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29 Junho
Mariana Pinho, Nuno Leão, Vasco Santos

Acid communism, ou o desejo de inventar um (outro) futuro [Inscrições Encerradas]

Discurso
Mark Fisher

Mariana Pinho é doutoranda em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa (ICNOVA), com especialização em Cultura Contemporânea. As suas áreas de investigação passam pelo estudos sobre plantas, ontologias não-humanas, bio/fitosemiótica, psicadelismo e teoria política. Ao longo do seu percurso pessoal tem procurado articular o pensamento político com a música e com as artes em geral, tendo trabalhado como artista, escrito, programado e colaborado com diversas instituições. É curadora de um programa mensal na Rádio Quântica.

Nuno Leão estuda Filosofia e é tradutor.

Vasco Santos é psicoterapeuta e psicanalista. Exerce atividade clínica e docente. É editor da Revista Portuguesa de Psicanálise e formador no Instituto de Psicanálise de Lisboa. É membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise de Lisboa e da International Psychoanalytical Association. Tem colaboração diversificada nos domínios da reflexão literária e da psicanálise aplicada. Desenvolve também, desde 1979, uma singular atividade de editor, tendo fundado a editora Fenda e dirigido a revista com o mesmo nome. Recentemente, criou a editora VS e é editor de Mark Fisher.

Ao longo de 2021, um conjunto de sessões propõe conhecer e pensar em conjunto textos, livros e ideias de Mark Fisher. Nesta primeira sessão, partimos do livro Realismo Capitalista.

* A entrevista encontra-se na íntegra em The Occupied Times
Tradução de John Elliott Arte & Línguas

MOTIVOS DE PREOCUPAÇÃO: MARK FISHER* 

 DE MAIO, 2012 

 

The Occupied Times: Paul Mason comentou recentemente que os protestos de 2011-12 trouxeram um fim ao realismo capitalista. Pode descrever-nos brevemente o que quer dizer com o termo “realismo capitalista”? E acredita que a crise financeira e a subsequente reacção popular assinalaram um novo começo?   

Mark Fisher: O realismo capitalista pode ser visto como uma crença – a de que não há alternativa ao capitalismo e, que, como refere Frederic Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Outros sistemas podem ser preferíveis ao capitalismo, mas o capitalismo é o único que é realista. Ou pode ser visto como uma atitude de resignação e fatalismo face a isso – uma sensação de que a única coisa que podemos fazer é acomodar-nos ao domínio do capitalismo, e limitar as nossas esperanças para moderar os seus piores excessos. Basicamente, é uma patologia da esquerda, cujo melhor exemplo reside no caso do New Labour. Em última análise, o realismo capitalista resume-se à eliminação da política de esquerda e à naturalização do neoliberalismo. Penso que ainda é muito cedo para se falar do fim do realismo capitalista, embora aquilo a que temos vindo a assistir nos últimos dois anos seja um desafio a esta naturalização dos conceitos neoliberais. De certa forma, as medidas de austeridade que foram implementadas constituíram uma intensificação do realismo capitalista. Essas medidas não poderiam ter sido introduzidas a menos que ainda houvesse um sentimento generalizado de que não há alternativa ao capitalismo neoliberal. As várias lutas que rebentaram desde a crise financeira revelaram um crescente descontentamento com o neoliberalismo de pânico que se instalou desde 2008, mas estas ainda estão longe de propor uma alternativa concreta ao modelo económico dominante. O realismo capitalista é sobre a corrosão da imaginação social e, de certa forma, isso continua a ser o problema: após trinta anos de domínio neoliberal, só agora começamos a ser capazes de imaginar alternativas ao capitalismo. Mas pelo menos agora podemos imaginar que será possível conceber tais alternativas […]. 

 

OT: Nas secções do livro em que escreve sobre a cultura do trabalho, descreve a combinação de mercantilização e burocracia enlouquecedora como “Estalinismo de Mercado”. Isso faz lembrar a excelente série de televisão norte-americana The Wire, em que a polícia, os políticos, os professores etc., mostram-se focados, acima de tudo, em “ajustar as estatísticas”. Pode descrever como funciona o Estalinismo de Mercado e como podemos esperar vermo-nos livres dele? 

