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20 - 24 Abril
Diana Niepce

Anda, Diana

Dança

Territórios de investigação

A arte contemporânea estabelece-se num campo híbrido, de constante investigação e pesquisa, que se manifesta na urgência de mudar o sistema. Esta prática de autoconhecimento, desenvolvimento, questionamento, estudo e estratégia transporta o trabalho em direção ao desconhecido criando, muitas vezes, e através do gesto de provocação que é inerente ao objeto artístico, uma sensação de desconforto. Na dança, isto acontece maioritariamente através do corpo normativo -especialmente corpos homogéneos e convencionalmente atraentes -que discrimina todos os que não se enquadram na norma. Mostrar esta beleza violenta e crua, que diverge da perceção da norma, possibilita a criação de novos padrões de valores estéticos, assim contribuindo para a mudança na forma como nos vemos a nós próprios e ao outro. De que forma podemos trabalhar as barreiras? De que forma podemos trabalhar o corpo? De que forma especulamos e criamos um estereótipo que não corresponde à realidade? As opções artísticas e conceptuais aqui tomadas refletem uma linha de experimentação que, aliada aos limites físicos e sem concessões, criam desconforto pela intimidade extrema a que se propõe. Acredito que é urgente mudar a visão neoliberal do corpo performativo, a ideia dos corpos iguais que perdem a sua identidade e etnografia. Interessa-me criar a possibilidade de uma nova visão do corpo, e por consequência, uma nova visão do mundo. Um corpo que não corresponde à norma é por si só um ato político. Dar destaque a este corpo torna possível uma dinamização e nova abordagem do sector da inclusão, apresentando-o como obra em si e não enquanto corpo vítima ou corpo heroico. Um dos objetivos desta proposta é o de reivindicar a urgência das artes performativas se abrirem à diversidade, de questionarem as políticas de género e identitárias, de promoverem um novo modelo de corpo levando, consequentemente, a uma reflexão social e o subsequente desenvolvimento do pensamento crítico acerca destes temas. A obra propõe-se a promover a rutura dos dogmas normativos e padronizados do corpo. O corpo revela a sua identidade enquanto manifesto, procura reformular as convenções do vocabulário da dança. Interessa-me reformar os conceitos de inclusão, através da reinvenção da relação do corpo com o mundo. O mundo e o corpo como dispositivos performativos de um ativismo assumido que procura despoletar a mudança.

Diana Niepce

 

O projeto Anda, Diana conta ainda com uma autobiografia editada pela Sistema Solar. Uma narrativa interior desenvolvida a partir de factos cruelmente reais, contaminados pela perspetiva artística da autora.

 

Diana Niepce é bailarina, coreógrafa e escritora. Formou-se na Escola Superior de Dança, fez Erasmus na Teatterikorkeakoulun (em Helsínquia), fez uma pós-graduação em Arte e Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, completou a formação CGPAE do Forum Dança e é também professora habilitada de Hatha Yoga.

É criadora da peça de circo contemporâneo Forgotten Fog (2015) e das peças de dança Raw a nude (2019), 12 979 Dias (2019), Dueto (2020) e Duetos (2020). Enquanto bailarina e performer colaborou com o Bal-Moderne – Companhia Rosas, Felix Ruckert, Willi Dorner, António Tagliarini, Daria Deflorian, La Fura del Baus, May Joseph, Sofia Varino, Miira Sippola, Jérôme Bel, Ana Borralho e João Galante, Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes, Mariana Tengner Barros, Rui Catalão, Rafael Alvarez, Adam Benjamin, Diana de Sousa e Justyna Wielgus. Fez a direção artística e participou como formadora na Formação de Introdução às Artes Performativas para Artistas com Deficiência na Biblioteca de Marvila – CML (2020).

Publicou um artigo no livro Anne Teresa de Keersmaeker em Lisboa (ed. EGEAC/INCM), o conto infantil Bayadère (ed. CNB), o poema “2014” na revista Flanzine e o artigo “Experimentar o corpo” no jornal de artes performativas Coreia. Foi jurada do prémio Acesso Cultura 2018 e do Festival – Inshadow 2018.

Ofereço a minha história e o corpo que não se separa da sua história. O meu corpo não é mais o do antigamente. Agora imagina que acordaste num corpo que não é o teu. Às vezes não sei existir neste corpo partido, mas emprestaram-mo e às vezes visto-o.

Existo na obsessão de compreender o corpo. Corpo que às vezes me dá pena. Corpo que representa um lugar incompreendido. Corpo que não pode ser reduzido aos seus sintomas. Hoje, interessa-me aquilo que rejeitei durante muito tempo

Deixei de perguntar onde é o limite e passei a existir consciente do risco da queda. Encontrei o que faz organizar o corpo, e neste jogo de reconstrução, encontrei o outro. O outro que é uma extensão de mim própria, onde um não existe sem o outro.

Não vou continuar a existir na memória do meu antigo corpo. Quero abandonar a utopia que obriga o corpo a existir em apenas uma fórmula. Quero experienciar o meu próprio corpo na integra, e com isso tornar-me testemunha da sua complexidade e fragilidade. Cansei-me da opressão que apresenta o corpo em apenas uma dimensão. Vou contar a minha história do lugar do corpo, incompreendido, incompreensível, e na estranheza que provoca a sua reinvenção.

Penso que só assim compreendemos o privilégio onde existimos. Compreender a sua complexidade, observar o corpo enquanto gesto político e redefinir o seu lugar único, num estado de manifesto. Através da história do meu corpo partido obriguei-me a reconstruir a minha identidade, e ao contar a minha história proponho a experiência que questiona o corpo modelado por uma utopia.

 

 

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