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“There’s no such thing as society”

Ao longo dos próximos meses, o Teatro Maria Matos
e os seus parceiros da rede House on Fire irão dedicar atenção ao ressuscitado debate sobre o individual
e o comum.

De certa forma, a tensão entre o indivíduo
e a comunidade tem sido um tema central em todo o pensamento político-filosófico desde A República de Platão, perfazendo um movimento pendular ao longo dos séculos. Depois da implosão dos regimes comunistas, anunciou-se sem rodeios o fim da História — a resolução final do debate milenar entre os defensores do individualismo e os pregadores das comunas — em favor do individualismo da sociedade do consumo. Mas apenas duas décadas depois, o desastre ecológico e uma crise económico-financeira de proporções globais estão 
 abalar a anunciada nova ordem mundial.

Com as devidas diferenças locais, os parceiros da rede juntam esforços nas suas aproximações ao tema, através de um programa ambicioso de encomendas e coproduções internacionais, envolvendo artistas de toda a Europa, Ivana Müller (Croácia/França), De Warme Winkel (Holanda), Christophe Meierhans (Suíça/Bélgica), Nadia Tsulukidze (Georgia/Holanda) e Roger Bernat (Catalunha).

 

Em Lisboa, sob o título There’s no such thing as society, a famosa frase de Margaret Thatcher que sintetiza o pensamento neoliberal dos anos 80, procuramos uma aproximação ao dualismo individual-comum em quatro etapas: introdução (setembro 2013), solidariedade (dezembro 2013), fraternidade (março 2014) e liberdade (abril 2014). Em cada uma destas etapas, colocamos pontos de interrogação junto das premissas da Revolução Francesa que têm formatado, ao longo dos últimos dois séculos, os contornos do debate sobre o indivíduo
e o comum.

A nossa primeira aproximação ao tema é artística. Entre 18 e 22 de setembro, apresentamos a peça In Common de Ivana Müller e dois dispositivos performativos ativados pelos próprios espectadores: We are still watching, também de Ivana Müller, e Re-presentación: Númax 1979 do artista catalão Roger Bernat.

No dia 28 de setembro, o psicólogo social alemão Harald Welzer apresenta o seu projeto Futuro 2.0, encerrando a primeira etapa deste ciclo com um apelo extraordinário à ação individual e coletiva.


Há algo profundamente errado na forma como vivemos atualmente. Há trinta anos que consideramos uma virtude a persecução dos interesses materiais próprios: de facto, essa mesma persecução é o que resta do nosso entendimento
de desígnio coletivo. Sabemos o que custam as coisas mas não fazemos ideia do que valem. Perante uma decisão judicial ou um ato legislativo já não perguntamos: É bom? É justo? É adequado?
É correto? Vai ajudar a melhorar a sociedade ou
o mundo? As questões políticas costumavam ser estas, ainda que não tivessem respostas fáceis.

Temos de reaprender a colocá-las.
Tony Judd, Ill fares the land, 2010

 

Anos oitenta. Thatcher e Reagan. O nascimento do neoliberalismo. Ainda se vivia intensamente a Guerra Fria e, reagindo à utopia comunista de engenharia social, mostravam-nos uma sociedade em que o Estado era o grande inimigo e o indivíduo livre era a medida de todas as coisas. A desregulação estava na ordem do dia. Thatcher declarou que “Não há alternativa”. Em 1989, o Muro de Berlim caiu e começou a marcha triunfal do capitalismo livre e desregulado. Os conceitos de “engenharia social“ e “solidariedade” foram progressivamente associados a ideias utópicas perigosas e a um Estado que controla tudo.

