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17 Abril
Annalisa Sacchi

Arquivos do Comum: INCOMMON – performing arts in Italy 1959 to 1979

Discurso
Histórias do Experimental

Nota sobre o horizonte temporal analisado: porque é que o projeto vai de 1959 a 1979?

Em 1959, assumido aqui como o ponto de partida do projeto, enquanto Allan Kaprow criava 18 Happenings in 6 Parts em Nova Iorque (o acontecimento que de modo geral se considera estar na origem do “género” das artes performativas), surgem as primeiras produções do que mais tarde veio a ser conhecido como “Teatro Novo” em Itália. Os seus fundadores, Carlo Quartucci, Mario Ricci, Carmelo Bene e Claudio Remondi, foram os pioneiros de uma forma subversiva de arte que se afastou da hierarquia do texto, identificando muito mais linguagens no palco, tais como a imagem, o espaço performativo, o som e, pouco depois, as novas tecnologias, como a cassete de vídeo (Quadri, 1977). Procuraram alterar a estrutura do mundo da arte e a natureza da criação, começando pelo universo do teatro.

1979 representa simbolicamente a data de fim da cronologia proposta, na medida em que o papel de oposição desempenhado pelos artistas que animaram a contracultura italiana terminou de forma dramática com os anos 1980. Uma das razões principais foi a mudança violenta do ambiente político: a partir do final dos anos 1970, o Estado italiano levou a cabo uma onda de repressão imensa. Após o rapto e assassinato de Aldo Moro, os magistrados procuraram agrupar e julgar os grupos terroristas juntamente com toda a variedade de movimentos sociais alternativos. Dezenas de militantes foram detidos ao abrigo de diplomas extraordinários que permitiam a detenção preventiva prolongada sem qualquer acusação feita aos detidos e sem os levar a julgamento por períodos prolongados. Um grande número de ativistas políticos passou à clandestinidade e posteriormente exilou-se, pelo que, no início dos anos 1980, a organização política dos movimentos sociais encontrava-se totalmente aniquilada. Pode dizer-se que a viragem mais radical na filosofia da comunidade (Giorgio Agamben e Paolo Virno) foi elaborada nesses anos e nessas circunstâncias (nalguns casos mais dramáticas, como no caso de Virno, que, à semelhança de muitos outros membros da esquerda radical, foi detido e encarcerado em 1979 e passou três anos na prisão antes de ser ilibado).

Não só a participação política dos artistas é travada como o próprio espírito de “comunidade” foi de certa forma aniquilado. A contracultura representara uma rutura acentuada e até violenta, uma dissidência e revolta mais do que uma vanguarda literal e, nos anos 1980, foi marginalizada e subiram ao palco produções teatrais mais tradicionais.

INCOMMON visa desfiar as relações complexas entre o contexto político e filosófico da contracultura, o surgimento das artes performativas em Itália e o papel desempenhado pelos relacionamentos sociais entre artistas. A junção destes três elementos num mesmo quadro analítico procura ser um contributo para uma refundação verdadeiramente interdisciplinar da teoria e arquivamento da performance em Itália.

Politólogos e filósofos realizaram estudos abrangentes sobre a ação e teoria desenvolvidas pela esquerda extraparlamentar italiana (Tronti, 1980; Virno e Hardt, 2006; Campbell, 2009; Esposito, 2009; Agamben, 1993; Chiesa e Toscano, 2009; Virno, 2004; Belpoliti, 2010; 1970, 1974 e 1980), independente do Partido Comunista Italiano e mais radical do que este. Especialmente nos anos 1960-1970, este movimento constituiu uma anomalia quando comparado com outros países europeus no que diz respeito à sua dimensão, intensidade, criatividade e longevidade. O debate contemporâneo salienta particularmente a ascensão de um pensamento político radical e não violento relevante, que encarou a autonomia crescente da classe trabalhadora em relação ao capital, mais precisamente a sua capacidade de produzir e manter fórmulas sociais e estruturas de valores e criatividade independentes de relações institucionais de produção (Balestrini e Morini, 2003). Em paralelo, o debate sobre o movimento artístico de então sublinhou a importância de produções assentes na performance como consequência direta da resistência contra a circulação de capital (Valentini, 2014; Bishop, 2012; Stimson e Sholette, 2007). De facto, uma das estratégias para contrariar o modelo capitalista de produção artística foi a criação de performances e obras de arte baseadas no tempo em vez de objetos, na medida em que a efemeridade escapa à lógica da propriedade e ao regime de direitos de autor e privilegia a noção de “transformação” em contraste com a “museificação” (Kershaw, 1992; Sacchi, 2013; Valentini, 2014). A consequência imediata, porém, é a dificuldade de preservação e documentação (Auslander, 2006; Sacchi et al., 2013).

