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17 Outubro
Felipe Ribeiro

A Erótica do Explícito

5€
Discurso
Uma semana de propostas de Discurso

17 Outubro

dom 17 out 17h

Preço Preço único 5€
Sala Principal
Duração 30min

Felipe Ribeiro é artista da imagem, curador independente e professor de dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A sua experiência com cinema experimental levou-o a uma investigação mais recente em que associa as artes do vídeo à performance duracional e à Land Art. É também um dos fundadores e diretor artístico da plataforma de pesquisa e curadoria Atos de Fala, que desde 2011 se dedica a expor e experimentar relações múltiplas entre a performance e o texto.

Condições de acesso
• Haverá medição de temperatura sem registo à entrada do espaço. É obrigatório o uso de máscara dentro do edifício antes, durante e depois das sessões
• Desinfete as mãos e adote as medidas de etiqueta respiratória
• Mantenha a distância de segurança e evite o aglomerar de pessoas
• Traga o seu bilhete de casa ou, caso tenha mesmo de comprar o bilhete no TBA, escolha o pagamento contactless por cartão de débito ou MBway.
• Coloque as máscaras e luvas descartáveis nos caixotes de lixo indicados
• Nas entradas e saídas, siga as recomendações da equipa do TBA
• Não é possível alterar o seu lugar após indicação do mesmo pela Frente de Sala.

 

A Epistemologia do Esculacho (dois excertos)[1]

 

Deize Tigrona é cria da Rocinha, uma favela conhecida por ser a maior da América Latina, e vizinha ao abastado e litorâneo bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Em 2003, Deize viu seu destino de empregada doméstica mudar crucialmente ao se tornar uma das primeiras e mais populares vozes femininas no funk carioca. Produzida por DJ Marlboro, responsável pela disseminação do gênero em território nacional (e além), Deize subia aos palcos da Furacão 2000. A renomada equipe de funk existe desde os anos 1970 e, ao longo dos anos, entre diferentes configurações e nomes, manteve a referência ao ano 2000 no título, como se garantindo a participação do funk Carioca nas narrativas afro-futuristas. Além de Deize, DJ Marlboro também produzia Tati Quebra-Barraco.

Se o “Futuro é Feminino”, seus desafios tornam-se ainda mais profundos quando essa referência é também negra. Enquanto a presença e voz de Deize suscitava uma série de novas questões, críticas severas abundavam de todo canto, variando desde acusações de auto-objetificação sexual nas suas letras à redução de seus actos e discursos como mera misoginia reversa. Ao que parece, o machismo sistêmico dos bailes funk, e de tudo o que orbita em seu entorno, obliteram nestes críticos a capacidade de perceberem que havia uma mudança acontecendo por dentro do contexto e acionada justo pelas mulheres, alvo preferencial de violência e opressão. Demorou aproximadamente uma década até que progressistas e pensadores feministas entendessem consistentemente que ali se desenhava um feminismo interseccional que passava ao largo dos movimentos sociais e do pensamento acadêmico, para ganhar corpo a partir do gênero musical mais marginalizado da cidade.

A história do funk Carioca acumula ataques de inúmeras naturezas, seja pela difamação, seja pela tentativa de proibição, e atualmente pela via regulatória estrita que praticamente inviabiliza a existência dos bailes nos termos da lei. O destino do funk, neste sentido, espelha o passado do samba, que até ser apropriado como símbolo nacional, teve os seus compositores tachados de vadios, e seus encontros criminalizados.

Procuro me engajar empiricamente no fluxo que um extenso grupo de cantoras engendra e que reconfigura o Funk Carioca[2]. Minha posição é de apoio a todo procedimento de transgressão que se opõe à opressão. No entanto, percebo que contribuo de maneira mais efetiva ao não eliminar as contradições de seus discursos. Ao contrário, opto por surfar nos paradoxos que daí se revelam, e que são, tanto quanto, generativos de seus discursos. Se, como sabemos, performativos podem operar certas introjeções normativas, meu interesse primordial nas relações entre acto e discurso está em identificar através do funk a diagramação de um feminismo negro e favelado que se constrói pela mobilização textual e erótica dos órgãos, em versos cantados tanto quanto nas coreografias que deles se desdobram.

