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11 - 12 Fevereiro
Alexandra Bachzetsis

2020:Obscene

Artes Performativas

2020:Obscene recorre a meios da performance para explorar as interdependências entre “cena” (atuação e encenação) e “obsceno”. Centra-se na relação entre a mise en scène do corpo excessivo e o seu consumo pelo olhar cobiçoso. Por um lado, a obra analisa os problemas do teatro enquanto máquina de manipulação no que respeita a sedução, atração e jogo na sexualidade (referências: Marquês de Sade, Salvador Dalí, Mike Kelley); por outro lado, explora o próprio corpo performativo enquanto lugar de alienação (referências: Yvonne Rainer, Yves Klein, Yoko Ono, Méret Oppenheim).

As intérpretes são confrontadas com a sua própria corporalidade – por outras palavras, com contradições entre intuição e gesto, partitura e guião, padrões conceptuais e padrões de ação. Esse confronto acontecerá por meio de um questionamento dos formatos estéticos consagrados, como a peça de dança, a peça de teatro, a performance artística, o concerto, o talk show, o filme, o live streaming o vídeo clip e a documentação. Desta forma, o trabalho não só questiona a subversão e a norma na prática performativa, mas também aborda a comunicação através do excesso enquanto interrupção performativa de formatos, gestos e arquétipos.

A relação entre “cena” e “obsceno” analisa uma história longa e inspiradora na filosofia linguística, sociologia, teoria cultural e teoria da arte. Jean Baudrillard usa “obsceno” como termo cultural-crítico que caracteriza a nossa sociedade global como estando inteiramente submetida à mediatização e onde a mediação se tornou uma realidade. Para interpretar a obscenidade enquanto comunicação pura que põe em perigo a visibilidade, Baudrillard propõe distinguir obsceno e cena: “É óbvio que cena e obsceno não têm a mesma etimologia, mas é grande a tentação de aproximá-los. Pois, a partir do momento em que há cena ou palco, há olhar e distância, jogo e alteridade. […] Por outro lado, quando se está na obscenidade, deixa de haver cena ou palco, jogo, e o distanciamento do olhar se extingue.” (Jean Baudrillard, Chaves, Difel, 2001, p. 29). Baudrillard define, assim, a obscenidade como a perda da cena, a qual é aqui entendida como um espaço em que nos podemos deslocar e de que nos podemos distanciar, que proporciona um exterior e, como tal, representa a condição fundamental de liberdade. Com o surto de obscenidade, que é manifesto na concentração total de imagens mediáticas, perdem-se as formas de jogar à distância e, assim, de refletir, explica Baudrillard. Ele tem uma determinada conceção de cénico, para a qual a distância crítica é decisiva por permitir ao espectador assuma uma posição. Ainda que esta definição de cénico englobe todas as formas do teatro de alienação, não remete para formas teatrais excessivas, performance radical ou instalações que constituem uma referência fundamental para Alexandra Bachzetsis. A peça de Luigi Pirandello Seis Personagens à Procura de um Autor, que revolucionou o teatro há cem anos, constitui um ponto de referência estrutural no que diz respeito ao conteúdo. Enquanto Pirandello, em 1921, falava da realidade das personagens de palco como algo que não era possível retratar pela interpretação ilusória dos atores, Bachzetsis, em 2020, revela a natureza problemática da obscenidade enquanto pura visibilidade que, ainda que já não possua referentes na realidade, pode ser apresentada em palco através de uma interpretação excessiva. Desconhece-se ou é considerada incerta até hoje a etimologia de “obsceno” e isso transformou-se num impulso importante para o envolvimento da fantasia em explicações da palavra. Particularmente para os estudiosos que investigam o obsceno na arte, o significado de obscena em latim enquanto “[algo que] se encontra fora da cena/do palco” revelou-se especialmente atraente. Ainda que se procure em vão por “exterior” ou “para lá” entre os significados da proposição latina ob, a recorrência da ligação entre os dois termos levou a um uso da palavra obscena que envida esforços para explicar o obsceno como algo que não se deve mostrar em palco. A historiadora de arte Lynda Nead aplicou o significado metafórico de obsceno à análise de arte no contexto do nu feminino. No seu livro The Female Nude: Art, Obscenity and Sexuality, [O Nu Feminino: Arte, Obscenidade e Sexualidade] publicado em 1992, escreve o seguinte: “A moldura é uma metáfora para a ‘encenação’ da arte, tanto em termos de rodear o corpo com estilo como de marcar o limite entre arte e não-arte, ou seja, obscenidade. Aqui, a etimologia parece confirmar a metáfora. A etimologia de obsceno é discutível, mas pode ser uma modificação do latim scena, significando literalmente o que se encontra fora ou ao lado do palco, para lá da apresentação. Nesse contexto, a dupla arte/obscenidade representa a distinção entre o que se pode ver e o que se encontra simplesmente para lá da representação.” (Lynda Nead, The Female Nude: Art, Obscenity and Sexuality, Taylor & Francis, 1992, p. 25.)