Intimamente ligado a esta questão, o debate internacional em torno de arte e ativismo centra-se agora na comunicação e nas redes de trocas entre artistas e volta a interessar-se por práticas participativas (Felshin, 1994; Bishop, 2012; Stimson e Sholette, 2007; Sell, 2010; Berghaus, 2005; Puchner, 2002; Hopkins, 2006; Harding e Rosenthal, 2006; Harding, 2013; Lepecki, 2006; Chandler e Neumark, 2005). Tal lança uma nova perspetiva sobre a ascensão, nos anos 1960 e 1970, de uma “mentalidade de rede” que passa pela abordagem intermédia postulada pelas artes performativas e por uma rejeição total de distinções entre meios de expressão.

Por mais adequados que os conceitos de “comunidade”, “rede” e “arte/ativismo” sejam, não foi realizada até ao momento qualquer investigação que relacione a “vontade do comum” (Campbell, 2009) do pensamento italiano dos anos 1960-1970 e a ascensão do conceito e prática de comunidade que deu origem à primeira e mais radical geração de artistas de performance.

INCOMMON visa mostrar que, por mais diferentes que fossem as suas origens e poéticas, os artistas italianos da área da performance funcionaram como uma comunidade interdisciplinar que criou “modelos de ação cultural”, que depois se espalharam pelas suas redes para influenciar práticas culturais noutros domínios (tanto alternativos – como o grupo Indiani Metropolitani, ver Salaris e Echaurren, 1999, e Echaurren, 2005 – quanto dominantes, como experiências televisivas e radiofónicas da RAI, a empresa nacional de radiodifusão pública). Desta forma, deram contributos importantes para os padrões em mudança da produção cultural em geral e para conceitos como trabalho imaterial, capitalismo cognitivo e biopolítica, para dar apenas alguns exemplos. A rede de artistas de performance italianos que INCOMMON irá analisar inclui, entre outros, artistas visuais (como Gino de Dominicis, Vincenzo Agnetti, Giosetta Fioroni, Ketty La Rocca, Jannis Kounellis, Giulio Falzoni, Andrea Pazienza), indivíduos e companhias ligados ao teatro (como Carmelo Bene, Leo de Berardinis e Perla Peragallo, Falso Movimento, Gaia Scienza, Claudio Remondi, Carlo Quartucci, Mario Ricci, Giancarlo Celli), músicos como Giuseppe Chiari e Demetrio Stratos, videastas como Alberto Grifi, poetas e escritores como Patrizia Vicinelli e Nanni Balestrini do Gruppo 63, espaços (o teatro Beat’72, a galeria L’Attico, as “cantine romane”) e ativistas e pensadores como Franco Berardi, Paolo Virno e Franco Piperno.

O que ainda falta é o papel desempenhado pela interdisciplinaridade na criação artística na esteira do teatro e a rede de relações entre artistas. Algo que, ao invés, é bastante equacionado na análise recente da “segunda” vanguarda contemporânea norte-americana, onde a rede de relações assume protagonismo, sobretudo no campo dos estudos de dança (ver Lepecki, 2006; Case, 1990; Féral, 2011; Kattwinkel, 2003).

A biblioteca de livros e manuscritos raros de Beinecke da Universidade de Yale, por exemplo, revelou recentemente uma abordagem interessante na reunião e apresentação dos movimentos artísticos dos anos 1960 e 1970 na Europa. Foi adquirido um acervo importante para documentar a vanguarda e contracultura na Europa, em especial nos anos 1970, incluindo movimentos como o situacionismo e o letrismo, poesia sonora e concreta, o movimento Provo e movimentos estudantis e autonomistas em França e Itália. A aquisição de documentos de figuras-chave da contracultura europeia para o acervo da Beneike visa seguir o rasto da rede revolucionária, criativa e afetiva de ideias e relações dessa década. Afigura-se, assim, particularmente curioso que tal abordagem tenha sido seguida por um arquivo americano ao passo que nenhuma instituição italiana ou europeia esteja presentemente a tratar deste tema. Há uma necessidade gritante de nova investigação que seja capaz de cruzar as práticas artísticas interdisciplinares da contracultura com o contexto político que contribuiu enormemente para lhes dar forma em Itália e na Europa.

