Há seis anos atrás, a artista finlandesa/egípcia Samira Elagoz foi violada pelo seu então namorado. Um ano após o ataque, Samira decidiu aproveitar o “aniversário” da sua violação para levar a cabo uma série de conversas filmadas que detalham a reação da sua família e amigos à agressão. A experiência revelou atitudes bem-intencionadas e honestas que, às vezes, desafiam as relações de género e a violência sexual. Ao longo de três anos, e passando por três continentes, Samira iniciou então uma série de interações com estranhos nas suas casas, usando anúncios da Craigslist e outros sites de encontros online. O culminar desta pesquisa é Cock Cock… Who’s There?, uma subversão da vitimização e uma poderosa reclamação do eu.

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