 

II

 

A REENCENAÇÃO GAY

Em 2003, assisti ao choque de minha mãe ao se deparar com funks putaria tocando no aparelho de CD na sua sala de casa, graças à minha irmã e ao meu irmão. Ao mesmo tempo em que éramos obrigados a aprender a lidar e debater a hiperssexualização de pré-adolescentes, eu participava da noite eletrônica carioca, especialmente na boate Dama de Ferro, em Ipanema. Ali ouvi pela primeira vez a Tati Quebra-barraco e vi o funk feminino se associando, pela pista de dança, ao movimento queer. O Dama de Ferro fez do segundo andar um enorme banheiro. A pia ficava no centro da pista e ao redor estavam pequenas cabines privadas. A arquitetura associada à música e ao ectasy era a combinação toxicológica perfeita para a pegação coletiva e os experimentos plurissexuais. O Dama de Ferro ficava num endereço nobre da Zona Sul da cidade, entre Ipanema e Lagoa, e a invaginação esculachada do patriarcado era celebrada e estimulada em nossos corpos.

Mas foi alguns anos depois, em outra boate gay, Sal e Pimenta, localizada na Lapa e frequentada pela classe baixa trabalhadora, que conheci o grupo de queerpunkfunk Solange, tô Aberta! À época ainda não tinha ouvido falar em Monique Wittig, mas o show de Solange me arrebatou como a mais óbvia constatação de que a heterossexualidade não é mesmo compulsória. Escrevi um e-mail viral no dia seguinte:

 

Queridos!

 

Essa cidade não cessa de nos apresentar seu vigor, reinventando movimentos culturais e investindo tão fundo no seu cerne que o insustentável se nos apresenta sólido. É assim o funk dessa cidade, esse funk confronto, que de tanto cantar o senso comum dos gêneros sexuais, esvazia-os de si mesmos e torna-os mero discurso hiperbólico. É por sua definição mais tosca e sexista que percebemos o fracasso do heterossexualismo.

 

O desejo quanto menos categórico e mais categorizado tende sempre para fissura. Da definição, o desejo é sempre o corte. Mesmo no funk, em que a virilidade fálica insiste em através do discurso confinar atuações, insiste em psicanaliticamente afirmar o poder do pau, o poder do pai, mas é também justo por isso mesmo que escorrega e quanto mais duro tenta, e o funk tenta (!), delimitar quem pode o quê, mais as pessoas não se deixam capturar.  É que o fascismo sexistofálico é tão absurdo que o próprio discurso não consegue de todo afirmar o seu sentido direto.

 

Nem por isso ele está livre de problemas, nem por isso o funk é um movimento que traz em si esta própria consciência reflexiva. Quanto menos se pensa nos limites mais se acredita neles. Assim não garanto que o funkeiro macho-sexista percebe que cantar sua superioridade fálica heterossexual é pertencer ao fechado circuito homossocial. Ele goza sem querer perceber que o gozo do discurso é dirigido ao seus parceiros – como eles chamam aos amigos. O funk que cantam é um confronto em que um mede com prazer o pau do outro transformando o homoerotismo numa prova competitiva e esportiva. E na verdade, não tenho nada contra quem tem fobia do homo- e preferira o hetero-. Mas para afirmar a vivência do hétero- há de ser estratégico e fazê-lo direito. Há de se largar o homossocialismo fálico e fazer-lhes aguentar suas pregas sujas inerentes a todos nós. Aí não adianta a bravata irônica e infantil de lacraia, nem o sapateado velho oeste de pula viadinho.

 

