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08 - 18 Julho
Thornton Wilder / Auéééu, Os Possessos e Teatro da Cidade

A Nossa Cidade

Teatro

Texto Our Town (1938) de Thornton Wilder
Criação e produção Os Possessos, Auéééu – Teatro e Teatro da Cidade
Tradução João Pedro Mamede e Catarina Rôlo Salgueiro
Criação e interpretação Beatriz Brás, Catarina Rôlo Salgueiro, Filipe Velez, Guilherme Gomes, Leonor Buescu, Isabel Costa, João Silva, Joana Manaças, Miguel Cunha, Nídia Roque e Sérgio Coragem
Produção Raquel Matos
Estagiária de apoio à criação e assistente de produção Joana Silva
Desenho e operação de luz Rui Seabra
Desenho de som André Carinha Mateus e José Neves
Operação de som André Carinha Mateus
Cenografia, adereços e figurinos Bruno Bogarim
Coprodução Teatro do Bairro Alto e Teatro Viriato
Residência de produção O Espaço do Tempo
Fotografias Bruno Simão
Projeto apoiado pela República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes

CLUBE ESPECTADOR DIGITAL
12 julho 18h
No Zoom do TBA com José Maria Vieira Mendes

SESSÃO ACESSÍVEL
18 julho 17h
Sessão com audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa

Nada do que os vivos digam acerca da morte poderá referir-se à morte tal como ela haverá de ser experienciada pelos que morrem. Nada do que os mortos sabem sobre a morte pode ser comunicado aos vivos. Sobre este inquietante abismo, a tragédia constrói uma frágil ponte de imaginação.

Howard Barker, Death, The One and the Art of Theatre

 

Cidade norte-americana criada por Thorton Wilder, Grover’s Corners aparece situada próxima de montanhas e de lagos, com uma forte presença protestante que organiza e sectoriza o tecido urbanístico – ali a Igreja Congregacional, do outro lado da rua os presbiterianos, os metodistas e os unitários por ali e os batistas à beira-rio. Todos estes afastam católicos e estrangeiros, que estão confinados a áreas que ficam para lá dos caminhos-de-ferro. Pincelada em tons pastel, esta cidade parece mergulhada numa rotina que não faz grande mossa, obediente e atenta; onde as tensões sociais parecem cingir-se à trapalhice dos inadaptados, alimento para os boateiros da comunidade, e onde as preocupações intelectuais e culturais da população não parecem ir muito além da observação da mudança das estações do ano e da leitura da Bíblia. “Uma cidade vulgar”, diz-nos o editor Webb.

Assim, a seco, Grover’s Corners pareceu-nos um lugar distante e alheio à nossa realidade. Mas insistimos, tentando construir a ponte imaginada que refere Howard Barker – um engenho que nos permitisse desenhar uma topografia da nossa cidade. Apesar da sua fragilidade, esta ponte foi forte o suficiente para, com o tempo e a sua maturação, fazer erguer as fundações do nosso espetáculo. Durante os meses de construção do espetáculo, onze atores tiveram de se entender e de criar em conjunto sem nunca definir uma hierarquia de criação. Como se olha para a cena, quando todos se encontram em palco? Como são tomadas as decisões? Uns invocam um determinado sentido, outros tendem a rejeitá-lo. A primeira possibilidade de espetáculo começou por falar-nos sobretudo deste encontro: lidando com a divergência, com a diferença, exigindo um apuramento da escuta do outro, convocando a cedência, a discussão, o conflito.

Resolvemos trazer para cena uma visão polarizadora, mas sincrética, entre o registo e a revelação, entre o inteligível e o subentendido – demonstrado através da observação geral do palco e pormenorizada do vídeo. Esta divisão atua numa dupla perspetiva: ao mesmo tempo que é uma divisão de espaços, o fora e o dentro de cena, é também uma divisão entre cenas captadas pela câmara e cenas enquadradas pelo dispositivo teatral mais tradicional. O dispositivo da câmara e do teatro atuam como dois elementos que se alimentam e ganham novos significados a cada momento. A resolução deste dispositivo cénico levou-nos a uma refrescante motivação conjunta, resultado de uma intensa atividade e discussão constantes – e sempre polifónicas – ao longo do processo de criação coletiva.

O tempo que nos é dado viver é pouco. Se repetirmos as mesmas cenas do espetáculo todas as noites, sabendo que as fazemos sempre de forma imprevista, quase podemos acreditar também que, como os mortos de Wilder, podemos escolher um dia das nossas vidas e voltar a vivê-lo. Se a isto somarmos a possibilidade de fazer as cenas sob três perspetivas (ação teatral, ação cinematográfica e corpo dobrado por outra voz) ou subvertendo, a determinada altura, regras que nós próprios criámos para o espetáculo, então podemos de facto voltar atrás na vida, e viver em dois ou três tempos simultaneamente. E, então, ao contrário do que nos mostra Thornton Wilder e como diz Walt Whitman, “(…) devíamos, na realidade, suspeitar da morte.”

E eis que, apesar da primeira estranheza, o texto de Wilder revelou-se-nos, entretanto, finíssimo, de uma tremenda subtileza: o que à primeira vista parecia superficial, acabou por se metamorfosear com a insistência do olhar atento e repartido entre a câmara e o palco – permitindo-nos, no fim de contas, descobrir o essencial: o sentido trágico das pequenas coisas, aquilo que “eles não compreendem”.  Acreditamos que, com a sobreposição de camadas em cena, tentamos estilhaçar o tempo, fracionar a ação, tecendo uma malha de reflexão coletiva. É curioso pensar como A Nossa Cidade se foi entranhando nas nossas vidas – e as nossas vidas neste texto – sem darmos por isso, transformando-se num belo exercício sobre aquilo que, à partida, nos era invisível. E transformou-se também numa convicção: que mesmo com a dúvida e a reticência, é sempre possível criar, construir – procurando compreender.

Grover’s Corners não será, afinal, um lugar assim tão longínquo. Precisaremos talvez de algum tempo para conseguirmos olhar para o que isto foi. Para já, fica este espectáculo.

Auéééu, Os Possessos e Teatro da Cidade

 

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