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12 - 15 Janeiro
Dinis Machado

A Sagração da Primavera – Memórias ternas de um afeto Queer

12 eur.
Artes Performativas

12 - 15 Janeiro

quinta a sábado 19h30 domingo 17h30

CLUBE ESPECTADOR
14 janeiro 19h30
Com moderação de Diana Niepce

Artes Performativas
Preço 12 eur.
Incluído no Passe Cultura (disponível apenas na Bilheteira do TBA)
Sala Principal
Duração 75 min.

Classificação Etária:

M/16

Coreografia, figurinos, cenografia e luz
Dinis Machado (ela)
Trilha sonora original
Odete (ela)
Dançado em Lisboa por
MC Coble (ile/ele), Ves Liberta (ela), Mia Meneses (ela), Ali Moini (ele) e Sumi Xiaomei Cheng (ile/ela)
Criado em colaboração e estreado com
MC Coble (ile/ele), Ves Liberta (ela), Mia Meneses (ela), Puta da Silva (ela) e Sepideh Khodarahmi (ile/ela)
Produção
BARCO / Dinis Machado em colaboração com Carol Goulart (ile/ele)
Coprodução
Teatro do Bairro Alto, Dansens Hus, Citemor / Teatro Académico Gil Vicente e MARC
Criado em residência
Teatro do Bairro Alto, DansInitiativet e MARC Projeto financiado por Kulturradet / Swedish Arts Council e Stockholmstad

DINIS MACHADO (ela) nasceu no Porto em 1987 e vive em Estocolmo desde 2012. Com formação em Dança e Artes Visuais, cruza essas duas áreas no seu trabalho artístico: onde o gesto concreto de construção plástica de objetos, espaços e corpos é trabalhado como material coreográfico. Numa perspetiva pós-somática, Machado propõe corpos mutantes que dançam não a partir da forma como são medicamente descritos, mas de como se concebem, se desejam, se imaginam e reivindicam para si próprios.

Sagração da Primavera – Memórias ternas de um afeto Queer nasce da minha relação paradoxal com a obra de Nijinski: por um lado, uma identificação com a sua organicidade construída, corpos e movimentos que parecem tão queer na sua forma de abraçar a ficção como identidade. Por outro lado, uma forte desconfiança em relação às narrativas bastante sexistas e heteronormativas que subjazem às obras.

Mais do que ser “sobre” alguma coisa, Memórias ternas de um afeto Queer constrói a sua dramaturgia estruturalmente através das formas utilizadas de trabalhar em conjunto, negociar o toque e oferecer a matéria do movimento entre bailarines. Ao mesmo tempo, o trabalho é a ativação de uma companhia que é uma alternativa ao contexto hegemónico da dança, que é frequentemente ocupado por corpos magros funcionais cisgéneros brancos. Se pensarmos nas técnicas de dança hegemónicas, elas são desenhadas e dependem substancialmente da homogeneidade desses corpos normativos. Formar uma equipa que reflete a multiplicidade de corpos que existem na sociedade, em termos de capacidade, peso, origem étnico-racial e género, mais do que produzir diversidade, é desfazer um separatismo de um ideal branco normativo.

A ternura é nesta peça emancipada de um entendimento “vanilla” e trabalhada para uma reinvenção da sua gramática como um vocabulário de possibilidades que ecoa os desejos, possibilidades e diálogos entre o grupo que dança a obra a cada dia. A relação desta Sagração da Primavera com o original de Nijinski passa por desfazê-lo como arquétipo e reconstruí-lo como exercício poético entre corpos específicos. A peça trabalha com a ideia de que os corpos não são equivalentes e namora o público ao convidá-lo a relacionar-se com uma comunidade ao invés de tentar uma identificação universal.

No processo de trabalho, adotámos uma estratégia de sedimentação coreográfica em camadas. Negociámos maneiras consensuais específicas pelas quais desejávamos ser tocades, convertemos a memória desse toque em movimento, descrevemos o nosso próprio movimento e o movimento alheio em partituras, oferecemos essas partituras para serem dançadas por outres performers.

Um espírito levanta os dois braços – alegremente suspensos. Os pescoços dobram-se, como quem diz que sim ou talvez que não. Os pés correm um com e contra o outro, os joelhos ligam-se a um cotovelo como um íman.
O outro cotovelo afasta-se para que a mão possa dizer adeus. Unhas acariciam o chão.
Há dedos que procuram freneticamente com um ruído suave mas audível. O vento escancara o corpo.
Os ombros estão instáveis mas os pés estão atolados.
A mão estica-se para as costas – há qualquer coisa presa entre as omoplatas. Faz com que a boca se mova ao ritmo das ancas.
As ancas por sua vez giram, mas os joelhos recusam.