Um último aspeto prende-se com o problema de arquivar o efémero. Deveríamos partir do pressuposto de que a documentação primordial de uma performance é a sua gravação em vídeo (Sterling, 2001). Um dos artistas e colecionadores de vídeo mais destacados do período que INCOMMON analisa, Giaccari, escreveu, em 1973, Classificazione dei metodi di impiego del video in arte [Classificação dos Modos de usar o Vídeo na Arte] com base na sua ampla experiência num vasto leque de atividades relacionadas com o vídeo, incluindo a produção de alguns dos primeiros documentos vídeo do trabalho de artistas e o uso do vídeo para documentação em tempo real de eventos de música, dança e teatro. Na sua Classificazione, Giaccari propôs, entre outras categorias, a vídeo-performance e a vídeo-documentação: a primeira é fruto de uma relação direta entre o intérprete e o meio vídeo; a última representa uma relação mediatizada entre uma performance – independente em si – e a documentação registada em vídeo. A Classificazione de Giaccari tornou-se no alicerce de uma formulação teórica específica e funcionou como ponte entre estas experiências diferentes e o estabelecimento da videoteca, que teve uma influência profunda noutras iniciativas posteriores no vídeo de artistas em Itália e noutras partes da Europa. Cerca de 30 anos após a Classificazione, o trabalho de Giaccari permanece operante nos projetos mais destacados no terreno (IMAP-Independent Media Arts Preservation, EAI-Electronic Arts Intermix, INCCA-International Network for Conservation of Contemporary Art, Inside Installations, DOCAM-Documentation and Conservation of the Media Arts Heritage; para uma perspetiva sobre a situação atual, ver também Depocas et al., 2003), que levaram a cabo um esforço formidável ao tratar de questões de catalogação e preservação, de forma a salvaguardar a história da arte vídeo, das artes performativas e de outras formas de arte documentadas em meios eletrónicos.

Ainda não se desenvolveu uma abordagem abrangente e direcionada para a recolha, arquivamento e divulgação de documentação direta e materiais associados das produções de artes performativas italianas ao longo dos anos 1960 e 1970. Para mais, os arquivos atuais de teatro e artes performativas não parecem capazes de lidar com o esbater de fronteiras entre disciplinas que as artes performativas em geral operam. De facto, até as instituições mais destacadas (o arquivo de teatro e cinema gravado da Biblioteca Pública de Nova Iorque, o arquivo nacional de vídeo de performance do Reino Unido, o arquivo do Museu de Performance e Design de São Francisco e o mais recentemente criado arquivo de performance Routledge) centraram-se no processo de digitalização em si e no desenvolvimento da infraestrutura subjacente necessária para tornar os documentos acessíveis (seja em linha ou no local). Agora que muitas instituições adquiriram a tecnologia e dotaram o seu pessoal da competência necessária para possibilitar o acesso básico, a próxima fase deveria implicar a utilização desta quantidade enorme de conteúdos digitais em formas novas, experimentais e potencialmente revolucionárias (ver Sacchi, Pustianaz, Palladini, 2013).

INCOMMON reconhece que as reivindicações de comunidade e criatividade partilhada das artes performativas ao longo dos anos 1960 e 1970 deveriam ser consideradas precursoras da revolução das redes sociais. No entanto, só agora podemos imaginar os formatos de um arquivo para as práticas das artes performativas. Com o surgimento da Web 2.0, estamos perante um processo de continuidade: o estabelecimento de uma rede de contactos, que fora uma prática artística restrita entre a contracultura, encontrou hoje um público muito mais vasto e está a tornar-se numa forma comum de interação. Por conseguinte, o arquivo digital de INCOMMON será um exemplo de um arquivo que documenta as práticas e resultados da colaboração entre artistas. Além disso, este arquivo incorporará a estrutura de rede na própria visualização da informação, proporcionando aos utilizadores uma visão geral de toda a “constelação” de relações em causa no movimento de arte performativa analisado.

 

 

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