Há sim que se jogar no queerpunkfunk e com eles gozar de todo fracasso. Há de se começar reenquadrando o viril, como Pedro e Paulo, de Solange Tô Aberta. No palco os dois jogam no lixo qualquer sex appeal para o outro de gênero. Tudo é mais embaixo, e concreto. O “cu é um buraco, que todo mundo tem. (e até o papa tem)” O comportamento viril é aqui o de se estar pronto para qualquer parada. Adoraria poder usar a palavra disponível, como se eles estivessem disponíveis para o que der e vier, mas pensando neles isso pareceria puro romantismo, e assumiria uma conotação muito pouco agressiva, o que definitivamente não lhes é o caso. O estar pronto significa aqui friccionar tenazmente em todo o contato. Se tudo é mais embaixo é por que tudo tem peso, e não há sublime possível – e talvez, justo por isso, surja-nos o sublime, de sua própria inadvertência. Eles falarem do cu não importa só por fazer do passivomotivo de orgulho – afinal isso já vislumbrava-se desde as apropriações queer dancings de Tati quebra-barraco e Dayse da Injeção. Saber usar o cu é fundamental, pois deflagra que não é da virilidade ser monumental. A grande ordem não é a do falo, menos ainda de onde lhe falta.  Há uma troca da forma pela força que impregna também o discurso.  A polaridade biológica macho-fêmea importa menos como polar e mais como cheiro. Solange Tô Aberta é a sujeira de gêneros, essa indefinição de formas, o buraco negro de sentidos. O homossexualismo com Solange é o fracasso. Talvez seja esta a maior potência de seu cantar sofista. Elas cantam o fálico apropriando-lhe com o cu. É o funk machista, é a música de Rodeio, é a chupação de uva do forró, e o funk pós-feminista. Nada ali, é mais sobre o pau e a xoxota, ou sobre a xoxota como o pau-em-falta, mesmo que Solange os cante nas letras – o que é até melhor, pois que besteira seria negá-los. O que importa é mesmo o cu, instrumento de voz, órgão que entona o discurso de Solange Tô Aberta. Eles metem sim no cu do Freud como bem cantam. E metem dentro, de verdade, não é metáfora. Só que metem nele com o que resta dele, o seu discurso. “O cu é um buraco que todo mundo tem”, e como um buraco está ali para transar formas e não para ser a forma. O buraco é só campo de forças. ele trava, ele quebra, ele expurga, ele recebe, ele não define. Ao mesmo tempo, é em “o cu como um buraco que todo mundo tem” que entendemos a grande política contemporânea. Não é mais um caso de maioria, mas sim um caso de unanimidade, e ela por si só não resolve nada, mas deixa todo o resto a ser resolvido. Todo discurso em prol do igual perde força, o homo- diminui, o que importa frente a ele é sempre o hétero-, a heterodoxia.

Beijos, Felipe[3]

 

Essa triangulação do movimento queer, punk e funk me pareceu a junção mais potente de pensamentos contras-soberanos, uma continuação fenomenal do funk carioca e sua invaginação de gêneros. Principalmente quando o ambiente dos bailes era tão heterocentrado.

Ao longo dos anos, o movimento Funk tem se deparado com inúmeras pressões de desconstrução e o discurso pós-feminista tem se ampliado e fortalecido as subjetividades que se identificam com o feminino de maneira exponencial. No entanto, no que diz respeito as dissidências de gênero queer, me parece que ainda há um longo caminho pela frente. Algumas funkeiras surgiram afirmando o desejo lésbico, e a transexualidade. Mas sua ascensão na carreira, invariavelmente fizeram-nas migrar do funk Carioca a outros gêneros mas economicamente assimiláveis.

 

[1] “A Epistemologia do Esculacho” é um capítulo Ruminações: a arte de performance entre o prazer e a resistência de Felipe Ribeiro (no prelo, editora Circuito, São Paulo).

 

[2] A localização geopolítica do termo, distingue o que chamamos de Funk no Brasil em relação a denominação deste gênero mundo afora. Funk carioca é comumente identificado por uma batida frenética de 130BPM, e até mesmo mais forte em alguns casos. Apesar de surgido como um desdobramento da música Funk norte-americana, o Funk Carioca desenvolve na sequencia um compasso próprio.

[3] E-mail publicado no esquizotrans em 29.10.2008

Esta conferência-performance (ou DJ-lecture) centra-se no erotismo dos funks brasileiros pós-feministas, extravasado em voz, versos e corpo. Ao atrelar descrições pornográficas a bom humor e gestos obscenos, o canto gritado das cantoras funkeiras cariocas torna-se uma forma vigorosa de desestabilizar o machismo estrutural que impera nos bailes e além deles. Que tipo de episteme de confronto é essa que se constrói no gozo e subvertendo as lógicas que por tanto tempo as objetificaram? Como acabam estes atos de terrorismo erótico por ter também impacto na cena queer?

 

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