Excerto de partitura de Sagração da Primavera – Memórias ternas de um afeto Queer

Usámos modos de escrever partituras em que o movimento é desmantelado e descrito por meio de intenções, motivações e dinâmicas, e não por meio de formas. Justamente porque partimos do princípio de que os nossos corpos não são equivalentes e, portanto, reencenar um movimento não é refazê-lo formalmente, mas sim revisitar a sua fonte, o seu problema de base, e reformulá-lo novamente através dos nossos corpos específicos. Então quando alguém de entre nós dança nesta peça, o corpo carrega todos esses outros corpos que estiveram envolvidos em cada fase da criação de cada partitura. Dançamos essas danças inúmeras vezes, formulando-as e decompondo-as em partituras-base de código potencial. Deste modo, tocar acontece literalmente na obra, mas também na forma como dançamos uma dança que veio de outro corpo e vai ser oferecida ainda a um outro. Também pela prática e responsabilidade de olhar para o outro corpo e descrevê-lo de uma forma mais próxima de como este se entende. Pode a maneira como olhamos para os outros ajudar a tornar os seus eus desejados mais tangíveis?

Memórias ternas de um afeto Queer funciona através da redefinição de quais são os corpos e movimentos em cuja prática vale a pena investir. Focamos e tentamos praticar um virtuosismo que centraliza corpos frequentemente vistos como incompletos, antinaturais, marginais ou outros, e movimentos frequentemente vistos como indefinidos ou obscuros. Tentamos tornar-nos especialistas nestas gramáticas intersticiais e difíceis de nomear. Convidamos quem vê a abrir mão de um olhar focado na interpretação e a abraçar antes um estado de contaminação.

Trabalhámos paradoxalmente, revisitando o estruturalismo, o conceptualismo e o minimalismo e, ao mesmo tempo, questionando de uma perspetiva queer as suas ideias essencialistas de verdade. Porque de uma perspetiva queer, as nossas ficções e os nossos desejos são mais a nossa verdade do que a nossa materialidade e as nossas contingências.

Como penso que será visível no desenho de luz da peça, sinto que esta obra constrói totalidades a partir de elementos complementares parciais e polidirecionais. Não é por acaso que reescrevemos a forte estrutura uníssona da coreografia de Nijinski noutras formas de estar juntes bem mais imateriais. Uma coletividade que não almeja ser imaculada ou simular perfeição, mas antes abraça as suas cicatrizes, os seus conflitos, as suas dissidências, e que vive da construção paralela, e nem sempre pacífica, do “eu” e do “coletivo”. Um coletivo que não é uma negociação simplificada de dois polos mas antes a articulação complexa de uma rede explodida de inúmeras constelações de identidades-puzzle.

Memórias ternas de um afeto Queer funciona como um labirinto de movimento em que es performers tanto fazem parte da construção como são atravessades por ele. Tenta construir um ritual específico, negociado por e para corpos particulares, entre o que podem, o que querem e aquilo com que se sentem confortáveis. Trata-se de negociar o “eu” que desejamos e construir a comunidade possível na qual esse “eu” se possa materializar e existir.

Dinis Machado

Os corpos de cinco performers queer atravessam-se entre si. Cuidam, desafiam e aprendem em conjunto. Carregam, dobram, abandonam, aquecem, perfuram, pesam-se sob diferentes sistemas de regras misteriosas. Dançam numa circularidade entre ação, descrição e reconstituição de movimento des outres, partilhando e reformulando esse circuito de movimento graças a mecanismos de ser idiossincráticos. Uma musicalidade emerge das metamorfoses desses corpos, ao invés de variações rítmicas. Seguem esse tempo com uma precisão que resiste à sensação e com uma intimidade estranha à autoridade. Esses corpos questionam ideias dominantes de liberdade como um território sem regras. Propõem antes liberdades várias através das formas específicas como se tocam e se deixam tocar.
Nesta Sagração da Primavera, ninguém é eleite para o protagonismo e a beleza não é consumida orgasmicamente em direção à morte. Não se mata ninguém nem se tira a própria vida. Em vez disso, esta dança permanece coletiva, emancipando-se da necropolítica histórica onde se projetam de forma fetichista premonições trágicas sobre vidas queer.

Dinis Machado

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