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18 Junho
Godofredo Pereira, Susana Caló e François Pain

Análise Militante – Esquizoanálise para Todos

Entrada Livre
Discurso

18 Junho

sábado 11h e 14h30

Programa
11h
Susana Caló e Godofredo Pereira
Palestra Da análise a militância

14h30
François Pain com Susana Caló
Sessão de visionamento de filmes e discussão em torno ao uso analítico de ferramentas audiovisuais em processos institucionais

Discurso
Preço Entrada Livre
(sujeita à lotação do espaço mediante inscrição prévia para uma ou para as duas sessões até 16 junho para bilheteira@teatrodobairroalto.pt)

Sala Manuela Porto

O projeto de investigação de Susana Caló e Godofredo teve o apoio generoso de Graham Foundation, Het Nieuwe Instituut e Royal College of Art.

 

Fotografia: “The Red Square“, Abril de 1967, publicado pela Opposition Gauche que incluía vários membros do CERFI. Centrando-se na guerra do Vietname e no movimento comunista internacional, o principal alvo do O.G. era o Partido Comunista Francês devido à sua falta de apoio ao movimento de libertação argelino. Arquivos Olivier Querouil.

 

O TBA fica junto ao Largo do Rato.

Condições de acesso

  • Recomendamos que desinfete as mãos à entrada e adote as medidas de etiqueta respiratória.
  • Sempre que possível, opte por trazer o seu bilhete de casa ou, ao adquirir bilhete na nossa Bilheteira, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
  •  Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA.

Susana Caló é investigadora em filosofia e análise institucional, fundadora Others Ways to Care e Chaosmosemedia.

Godofredo Enes Pereira é arquiteto, investigador em lutas ecológicas e política colectiva, diretor do MA Environmental Architecture, Royal College of Art.

François Pain e Realizador, média-ativista do movimento das Rádio Livres em França, colaborador de Félix Guattari, autor de vários filmes sobre psicoterapia institucional.

Análise Militante – Esquizoanálise para todos 

Susana Caló e Godofredo Pereira conversam com Ana Bigotte Vieira

 

 Ana Bigotte Vieira: Como começou este vosso projeto de investigação?

Susana Caló e Godofredo Pereira: De uma forma natural como um encontro entre os nossos trabalhos. Há alguns anos atrás o Godofredo tinha estado a trabalhar sobre a autogestão e programação de equipamentos coletivos numa perspetiva contra-hegemónica. Nessa altura, a Susana estava a trabalhar sobre a clínica psiquiátrica La Borde e a investigar os modos coletivos de organização da clínica, que segundo a perspetiva da psicoterapia institucional são o cerne da terapia. Apesar de termos sido ambos fortemente inspirados pelo trabalho do Félix Guattari, só nessa altura descobrimos o trabalho do CERFI. O seu foco na programação de equipamentos coletivos situava-se exatamente na interseção dos nossos trabalhos. Contudo havia muito pouca informação, ninguém tinha escrito nada especificamente sobre esse grupo, aparecia apenas em notas de rodapé. Foi assim que decidimos então começar um processo de investigação mais a fundo. 

 

ABV: O que foi, afinal o CERFI? 

SC e GP: O Centre d’Études, de Recherches et de Formation Institutionnelles (CERFI) foi uma cooperativa de investigação fundada em 1967, que tinha por vista explorar um novo tipo de militância política, caracterizada por trazer a análise para todos os campos institucionais e profissionais, com vista a criar linhas de fuga no local mais improvável, isto é, no interior do próprio corpo do estado capitalista. Tentou fazer isto através, por um lado, da programação de equipamentos coletivos (programação entendida aqui como a criação de mecanismos analíticos de auto-gestão); e através da investigação-ação, investigação entendida e explorada também como mecanismo analítico a que todos têm direito. Além disso o CERFI publicou uma revista, a Recherches, que servia não só de arquivo e forma de comunicação das suas investigações como também de uma plataforma que era dada a outros grupos e coletivos para que estes pudessem falar na primeira pessoa das suas experiências em vez de ocuparem apenas a posição de objetos de estudo, e em contraste com a “perspetiva do especialista”. São disso por exemplo, os números sobre a homossexualidade, as drogas, ou trabalho sexual.

 

ABV: O que se entende por análise militante – esquizoanálise para todos, lema que dá o título a este conjunto de eventos?