MF: Na verdade, ainda não tinha visto o The Wire quando escrevi Realismo Capitalista, e é por isso que não há menção à série no livro. Mas sim, The Wire exemplifica muito daquilo que queria dizer em Realismo Capitalista. Aliás, se quiserem saber o que é o realismo capitalista, vejam The Wire! Estalinismo de Mercado foi um termo que usei para o tipo de burocracia típica do Blairismo, mas que, como demonstra The Wire, não estava de forma alguma confinada ao Blairismo ou à Grã-Bretanha. O argumento neoliberal alegava que a introdução do mercado [marketization] eliminaria a necessidade do Estado e da burocracia. Mas o resultado da imposição de uma “lógica de mercado” nos serviços públicos é sempre uma proliferação enlouquecida de burocracia, por meio de definição de metas, tabelas de classificação, avaliações de desempenho, etc. Tal como no Estalinismo, tudo passa a estar orientado para a produção de aparências. Nestas condições, é inevitável que as pessoas tentem burlar o sistema. Como nos livrarmos do Estalinismo de Mercado? É necessário desmascarar uma das maiores mentiras do neoliberalismo: a ideia de que é uma força antiburocrática. Isso terá de envolver uma luta contra o domínio do management [managerialism], e por um local de trabalho baseado na autonomia colectiva dos trabalhadores […]. 

 

OT: Muito do que escreve no livro provém das suas experiências de trabalho como professor de educação complementar [Further education] […]. 

MF: A agenda maior aqui é a imposição daquilo a que chamei de ontologia empresarial [business ontology]: a ideia de que só os resultados reconhecidos pela esfera do negócio e do lucro contam. Foi-se tornando gradualmente aceite que o principal – senão o único – papel da educação é produzir o tipo de indivíduos complacentes que os “negócios” requerem. À medida que os sistemas oriundos do sector privado vão sendo gradualmente introduzidos na educação, a influência do management aumenta e o estatuto do professor é rebaixado. O pretexto para a profusão de técnicas burocráticas e de autovigilância que foram implementadas pelos sucessivos governos é o de que estas “aumentam a eficiência”, mas o seu efeito é espalhar a ansiedade e corroer a autonomia do professor. Isto não é um acidente: é o verdadeiro objectivo destas medidas. A educação foi encurralada na naturalização e intensificação da competição capitalista… Ensinar torna-se uma questão de preparar os alunos para os exames; tudo o resto é um luxo. […] 

 

OT: Um tema predominante no livro é a questão da doença mental nas sociedades capitalistas. Escreveu: “o que é necessário agora é uma politização de distúrbios muito mais comuns. Na verdade, é a sua própria universalidade que é o problema: na Grã-Bretanha, a depressão é agora a condição mais tratada pelo SNS”. […] Como podemos começar a reduzir o estigma, o isolamento e a vergonha que a nossa sociedade ainda atribui à questão da doença mental? Como podemos convencer as pessoas de que a sua causa tem raízes no colectivo, não apenas no individual? 