Alexandra Bachzetsis é uma coreógrafa e artista visual estabelecida em Zurique (Suíça). O seu trabalho desenvolve-se no cruzamento entre dança, performance, artes visuais e teatro, fazendo confluir os espaços em que o corpo, enquanto dispositivo artístico e crítico, é capaz de se manifestar. Esta abordagem essencialmente interdisciplinar reflete a sua formação. Estudou e licenciou-se na Escola de Artes de Zurique e na Academia de Teatro Dimitri em Verscio (Suíça), completou o Programa de Educação em Performance do centro de artes STUK em Lovaina (Bélgica) e fez uma pós-graduação no Das Arts, o centro de pesquisa avançada em estudos de teatro e dança em Amesterdão (Países Baixos). Durante os anos de formação, Bachzetsis começou a trabalhar como bailarina em dança e performance contemporâneas, colaborando com Sasha Waltz & Guests (Berlim) e les ballets C. de la B. (Gante), entre outros. O trabalho de Bachzetsis foi desde então influenciado por colaborações, transferências e uma pluralidade de vozes e corpos, que são frequentemente usados como método para ela desenvolver novas criações.

Muito do trabalho de Bachzetsis envolve coreografias do corpo e particularmente a forma como a cultura popular providencia matéria-prima para gestos, expressões, identificações e fantasias à medida que criamos e recriamos continuamente os nossos corpos e a forma como nos identificamos. Neste âmbito, ela escrutina a influência mútua entre o uso do gesto e do movimento nos géneros “popular” ou “comercial”, por um lado (meios de comunicação online, vídeo clip e televisão), e nas “artes”, por outro lado (bailado, dança moderna e contemporânea e performance). Para Bachzetsis, a relação artificial e frequentemente precária entre tais géneros gera um questionamento do corpo humano e do seu potencial de transformação, seja conceptual ou efetivo. Em última instância, a forma como todos interpretamos e encenamos os nossos corpos e nós mesmos – através de estereótipos e arquétipos, através de escolhas e lugares-comuns, através de labor e espetáculo – é uma questão que continua a definir o trabalho de Bachzetsis.

Desde que começou a trabalhar de forma independente em 2001, criou mais de 24 peças, muitas vezes em colaboração, que foram apresentadas em teatros, festivais e espaços públicos em todo o mundo. Para além disso, o seu trabalho foi mostrado em vários espaços e museus de arte contemporânea, incluindo o Kunsthalle Basel (Basileia, 2008), Museu Stedelijk (Amesterdão, 2013 e 2015), Tate Modern (Londres, 2014) e Museu Jumex (Cidade do México, 2014), assim como em numerosas exposições internacionais, como a V Bienal de Berlim (Berlin, 2008), documenta 13 (Kassel, 2012) e a Bienal das Imagens em Movimento (Genebra, 2014). Bachzetsis foi nomeada para o prémio DESTE (2011) e recebeu um prémio dos cinquenta anos da Migros-Kulturprozent (2007), o Prémio de Arte Suíça (2011 e 2016) e o Prémio de Arte Performativa Suíça (2012). Em 2017, Bachzetsis participou em O Parlamento de Corpos e Contínuo, programas públicos da documenta 14. Em janeiro de 2017, apresentou Massacre: Variations on a Theme no MoMA de Nova Iorque. Mais tarde nesse ano, o seu trabalho foi incluído nas exposições da documenta 14 em Atenas e Kassel. Apresentou as suas performances Private Song e Private: Wear a mask when you talk to me no High Line em Nova Iorque e em Serralves. Esta última, também apresentada no Teatro Maria Matos em Lisboa (2016). Apresentou a exposição individual An Ideal for Living (2018) no Centro Cultural Suíço de Paris e estreou a performance Escape Act (2018) no Pact Zollverein em Essen (Alemanha). O seu anterior trabalho, Chasing a Ghost (2019), foi uma encomenda do Instituto de Arte de Chicago e tem estado em digressão na Europa.