SC e GP: Em primeiro lugar o que é a análise: trata-se de gerar mecanismos para trazer ao de cima e trabalhar os corpos ou agenciamentos coletivos que nos atravessam e dos quais somos parte. Considerando que o capitalismo ataca diretamente a subjetividade, não se pode ter uma política anticapitalista sem considerar processos analíticos. Foi isto que Guattari propôs desde muito cedo. Se em clínicas experimentais como La Borde, se estavam a desenvolver mecanismos de análise coletiva (para além do individual e do pessoal, considerando dimensões ambientais, institucionais, burocráticas, etc) para Guattari esses mecanismos não deveriam permanecer circunscritos a contextos clínicos, mas eram relevantes em todos os contextos profissionais, institucionais e inclusive para organizações políticas militantes. Análise militante é portanto o nome que nós usamos para referir esta necessidade de trazer a análise para o campo da militância, e ainda mais, a necessidade de uma constante militância analítica. Ora a análise militante não é mais do que aquilo que Guattari com Deleuze chamariam mais tarde de esquizoanálise. Um trabalho de criação de maquinismos analíticos, que deveria ter lugar em todos os campos, e ao qual o CERFI se dedicou.

 

ABV: O arco temporal em que tudo isto se desenrola é relativamente longo, entre os anos 1960 e 1980 muita coisa mudou e várias gerações se sucederam ou, pelo menos, se terão cruzado. Como dão conta desta passagem do tempo na vossa investigação? Ou, por outras, palavras: o que vai mudando?

SC e GP: Ao escrever sobre o CERFI nós usamos frequentemente os termos ‘nébula’ e ‘consistência’ que derivam das entrevistas que fizemos. Usamos esses termos para dar conta do CERFI como algo de difícil definição e com limites necessariamente incertos. O CERFI forma-se num contexto em movimento, de relações moleculares entre corpos, no encontro de grupos militantes, uma consistência que se foi definindo e formalizando. Durante a sua vida foi atravessado por gerações, mas também por momentos históricos e políticos muito marcantes, tanto no contexto francês como internacional, e por isso o seu modo de funcionamento foi-se alterando. Era composto de múltiplos subgrupos, a certa altura distribui-se em múltiplos pequenos CERFIs, até que mais tarde se dissolveu, de volta ao húmus militante, certos aspetos da sua lógica reaparecendo noutras organizações militantes.

 

ABV: Que tipo de materiais existem sobre o que se passou? 

SC e GP: Este trabalho dura há já vários anos precisamente porque não existiam materiais organizados sobre o CERFI, para além dos materiais escritos presentes na revista Recherches publicada pelo coletivo. A nossa luta foi a de trazer as dimensões polifónicas ao de cima. Temos conseguido compilar um arquivo de materiais escritos, visuais e fílmicos bastante extenso, incluindo registos dos seus subgrupos de investigação paralela (grupo Imago, clube de costura, clube de estudo das drogas, clube de teatro, de música, de psicanálise por carta, etc), dos seus projetos de arquitetura e de urbanismo, assim como muitas outras coisas que não foram objeto de publicação. Mas o principal material em que nos baseamos são as histórias orais e entrevistas, pois carregam uma dimensão política, situada e afetiva que é difícil apreender a partir dos materiais escritos – além de que são essas histórias que mais nos interessa realçar politicamente hoje, por trazem nuances de vida que impedem as simplificações discursivas nas quais caem muitas vezes a história dominante e a crítica.

 

ABV: Este será  o primeiro encontro público de uma série de encontros, em várias instituições, a propósito de um livro também lançado para breve. Querem falar-nos um pouco do livro? 

SC e GP: Pensamos bastante qual seria a melhor forma de expressar este projeto e acabamos por decidir pelo formato livro. Chegamos a pensar também numa exposição dada a riqueza e polifonia dos materiais, mas devido aos anos de pandemia acabamos por optar pelo formato exclusivamente livro. Temos um parceiro editorial, a editora Minor Compositions, com quem estamos em fase de editar os conteúdos. O livro vai conter muito material de arquivo, entrevistas, e traduções de textos originais não publicados. Este encontro aqui no TBA a convite da Ana Bigotte Vieira será uma oportunidade para testar ideias e prioridades. Convidámos o François Pain para se juntar a nós. Membro do CERFI, trabalhou em La Borde, é um media-activista-cineasta e um pessoa formidável graças a quem existem uma série de registos de vídeo do ambiente que se vivia em La Borde, e com quem aprendemos imenso. No CERFI foi fundador do grupo IMAGO, um grupo de intervenção institucional através da ferramenta vídeo. 