MF: Essa é uma questão crucial. A maneira como os problemas sociais e políticos são convertidos em patologias individuais, a serem explicados por meio de desequilíbrios químicos ou pela história familiar, resume bem muito do que aconteceu sob o realismo capitalista. É aquilo a que chamei de privatização do stress. A depressão tem sido descrita como uma patologia da responsabilidade: sentimo-nos profundamente responsáveis pelo estado em que nos encontramos. O paradoxo excruciante é que, enquanto sentimos que só nós próprios somos capazes de nos arrancar da depressão, a condição depressiva consiste precisamente na nossa incapacidade de agir. Há mais do que uma analogia com a descrença política e o fatalismo que caracterizaram o realismo capitalista. Afinal, a depressão é uma patologia que envolve um forte pendor realista (existe, aliás, um fenómeno chamado realismo depressivo): os depressivos pensam que estão a ser realistas, que perceberam como as coisas realmente são, despidas de qualquer ilusão. Isto descreve perfeitamente o teor pós-utópico do realismo capitalista: outras sociedades tinham as suas ilusões, os seus sonhos de algo para além do capitalismo, mas nós aprendemos a lidar com a inevitabilidade da competição e da precariedade. E no entanto, a depressão mostra até que ponto as pessoas – mesmo durante os anos do boom económico – não conseguiam lidar com a situação. Com o aumento da precariedade e a erosão dos programas de assistência social, não é surpreendente que haja um aumento da depressão e da ansiedade. Mas este aumento da angústia foi patologizado, neurotizado e rentabilizado ao longo dos últimos trinta anos. Em vez de recorrer aos sindicatos quando a nossa carga de trabalho se torna insuportável, somos convidados a procurar uma solução médica. Stressado por causa de muitas horas de trabalho? Tome este medicamento, que irá restituir o equilíbrio químico do seu cérebro. Preocupado em perder o emprego? Conte-me tudo sobre a sua mãe. Este é um grande exemplo do processo de naturalização que mencionei anteriormente. O que precisamos é de uma desnaturalização (e consequente politização) da doença mental. Acho que a formação de um grupo de pressão específico poderia funcionar nesse sentido. Precisamos de algo como uma reanimação do movimento Anti-Psiquiatria dos anos 60 e 70 do séc. XX. Ou de forma menos revivalista, de uma reocupação do terreno no qual a Anti-Psiquiatria travou as suas lutas; poderíamos argumentar que o retrocesso da Anti-Psiquiatria está intimamente relacionado com a ascensão do realismo capitalista. […] 

 

OT: Tem escrito bastante sobre como a cultura popular reforçou o Realismo Capitalista. Mostra-nos como a música pop e algum hip hop, e filmes como Children of Men e Wall-E, mesmo quando pretendem criticar a autoridade e o sistema, acabam apenas por passar a mensagem da sua inevitável perpetuação. Sente que existe muito nos trilhos da cultura popular que consegue subverter com sucesso o Realismo Capitalista? Que música, filmes e livros subversivos nos recomenda? 

MF: Não estou a dizer que não haja nenhum potencial político na cultura popular que discuto em Realismo Capitalista. Aquilo a que estava a apontar, porém, era o facto de que o anti-capitalismo ao nível da mensagem de um filme não faz nada em si mesmo para interromper a super-hegemonia do capital. Anti-capitalismo – ou pelo menos anti-corporativismo – é o padrão normalíssimo nos filmes de Hollywood: consideremos, por exemplo, algo como o Avatar. Esta é a ironia objectiva do capital: nada vende melhor do que o anti-capitalismo. Ou, de forma mais sombria, a cultura do capitalismo tardio é anti-capitalista. Existe uma assimetria: nós lutamos contra o capital, mas parte da derrota que o capital é capaz de nos infligir é que ele pode vender os nossos livros. Contudo, este não é um círculo completamente fechado. A questão está em como a cultura se conecta com as lutas em curso, e isso é impossível de prever. É possível que qualquer um dos filmes de que falei possa contribuir para o desenvolvimento da consciência de classe ou inspire as pessoas a mobilizarem-se e a envolverem-se. Por outro lado, é possível que mesmo aqueles filmes ou programas de televisão que inventariam as características do realismo capitalista acabem por reforçá-lo. Vejamos, algo como o The Wire: sim, a série exemplifica praticamente tudo aquilo que digo sobre o realismo capitalista, mas, precisamente por isso, seria possível dizer que defende o realismo capitalista, em vez de o subverter. Poderíamos facilmente retirar a mensagem de que lutar para mudar as coisas é inútil; o sistema vence no final. Mas um filme que eu recomendaria às pessoas, se ainda não o viram, é o Office Space de Mike Judge, que discuto brevemente em Realismo Capitalista: não conheço nenhum outro filme que capture melhor a miséria burocrática do trabalho realizado pelo management no capitalismo tardio. 

 

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