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06 - 08 Maio
Josefa Pereira

Calor

Preço cada peça 7€ / Passe Bestiário PINK 18€
Dança
Bestiário PINK

06 - 08 Maio

sex, sáb e dom 19h30

CLUBE ESPECTADOR
7 maio após o espetáculo na Sala Manuela Porto
Moderação: Catarina Vieira

Passe disponível para os três espetáculos

Programa Bestiário PINK
sex 6 mai 19h30
Calor

sáb 7 e dom 8 mai
16h30 Hidebehind
18h Glimpse
19h30 Calor

Dança
Bestiário PINK
Preço Preço único 7€
Passe Bestiário PINK 18€

Sala Principal
Duração 40min

Classificação Etária:

A classificar pela CCE

Conceção e performance Josefa Pereira
Desenho de som Agatha Cigarra
Desenho de luz Josefa Pereira com Luís Moreira
Operação técnica Luís Moreira
Colaboração Plástica Maura Grimaldi
Colaboração coreográfica Alina Ruiz Folini, Daniel Lühmann, Natália Mendonça
Acessório Amanda Silva – Kaibo Wear
Produção Carolina Goulart
Coprodução Teatro do Bairro Alto e BIT Teatergarasjen
Residências Estúdios Vitor Córdon, Musibéria, Forum Dança, Ficha Tripla – Residências Artísticas, Teatro do Bairro Alto, DAS Graduate School e Residência de coprodução O Espaço do Tempo

Parte do processo artístico de Calor decorreu no contexto do mestrado DAS Choreography (AHK), com o apoio do programa de bolsas da Fundação Gulbenkian

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

A coreógrafa e performer brasileira Josefa Pereira orbita por curiosidades diversas, e não lineares, que se aproximam atraídas por interesses como monstruosidade e fabulação. A partir das perguntas “o que se faz”, “com o que se faz”, e o “como se faz”, surge um forte recurso à plasticidade como forma de engajamento entre coisas-matérias em que o gesto emerja enquanto ética que sustenta um dado acontecimento.

entre mundos, Bestiário PINK

 

“[…]

Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado sobre a meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos”

Ana Martins Marques, O livro das semelhanças

 

 

Uma folha dobrada em simetria mostra seu verso, mas dobrada em desconformidade mostra suas duas faces simultaneamente, compondo ainda uma terceira forma. Já não é mais esquerda ou direita, sul ou norte, frente ou verso. O que há daquele lado? Os ouvidos encontram a zona posterior do joelho, o cotovelo a resvalar na escápula, o umbigo a tocar o ânus. Não há ponto que não possa ser de contato quando o mundo se dobra e se deforma. Uma tríade forma um caos, não é isto ou aquilo. Uma tríade preenche um acorde, não é uma nota ou outra. Uma tríade não é x ou y, mas a dúvida e a hipótese sobreposta entre e/ou. Abrindo mão do sim e do não, realidades que correm paralelas e coexistem ainda em suas contrariedades – são todas as coisas em concomitância, são as suas combinatórias e infiltrações. Quiçá seja melhor ficar com a imagem da multiplicidade, incoerência e as abundantes vias da entropia e da desordem.

 

Bestiário PINK, uma obra em construção desacelerada ao longo de mais de seis anos, e nem por isso menos intensa e constante, é menos o envio ou o recebimento, e mais a própria mensagem em trânsito contínuo. A mensagem é aquela que percorre dois mundos distintos, não pertence a nenhum deles e parece que é assim o comportamento desse conjunto tripartite que vem sendo esboçado desde 2015 pela artista, coreógrafa e performer Josefa Pereira.

 

Como falar de uma mensagem, de uma obra, de um conjunto de obras, compondo 3 atos, a partir de uma estrutura linguística ainda binária como esta que se apresenta? Como implodir a relação do sujeito-objeto impregnada desde a gramática ao nosso entendimento de se estar no mundo e de nos separarmos entre aquilo que é o mundo? O mundo não seria mesmo todos nós? Todo mundo?

 

Assumir o erro, o paradoxo, o oxímoro e a coexistência das coisas. Isso não é um diálogo, é uma cacofonia, uma multidão de vozes, de imagens e de repertórios envolvidos na lâmina da síntese.

 

Ainda sobre essa plurivocalidade, cabe perceber que a constituição de Hidebehind, Glimpse e Calor é um processo de muita troca entre todos aqueles que percorreram e interlocucionaram com Pereira – sua obra não se faz sem suas parcerias afetivas que também são suas alianças estéticas e políticas. Ainda que concebido originalmente e performado como solo, está muito distintamente de o ser – Bestiário PINK vem acompanhado por sua rede de parentesco mundana, infra-mundana e supra-mundana, seres que estão nomeados na ficha técnica, os que não, e aqueles que sequer são nomináveis.

 

A artista parte de 3 eixos do corpo para criar procedimentos e experimentar as materialidades daquilo que é, veste, gesticula, ilumina, colore e atravessa. Cada uma das peças considera uma das secções de corte: sagital, frontal e transversal. Esses três modos de cesura são a condensação para se desvelar um volume. Mas em seguida, cada corte se trai: se de uma incisão se espera duas partes, é nos caminhos de Hidebehind, Glimpse e Calor que vemos sempre uma trinca surgir, um terceiro elemento que já não pode ser nenhum dos anteriores.