 

ABV: Onde é que esta investigação vos levou, que gostariam de fazer a partir/ a propósito/ em reação a ela?

SC e GP: Este foi um processo de investigação muito rico em termos da evolução do nosso próprio pensamento.  Não estávamos só a trabalhar com livros, nem com arquivos, mas com pessoas e o que percebemos foi que à medida que a investigação avançava se foram formando relações de afeto que fizeram o projeto avançar de determinado modo. Em termos de posturas de investigação, interessa-nos este envolvimento.  A virtude de entender conceitos e a história das ideias a partir de histórias orais, por exemplo, é a de captar a pragmática dos conceitos, a sua vida. De que modo operaram, para que serviram, como surgiram? Como influenciaram vivências coletivas e de que modo foram transformados por elas? Basta pensar nas limitações da história das ideias dominante que é focada nos indivíduos e na grande teoria para entender como é vital reconstruir histórias menores. Valorizamos a possibilidade de investigação autónoma e independente, não exclusiva à universidade, mas transversal, reconhecendo a importância da investigação popular, e dos saberes produzidos pela experiência de luta anticapitalista.

Entre os anos 1960 e 1980 em França, os grupos FGERI (Fédération des groupes d’études et de recherches institutionnelles) e CERFI (Centre d’études, de recherches et de formation institutionnelles) destacaram-se pela tentativa de trazer práticas coletivas analíticas desenvolvidas pela psicoterapia institucional para outros campos de organização coletiva, nomeadamente profissionais e militantes. A premissa era a de que todas as organizações coletivas requerem uma militância analítica por forma a garantir a sua capacidade de apoio a processos revolucionários e a evitar cristalizações de poder: daqui surge a necessidade de invenção de uma prática analítica transversal  a que Félix Guattari, ativista, psicanalista e cofundador do CERFI, chamou de esquizoanálise.

A esquizoanálise foca as operações e funcionamento dos maquinismos existenciais mais profundos que atravessam o sujeito: “Quais são os teus sexos não-humanos?” A esquizoanálise opera um deslocamento do individual para o coletivo, dos sistemas de enunciação para os agenciamentos de enunciação. Como tal é uma prática que excede a problemática do sujeito individualizado.

Na sua tentativa de explorar um novo tipo de militância analítica, o CERFI dedicou-se principalmente à programação de equipamentos coletivos (como escolas, creches ou clinicas) assim como a constituição de equipas de programação popular. Desempenhou também uma atividade editorial profícua com a publicação do jornal Recherches (49 números, 1966-1982), cujos temas abrangeram as lutas revolucionárias do Terceiro Mundo, pedagogia e educação escolar primária, arquitetura e psiquiatria, cuidados infantis, trabalho reprodutivo, libertação sexual, entre muitos outros tópicos, insistindo em dar a palavra àqueles que detêm experiência vivida, em vez da perspetiva dos “especialistas”. A riqueza da experimentação do CERFI, tanto conceptual como social, aponta para horizontes alternativos de militância em que a dimensão inconsciente dos processos coletivos é tomada em conta.

É esta prática, que traz a análise para o centro da luta política, que o evento propõe debater.

Ao longo dos últimos cinco anos Susana Caló e Godofredo Pereira desenvolveram investigação sobre o CERFI, a partir de entrevistas, conversas, histórias orais e estudo de arquivos, num projeto que sairá em livro, pela editora Minor Compositions.

O programa organiza-se em 2 partes. Durante a manhã, Susana Caló e Godofredo Pereira vão apresentar a sua pesquisa em torno aos processos analíticos desenvolvidos na clínica La Borde e como estes foram mobilizados enquanto ferramentas militantes pelo grupo CERFI. Esta será ritmada com a mostra de arquivos, e entrevistas da sua própria investigação.

Da parte da tarde, François Pain com quem têm trabalhado junta-a eles para facilitar uma sessão de visionamento e discussão de filmes com o objetivo de desenvolver uma reflexão em torno à política dos processos analíticos coletivos e o potencial analítico de ferramentas audiovisuais. Pain é realizador e autor de inúmeros filmes sobre experiências psiquiátricas alternativas, em particular a psicoterapia institucional e La Borde, colaborador próximo de Félix Guattari, membro de FGERI e CERFI, e cofundador da Fédération de Radios Libres Non Commerciales e da Radio Tomate.

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