Todavia, num passado não muito distante, este Estado-nação moderno fora uma tentativa de reformular a coabitação humana e de a basear em fundações mais racionais que as anteriores. Apelidámos essa persecução de um tal Estado-nação o “projeto civilizacional”. O poder e a política estavam inseparavelmente ligados, nesse esforço. Depois de 1989, tornou-se cada vez mais claro que o poder se evaporava gradualmente para cima, para uma espécie de terra de ninguém de agentes económicos globais. Por sua vez, a política vazou para o nível inferior,
o da “política da vida” individual. O “poder” criou um lugar para si próprio, “independente” da política. A política estabeleceu-se ao nível da vida individual, mas sem conseguir um impacto signi cativo. No meio, cou a casa semi-vazia do Estado-nação. Thatcher e Reagan aplaudiram. Os estados passaram a ser menos dirigidos politicamente e mais geridos. A gestão também implica engenharia social, mas sem os ideais que lhe estão associados.

Nas décadas subsequentes a 1989, o indivíduo deixou-se seduzir pelo desejo de “cada vez mais, mais depressa e mais barato”. O egotismo “racional” proposto por ideólogos neoliberais como Ayn Rand mostrou-se pouco racional. O indivíduo parecia não se preocupar com o facto de estar a ultrapassar os limites ecológicos do seu desejo. Os únicos limites verdadeiros de todos esses desejos eram determinados pelo “mercado”, esse mercado livre e desregulado, supostamente guiado por uma “mão invisível”.

A cegueira face às consequências das nossas ações individuais levou igualmente ao término histórico do contrato geracional. A construção das sociedades a longo prazo fora sempre instigada pela preocupação com as gerações futuras. Essa preocupação ainda é verbalizada hoje, mas já não é visível nas nossas ações. Sabemos perfeitamente que prolongar as nossas exigências individualistas atuais em persecução de um crescimento infinito tornará
as gerações futuras reféns de um problema insolúvel. Sabemos que manter tudo na mesma já não é uma opção. E, no entanto, ainda insistimos. A questão já não é se
tem de haver mudança. A questão é se essa mudança será o resultado de “declínio” ou de “planeamento”, de “negligência frívola” ou de “responsabilidade política coletiva”.

Temos de encarar a questão renovada da possibilidade de engenharia social, principalmente à luz tanto de uma crise ecológica que a cada dia se torna mais visível e tangível, como das excrescências do “capitalismo de casino” que surgiu na crise de crédito de 2008. A gravidade dessas crises e a incapacidade das autoridades políticas de lhes reagirem adequadamente está a levar ao crescimento de cada vez mais núcleos de resistência que já não aceitam que o mercado livre nos negue a possibilidade de questionar os desequilíbrios que ele acarretou. Não se podem ignorar questões fundamentais. Será que as pessoas não podem ser mais do que atores solitários na utopia da ganância? Haverá outro equilíbrio possível entre mercado, governo e sociedade civil? Poderá a utopia neoliberal do “ego” ser substituída por outros ideais sem, simultaneamente, cair no marxismo ou em outras alternativas utópicas do século XX? Haverá outras formas possíveis de pôr em prática a engenharia social? A resposta à última questão é “sim”!

Assistimos à emergência de cada vez mais práticas alternativas à nossa volta. Na Holanda, o jornalista Pieter Hilhorst, atualmente vereador da câmara de Amesterdão, chama-lhes “autoajuda coletiva”. Na Alemanha, o psicólogo social Harald Welzer está a reunir centenas de histórias acerca de práticas alternativas no seu site Futurzwei.
Na Flandres, o Ministerie van Ideeën (Ministério das
Ideias) está a fazer algo semelhante. Tem tudo que ver com os “cidadãos em ação” tomarem o controlo, não individualmente mas enquanto comunidades. Questões tão simples como “que coisas ainda queremos fazer juntos?” e “agir em conjunto: como é que costumávamos fazer isso?” conduziram a práticas concretas inspiradoras. Juntas, essas práticas não formam um todo sem ambiguidades, apesar de atuarem no seio de uma
esfera coletiva. Essa esfera implica, antes de mais, uma “repolitização”. Há muitas alternativas!

Guy Gypens: Diretor Artístico do Kaaitheater (Bruxelas)

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