 

A investigação de Josefa Pereira é suscitada pela provocação da polissemia do rosa, seja choque e/ou pink, e o quanto as suas apropriações e reapropriações em diferentes culturas podem nos empurrar para distintas perguntas. Questionar-se sobre a história do rosa é questionar sobre estruturas de poder e de estigma. É também perguntar-se o porquê  a dimensão do gênero se faz presente tantas vezes, como se deu a apropriação pela indústria de massa, como foi utilizada para designar, e exterminar, grupos, e como, em movimento contrário, foi índice de poder e virilidade. Perguntar-se sobre a vida do rosa é dar-se conta dos processos de construção das identidades e dos corpos, é perguntar-se sobre a construção da figura do outro, e o porquê da necessidade do aniquilamento do outro e de seus modos de vida. Deglutir essas histórias e restituir ao mundo essa massa fermentada é dar a ver a monstruosidade das matérias e a monstruosidade construída historicamente para determinados grupos.

 

Os seres que habitam a trilogia atuam como mensageiros, atuam nos caminhos, criam conexões entre aquilo que entendemos como seres terrestres e aqueles cuja presença não é óbvia aos olhos e percepções humanas: figuras divinas, fabulares, extra terrenas.

 

Um mensageiro não apenas se desloca e transporta, ele necessariamente carrega. Mas o que ainda é um por vir, pode ser um segredo, pode ser a notícia do fim desses tempos, pode ser a história das origens e das criações ou a possibilidade de um futuro radicalmente distinto do que aguardamos.

 

As figuras construídas ao longo da trilogia são de caráter fugidio, fora do tempo e espaço humano, fazendo-se ambivalentes. Não necessitamos pronunciar seu nome para compreender que é quem guarda o lado de fora, protege os caminhos e se faz presente nas encruzilhadas.

 

É nesse caráter mensageiro e extraordinário que se preserva uma lógica da monstruosidade, transpassando os três momentos da trilogia. Derivado dos termos  monestrum e monstrum, a raiz da palavra monstro conserva seu parentesco com o verbo mostrar. Sendo assim, são seres que arquivam um presságio – previnem, indicam e advertem. Criam uma rede de intimidade entre o mostrar, o demonstrar, a premonição e o monumento. São seres de estranheza que apelam para o seu caráter de excepcionalidade, espanto e exibição. Longe de serem figuras puras e estáveis, são muitas vezes criaturas híbridas. As três, que percorrem os diferentes atos, são impuras, são nebulosas, são opacas, são mestiças, são de difícil classificação e apreensão. A primeira (Hidebehind) quebra a normatividade da projeção linear e progressiva, a segunda (Glimpse) elipsa o tempo e deforma a percepção sobre o estático e o movimento através da intercadência dos lampejos, enquanto a terceira (Calor) desgoverna-se pelo espaço sem eleger rota palpável e inverte a lógica do corpo ereto: jogam com a (in)visibilidade dos corpos no espaço cênico, modelado por alterações cromáticas e luminosas e suas consequências sobre as superfícies e materialidades das carnes.

 

A trilogia segue a estrutura de uma bolsa carregada, uma coleção de fragmentos, de referências, de metodologias, e que abre mão de um herói para dar espaço aos corpos estranhos. São corpos respigadores que não se acanham em dobrar-se para buscar um punhado de ficção e recolher aquilo que os demais se esqueceram. Como despedida, Calor faz o gesto de inclinar-se, de ser conteúdo e continente ao mesmo tempo, de ser criação e criatura amalgamados, corpos em simbiose, voltar a ser o mundo todo com a cabeça no chão.

 

 

 

entrada do verão de 2022, maura grimaldi (investigador)

Evocado enquanto força de agitação, como propriedade que atravessa corpos necessariamente colocando matérias em relação e em troca, Calor é o surgimento de tudo e também o fim dos tempos. A partir do plano abstrato e ficcional que divide cima e baixo, norte e sul, Calor poderá ser aqui um campo de possibilidades para derreter bordas ou categorias. Fundir cisões ou quiçá inflamar o que está aberto. Transbordar, ebulir, transformar. Colocar em contato, amalgamar, colar junto, roçar. Ou ainda, delirar os sentidos, imaginações e matérias.

 

 

Bestiário PINK é uma trilogia, jornada, arquipélago, ou nó, composta por três atos para um corpo anatomicamente dissecado em diferentes eixos. Através de Hidebehind (frente x costas), Glimpse (esquerda x direita), e Calor (cima x baixo), esta obra ficciona situações que propõem vislumbres à perceção, questionando polaridades: como vida/morte, norte/sul, humana/monstro (ou o outro), e conhecida/desconhecida podem ser dobradas, torcidas e invertidas de modo a pôr em vertigem cisões dicotómicas que definem a maneira como percebemos e agimos no mundo.

Hidebehind fez parte do programa de abertura do TBA em 2019, Glimpse teve a sua primeira versão no Festival Cumplicidades 2020 e Calor tem agora a sua estreia na sexta, dia 6. No fim de semana de 7 e 8, as tardes são dedicadas à versão completa de Bestiário PINK: as peças podem ser vistas em separado ou em conjunto, como um movimento contínuo e intermitente em três partes.

 

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