 

Texto de Hendrik Folkerts, parcialmente reproduzido no Sikart, um léxico de arte na Suíça disponível em www.sikart.ch.

Conceito e coreografia Alexandra Bachzetsis
Colaboração, conceito e palco Sotiris Vasiliou
Colaboração, conceito e dramaturgia Dorota Sajewska
Criação e interpretação Alexandra Bachzetsis, Owen Ridley-DeMonick, Tamar Kisch e Sotiris Vasiliou
Desenho de som Tobias Koch
Figurinos, pesquisa e aconselhamento conceptual Christian Hersche, Ulla Ludwig e Laurent Hermann Progin
Conceção de comunicação Julia Born
Fotografia Melanie Hofmann
Cabelos e maquilhagem/sessão fotográfica Delia Sciullo
Direção técnica e desenho de luz Patrik Rimann
Produção e digressão Association All Exclusive, Regula Schelling e Franziska Schmidt
Assistência de produção Juliana Simonetti
Apoio Acordo de apoio cooperativo entre a cidade de Zurique, o Cantão de Zurique, e Pro Helvetia—Swiss Arts Council, Ernst Göhner Stiftung, Ernst und Olga Gubler-Hablützel Stiftung e Jacqueline Spengler Stiftung
Coprodução Kunsthaus Zürich, Kaserne Basel, Dampfzentrale Bern, L’Arsenic – Centre d’art scénique contemporain Lausanne, ADN Neuchâtel, Tanzquartier Wien e Gessnerallee Zürich.
2020:Obscene é uma coprodução no âmbito Programmers’ Fund of Reso—Dance Network Switzerland, com o apoio de Pro Helvetia—Swiss Arts Council
Agradecimentos Delgado Fuchs, Jia-Yu Corti pela participação na pesquisa Open Studio; Bernhard la Dous, Charlotte Holstein (produktionsDOCK), Alban Schelbert e Jon Brunke
Texto a partir de diálogos retirados das obras Symbiopsychotaxiplasm: Take One (1968) de William Greaves, Crave (1998) de Sarah Kane, Angels in America (1991) de Tony Kushner e Attempts of her Life (1997) de Martin Crimp. Clique para ver a tradução.

2020:Obscene é o título da obra para a qual desenvolvi a metodologia de trabalhar em Estúdio Aberto no meu estúdio em Zurique. Visto acreditar na prática artística ao invés de acreditar no treino ou ensaio na preparação para uma estreia, queria que esta experiência se desenrolasse diariamente ao longo de todo o processo de construção e criação deste novo corpo de trabalho coreográfico. As sessões de Estúdio Aberto tiveram lugar de forma periódica ou esporádica e estiveram relacionadas com a complexidade atual da situação de COVID-19.

No formato intitulado Sessão, a pesquisa artística foi explorada e testada com uma audiência pequena e íntima. Dada a versatilidade de uma estrutura de ensaio esporádica, e também a produção de material coreográfico, decidimos manter a ideia de formatos diferentes para apresentar o corpo de trabalho inteiro e aperfeiçoar os formatos individuais em separado.

Em 2020:Obscene, trabalhamos com uma pluralidade de vozes e camadas de mediação. A sobreposição de materiais que usam citações e fragmentos, como diálogos, cenas e imagens retiradas da literatura, do cinema, do teatro, das artes visuais e da música, forma uma estrutura episódica de sobreposição.

Os capítulos ou episódios distinguem-se por títulos individuais com personagens específicos, tais como: Vingança – Noite – Jogos da Boneca – Amor.

Cada um tem um desenvolvimento e uma dramaturgia idiossincráticos. Mas juntos formam uma peça épica que culmina em 2020:Obscene. Esta explora a relação entre a mise en scène e o corpo excessivo. São examinados problemas do teatro enquanto máquina de manipulação no que respeita a sedução, atração e jogo na sexualidade assim como o próprio corpo performativo enquanto lugar de alienação.

Enquanto estratégia de movimento, trabalhamos com a questão do culto exagerado do corpo. Esta matéria desloca-se por natureza. Revela-se no corpo singular, no corpo exposto ou íntimo, no corpo partilhado ou celebrado, mas também se dirige a um público mais vasto com formas de mediatização como plataforma de identificação e mercantilização da construção do desejo e da fantasia.

 

Alexandra Bachzetsis

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